
Nanopartículas magnéticas capturam elementos estratégicos em amostras do Complexo Barreira, estudado por pesquisadores desde 2025
Da trincheira ao laboratório
As amostras de argila retiradas de trincheiras no sul de Roraima seguiram para um laboratório da Universidade de São Paulo com uma tarefa específica: separar os elementos de terras raras presentes no material. No local, pesquisadores conseguiram aplicar uma técnica baseada em nanotecnologia e nanopartículas magnéticas, abrindo caminho para um teste diretamente na área onde as amostras foram coletadas.
O material veio do Complexo Barreira, em Caracaraí, região estudada desde 2025 por pesquisadores da Universidade Federal de Roraima. Os trabalhos identificaram rochas e argilas com alta concentração de elementos de terras raras, grupo de 17 elementos químicos usado em setores estratégicos da indústria. A área fica na zona rural do município, a cerca de 140 quilômetros de Boa Vista, entre as serras Baraúna e do Anauá. O terreno estudado tem 120 hectares e apresenta rochas e argilas de aspecto brilhante.
Como as nanopartículas capturam os elementos
O método desenvolvido na USP funciona como uma separação seletiva dentro de uma solução. As nanopartículas magnéticas são preparadas para se ligar a determinado elemento presente no material analisado. Depois que esse elemento se prende às partículas, um ímã é usado para retirá-las da mistura, levando consigo a terra rara que foi capturada.
Na etapa seguinte, as nanopartículas são colocadas em um meio com acidez controlada. Essa mudança libera o elemento separado e deixa as partículas disponíveis para um novo ciclo. O processo foi aplicado às amostras enviadas de Roraima pela equipe do professor Henrique Eisi Toma, doutor em Química e pesquisador da USP. A técnica não mistura todos os elementos em uma única etapa, porque as partículas são preparadas para reconhecer especificamente o alvo presente na solução.
O que muda em relação ao tratamento químico
Sem a nanotecnologia, a identificação e a separação das terras raras exigiriam um tratamento químico capaz de dissolver o mineral em ácidos. Esse procedimento pode gerar vapores e resíduos poluentes nocivos, além de exigir cuidados específicos quando há materiais radioativos envolvidos. Roupas de proteção e reatores especiais seriam necessários para reduzir os riscos à saúde dos trabalhadores durante a operação.
Na técnica aplicada pela USP, a proposta é capturar, retirar e liberar o elemento sem produzir rejeito poluente na natureza. Toma descreveu o procedimento como circular, porque a mesma partícula pode ser recuperada e usada novamente. Segundo o pesquisador, os testes de laboratório mostraram que esse reaproveitamento é possível e que o custo cai à metade a cada reciclagem. A avaliação em campo deverá verificar como o sistema se comporta diante do material encontrado no Complexo Barreira.
O próximo teste acontece no próprio Complexo Barreira
Depois dos resultados obtidos no laboratório, o objetivo passou a ser implementar o método na área de origem das amostras. A ida de Toma ao Complexo Barreira, em 19 de outubro, teve três frentes: compreender como as argilas e as rochas aparecem na natureza, medir a radioatividade e validar a tecnologia em condições de campo. A visita também aproximou a análise química da realidade geológica do local estudado pela UFRR.
A etapa de campo é importante porque uma amostra preparada em laboratório não reproduz sozinha todas as condições do terreno. O material precisa ser observado no ambiente em que ocorre, com atenção à composição das rochas e argilas e à presença de radioatividade. A tecnologia já foi testada com as amostras de Roraima dentro da USP, mas o próximo passo é demonstrar seu funcionamento no Complexo Barreira.
Por que as terras raras interessam à tecnologia
As terras raras reúnem 17 elementos químicos estratégicos para a indústria de alta tecnologia. Eles são usados na fabricação de baterias, turbinas eólicas, carros elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Por isso, separar esses elementos de maneira mais seletiva pode facilitar a análise de materiais minerais e reduzir a dependência de procedimentos que exigem grande quantidade de reagentes agressivos.
No caso de Roraima, o interesse científico está ligado à concentração identificada nas amostras de rochas e argilas do Complexo Barreira. A técnica não transforma automaticamente a área em uma mina nem define, por si só, a viabilidade de exploração. O que ela oferece neste momento é um método de separação desenvolvido e testado em laboratório, com possibilidade de avaliação no próprio local de origem. A confirmação do desempenho em campo será decisiva para medir o alcance real da proposta.
Uma tecnologia que ainda precisa ser validada fora do laboratório
Os resultados descritos para as amostras de Roraima mostram que as nanopartículas conseguiram capturar e separar elementos presentes na argila. A afirmação sobre menor impacto ambiental está ligada ao funcionamento circular do processo e à ausência de rejeitos poluentes apontada pelo pesquisador. Mesmo assim, a operação em campo envolve condições diferentes das encontradas em uma solução controlada, incluindo a composição natural do material e a necessidade de medir a radioatividade.
Também é preciso distinguir a separação química da avaliação completa de um depósito mineral. A técnica pode tornar o procedimento mais seguro e reduzir a geração de resíduos, mas o teste em campo deverá indicar como ela funciona diante das características do Complexo Barreira. A pesquisa, portanto, está entre uma prova de laboratório e uma aplicação ainda em validação. O avanço está em levar para Roraima um método que não apenas identifica as terras raras, mas tenta separá-las com partículas recuperáveis.
O valor de olhar a argila de perto
A cena que resume o projeto começa de forma simples: uma amostra retirada de uma trincheira, com aparência brilhante, é levada para análise. Dentro do laboratório, partículas magnéticas passam a funcionar como capturadores seletivos, prendem um elemento, são retiradas por um ímã e depois liberadas em uma solução com acidez controlada. Esse caminho conecta a observação do terreno à química de precisão.
O Complexo Barreira ainda está no estágio de investigação científica, mas já reúne duas escalas de conhecimento. De um lado, o trabalho de campo da UFRR registra a ocorrência de rochas e argilas com terras raras. De outro, a equipe da USP testa uma forma de separar esses elementos usando menos etapas potencialmente poluentes e reaproveitando as nanopartículas. A próxima resposta não virá apenas da aparência da argila, mas da capacidade de a tecnologia repetir no terreno o resultado obtido no laboratório.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














