Mar que sobe abre caminho para espécies marinhas invasoras

Caranguejo-peludo-chinês com as pinças erguidas sobre o fundo de pedras

Estudo internacional publicado na Nature Ecology & Evolution projeta que mais de dois terços das terras costeiras tomadas pelo oceano até 2100 poderão abrigar 122 animais marinhos exóticos, com risco maior nos estuários.

Entre 290 mil e 470 mil quilômetros quadrados de litoral que devem ser cobertos pelo mar nas próximas décadas poderão se tornar hábitat para 122 espécies de animais marinhos que já vivem fora de sua região de origem. A área vai do tamanho da Itália ao da Suécia e corresponde a mais de dois terços de toda a terra costeira que será inundada até meados e o fim deste século. A projeção está em um estudo publicado em setembro de 2026 na revista científica Nature Ecology & Evolution.

O trabalho foi liderado por Qiang Lin, do Instituto de Oceanologia do Mar do Sul da China, da Academia Chinesa de Ciências, em Guangzhou, e por Xuan Liu, do Instituto de Zoologia da mesma academia e da Universidade Normal de Pequim. A equipe reúne 18 pesquisadores de instituições da China, do Japão, da Hungria, dos Estados Unidos, do Canadá, da Itália e da Finlândia.

A pergunta dos cientistas era simples, mas ainda não tinha resposta em escala global. Muitos estudos já calcularam como o aquecimento desloca a distribuição de espécies invasoras. Faltava medir o que acontece quando a elevação do nível do mar transforma terra firme em fundo raso, abrindo um território novo que pode ser ocupado por organismos marinhos vindos de fora.

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Para responder, o grupo modelou a distribuição futura de 122 espécies de animais marinhos não nativos já estabelecidos em diferentes partes do mundo. A lista inclui o caranguejo-peludo-chinês, a ostra-do-pacífico, o camarão-tigre-asiático, o caranguejo-verde-europeu e a estrela-do-mar-do-pacífico-norte. Os registros de ocorrência vieram de bases públicas de biodiversidade, como o Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade (GBIF) e o Sistema de Informação sobre Biodiversidade Oceânica (OBIS), e combinados com variáveis ambientais marinhas e com projeções das áreas que devem ser inundadas.

As simulações usaram cenários climáticos com elevação contínua do mar. No cenário de emissões moderadas, chamado SSP2-4.5, a mediana global do nível do mar sobe 20 centímetros até 2050 e 56 centímetros até 2100. Em todos os cenários testados, as espécies invasoras conseguiriam colonizar mais de dois terços das terras costeiras inundadas nas regiões onde já estão presentes.

Caranguejo-verde-europeu (Carcinus maenas) coletado na costa da Bélgica, no Mar do Norte. A espécie também está entre as invasoras modeladas pelos pesquisadores.
Caranguejo-verde-europeu (Carcinus maenas) coletado na costa da Bélgica, no Mar do Norte. A espécie também está entre as invasoras modeladas pelos pesquisadores. Foto: Hans Hillewaert

O avanço seria mais intenso perto de estuários, sobretudo nas latitudes médias. Segundo os autores, esses ambientes são especialmente vulneráveis porque fazem a ligação entre terra e mar e são centros de atividade humana. Entre as regiões apontadas como de maior risco estão o leste dos Estados Unidos, o Golfo do México, o litoral do Mar do Norte, o sudeste da China e o norte da Austrália.

Para a equipe, os resultados revelam uma rota de invasão biológica que vinha sendo ignorada. As invasões estão entre as principais causas de perda de biodiversidade e de mudanças nos ecossistemas, e a elevação do mar passa a funcionar como uma porta de entrada adicional. “Isso reforça a necessidade de considerar a elevação do nível do mar ao fazer previsões de risco de invasão em cenários de mudança climática”, escreveram os autores.

O estudo defende monitoramento precoce e planos de manejo para reduzir os efeitos sobre a biodiversidade, a produtividade pesqueira e outros serviços prestados pelos ecossistemas costeiros. “O desenvolvimento de sistemas eficazes de alerta precoce e de estratégias de manejo proativas se tornará crítico para detectar e mitigar invasões marinhas nas regiões inundadas, à medida que as terras costeiras continuam a ser retomadas pelo oceano em todo o mundo”, afirmaram. Os pesquisadores ressalvam, porém, que há incertezas e que nem todo hábitat recém-inundado será colonizado rapidamente.

Camarão-tigre-asiático (Penaeus monodon), espécie do Indo-Pacífico criada em aquicultura. Exemplares já foram capturados por pescadores artesanais em reservas extrativistas do nordeste do Pará.
Camarão-tigre-asiático (Penaeus monodon), espécie do Indo-Pacífico criada em aquicultura. Exemplares já foram capturados por pescadores artesanais em reservas extrativistas do nordeste do Pará. Foto: Epipelagic

O litoral brasileiro não aparece entre as áreas destacadas pelos autores, mas uma das espécies da lista já é conhecida na costa amazônica. O camarão-tigre-asiático (Penaeus monodon), originário do Indo-Pacífico e muito criado em fazendas de aquicultura, tem registro no Brasil desde 1987, no Maranhão, e já foi encontrado na plataforma continental do Pará e na foz do rio Oiapoque, no Amapá.

Em 2025, pesquisadores do Laboratório de Genética Aplicada do Instituto de Estudos Costeiros da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Bragança, analisaram o DNA de 17 camarões-tigre obtidos com pescadores artesanais nas reservas extrativistas Caeté-Taperaçu, Araí-Peroba e Gurupi-Piriá e na ilha de Canelas, na maior faixa contínua de manguezais do mundo. O trabalho, que tem a pesquisadora Grazielle Evangelista-Gomes como autora correspondente e foi publicado na revista Scientific Reports, identificou duas linhagens com 7,7% de divergência genética, o que indica a presença de duas espécies do invasor na costa norte do país.

Rio Caeté, visto de Vila Cuera, em Bragança (PA). No município fica o Instituto de Estudos Costeiros da UFPA, e em sua costa está a praia de Ajuruteua, um dos pontos de coleta dos camarões-tigre analisados pelos pesquisadores.
Rio Caeté, visto de Vila Cuera, em Bragança (PA). No município fica o Instituto de Estudos Costeiros da UFPA, e em sua costa está a praia de Ajuruteua, um dos pontos de coleta dos camarões-tigre analisados pelos pesquisadores. Foto: Túllio F

As linhagens compartilham variantes genéticas com camarões de 11 e de nove países, respectivamente, incluindo um centro de criação no Vietnã. Os autores do estudo paraense associam esse tipo de invasão a falhas de manejo em cultivos, que permitem a fuga de animais para o ambiente natural, e alertam para o risco de competição com espécies nativas e de disseminação de doenças em manguezais que funcionam como berçário para a fauna marinha e para a pesca da região.

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