
A recuperação mostra como proteger ovos, praias e áreas marinhas pode reverter perdas, mas o avanço ainda é desigual.
Em uma praia das ilhas de Sabah, na Malásia, filhotes de tartaruga-verde deixam a areia com poucos centímetros de tamanho e enfrentam imediatamente predadores, redes de pesca, poluição e alterações no ambiente marinho. Ainda assim, a espécie conseguiu uma mudança rara no cenário global da conservação: saiu da categoria de ameaçada e passou a ser classificada como “pouco preocupante”.
A reclassificação, anunciada pela União Internacional para a Conservação da Natureza, contrasta com a tendência geral de perda da biodiversidade. O resultado não significa que todas as populações estejam seguras. Ele indica que, considerando a espécie em escala global, os esforços acumulados ao longo de décadas produziram uma recuperação suficiente para reduzir o nível de risco.
O resultado apareceu onde a proteção virou rotina
Nas Turtle Islands, em Sabah, a recuperação pode ser observada em um indicador direto: a quantidade de ninhos. O número anual passou a superar 20 mil, aproximadamente três vezes o registrado na década de 1970. O crescimento é associado a mais de cinco décadas de medidas de conservação, segundo Maklarin Lakim, diretor do Sabah Parks.
O trabalho combina ações que atuam em diferentes fases do ciclo de vida do animal. Ovos são transferidos para áreas protegidas, praias de desova recebem atenção permanente e zonas marinhas são preservadas. Também existem restrições ao comércio de produtos derivados das tartarugas, uma resposta à caça para consumo e ao uso do casco.
Segundo o WWF, o relatório Living Planet, divulgado em outubro de 2026, registrou uma redução de 73% no tamanho médio das populações de animais monitoradas ao longo de 53 anos. Ao mesmo tempo, cerca de metade dos milhares de vertebrados avaliados permaneceu estável ou cresceu, grupo que inclui as tartarugas-verdes.
Uma conquista que ainda depende do lugar
A classificação global pode esconder diferenças importantes entre regiões. Algumas populações de tartarugas-verdes continuam ameaçadas e em queda, mesmo depois da melhora observada no conjunto da espécie. Essa desigualdade é uma das razões pelas quais a nova categoria não deve ser interpretada como autorização para reduzir a vigilância.
As demais espécies de tartarugas marinhas enfrentam uma situação mais delicada. Entre as seis espécies citadas no levantamento, todas permanecem vulneráveis ou criticamente ameaçadas, com exceção da tartaruga-de-casco-chato, cuja situação não está definida por falta de dados suficientes.
O quadro também revela um limite importante dos rankings de conservação. Uma espécie pode melhorar globalmente e, ainda assim, continuar desaparecendo em determinada costa. A média mundial ajuda a medir tendências amplas, mas não substitui o monitoramento local de praias, ninhos, rotas migratórias e áreas de alimentação.
Como a conservação muda o destino dos filhotes
A proteção dos ovos é uma das medidas mais visíveis. Em vez de permanecerem expostos a coleta, erosão, circulação de pessoas ou animais, os ninhos podem ser deslocados para áreas controladas. A estratégia aumenta a chance de nascimento, mas não resolve sozinha os riscos posteriores, que incluem captura acidental em redes, colisões, ingestão de resíduos e perda de habitat.
A pesca também está no centro do problema. Tartarugas podem morrer presas em equipamentos destinados a outras espécies, mesmo quando não são o alvo da atividade. Por isso, a recuperação exige fiscalização, regras para as áreas de pesca e soluções técnicas capazes de permitir a fuga dos animais.
O aquecimento do clima acrescenta outra pressão. A temperatura durante o desenvolvimento dos ovos influencia o sexo dos filhotes, e o calor maior tende a produzir uma proporção mais elevada de fêmeas. A alteração pode favorecer a reprodução em alguns momentos, mas também desequilibrar populações quando se combina com a perda de praias e a elevação do nível do mar.
Da pesquisa genética à mudança dentro de casa
A bióloga marinha Juanita Joseph, professora da Universiti Malaysia Sabah, acompanha o esforço de conservação em Sabah e desenvolve pesquisas genéticas sobre as tartarugas. A investigação ajuda a entender a diversidade das populações e pode orientar decisões sobre proteção e manejo.
O trabalho também envolveu escolhas pessoais. Joseph contou que precisou convencer o próprio pai a deixar de comer ovos de tartaruga, prática que mostra como a conservação depende de mudanças culturais além das medidas oficiais. Ao comentar a reclassificação da espécie, ela disse: “Never in my mind (did I think) that one day turtles can be ‘least concern.’ I cried … I said I’ve done my part”.
A declaração resume uma transformação que não aconteceu com uma única descoberta nem com uma ação isolada. O avanço veio da combinação entre proteção de praias, controle do comércio, pesquisa, fiscalização e participação de comunidades. Também mostra que resultados ambientais costumam aparecer depois de décadas, e não dentro do calendário de um único projeto.
O que a experiência ensina para a Amazônia
Para a Amazônia, o caso oferece uma referência prática sobre como transformar conservação em política contínua. Estados amazônicos com áreas costeiras e estuarinas, como Amapá e Pará, enfrentam a necessidade de conciliar pesca, ocupação humana, turismo, circulação de embarcações e proteção de habitats. A experiência de Sabah sugere que ações isoladas têm menos efeito do que redes permanentes de monitoramento e proteção.
A lição também alcança os demais estados da região. Mesmo onde não há praias de desova, unidades de conservação, comunidades ribeirinhas, universidades e órgãos de fiscalização participam de uma mesma lógica: acompanhar populações, proteger áreas críticas e evitar que o comércio ou a captura acidental anulem os ganhos obtidos em um ponto específico.
O caso das tartarugas-verdes não elimina as ameaças. Ele demonstra que a trajetória de uma espécie pode mudar quando os esforços persistem por décadas, mas também que a recuperação precisa ser acompanhada por região. A próxima etapa é manter a proteção nas áreas onde os ninhos aumentaram e identificar as populações que ainda estão em declínio.
Com informações de World Wildlife Fund.
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