Equipe passa sete dias sob ninho de harpia na Bahia e tenta marcar filhote com GPS para acompanhar a vida em florestas fragmentadas

Equipe passa sete dias sob ninho de harpia na Bahia e tenta marcar filhote com GPS para acompanhar a vida em florestas fragmentadas
Ilustração: Revista Amazônia

Missão do Projeto Harpia Mata Atlântica reuniu pesquisadores sob um ninho na RPPN Estação Veracel, em Porto Seguro, para obter dados sobre a dispersão de um jovem.

Sete dias sob a árvore

Durante quatro dos sete dias de uma expedição na Mata Atlântica baiana, uma equipe permaneceu em silêncio sob um ninho de harpia, em prontidão para uma tentativa que dependia de uma oportunidade rara. O objetivo era capturar um filhote e instalar nele um dispositivo GPS, capaz de registrar seus deslocamentos depois que deixasse a área do ninho. A espera exigia atenção contínua, porque qualquer aproximação ao local precisava considerar a presença dos adultos e a segurança do jovem.

A operação foi descrita como uma chance em milhares, mas não se resumia à captura. Cada informação obtida poderia ajudar a compreender como uma das maiores aves de rapina do Brasil se movimenta em uma paisagem formada por reservas, remanescentes florestais e áreas isoladas. O interesse central estava na dispersão do indivíduo, fase em que o jovem se afasta do território de origem e passa a enfrentar as condições de uma floresta fragmentada. O comportamento desse filhote poderia acrescentar dados a uma população ainda pouco conhecida no bioma.

O ninho fica em Porto Seguro

A expedição foi liderada pelo professor e pesquisador Áureo Banhos, da Universidade Federal do Espírito Santo, e teve como destino a Reserva Particular do Patrimônio Natural Estação Veracel, em Porto Seguro. A área protege mais de 6 mil hectares de floresta e abriga pelo menos outros três ninhos conhecidos de harpia. Também funciona como refúgio para espécies como anta e onça-pintada, além da própria ave de rapina que motivou a missão.

A equipe reuniu ainda os médicos-veterinários Maria Valdetaro e Paulo Quadros e a bióloga Mylena Kaizer, pesquisadores do projeto e doutorandos pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação da Universidade Federal do Espírito Santo. Na assistência de campo estavam o fotógrafo e guia ornitológico Jailson Souza e o monitor ambiental Sandro Dias, da reserva. O trabalho integra o Projeto Harpia Mata Atlântica, que acompanha esforços de conservação na região desde a localização do primeiro ninho de harpia no sul da Bahia, em 2005.

O GPS acompanha a dispersão

O dispositivo planejado para o filhote teria uma função específica: acompanhar sua dispersão. Esse período é decisivo para uma ave que precisa encontrar áreas adequadas para viver, obter alimento e, mais tarde, participar da renovação da população. Em florestas contínuas, a movimentação ocorre dentro de uma paisagem mais ampla. Na Mata Atlântica, porém, o caminho pode ser interrompido por estradas, linhas de transmissão e trechos de vegetação separados.

O registro dos deslocamentos ajudaria a mostrar como o jovem utiliza os remanescentes e quais obstáculos aparecem entre eles. Também poderia contribuir para avaliar a sobrevivência da espécie em ambientes fragmentados, sem transformar um único indivíduo em retrato completo de toda a população. A harpia ocorre naturalmente em baixa densidade, precisa de territórios extensos e apresenta ciclo reprodutivo lento. Por isso, acompanhar um filhote desde o ninho oferece uma oportunidade de observar uma etapa que costuma permanecer pouco documentada no sul da Bahia.

A maior ave de rapina do Brasil depende da floresta

A harpia é uma águia de grande porte, reconhecida pela crista de penas na cabeça, pelas garras robustas e pela capacidade de capturar animais que vivem nas árvores. Sua anatomia está ligada ao modo de caça: pernas fortes, pés largos e unhas curvas permitem segurar presas em meio à vegetação. A espécie ocupa posições altas na floresta e depende de árvores grandes para instalar seus ninhos, uma exigência que limita os locais disponíveis quando a cobertura florestal é reduzida.

Esse conjunto de características ajuda a explicar por que a conservação não depende apenas da proteção de um ninho. A ave precisa de espaço para se deslocar, de árvores capazes de sustentar a estrutura reprodutiva e de animais que componham sua dieta. Como a reprodução é lenta e a ocorrência natural se dá em baixa densidade, a perda de um território ou o isolamento entre áreas pode ter efeitos duradouros sobre a população. O acompanhamento do filhote buscava justamente relacionar o movimento de um animal às condições concretas da paisagem onde ele cresceria.

Uma população distribuída entre refúgios

Segundo Áureo Banhos, os principais refúgios com reprodução confirmada de harpia na Mata Atlântica estão no sul da Bahia. Além da RPPN Estação Veracel, a população se distribui por áreas como os parques nacionais do Pau-Brasil, do Monte Pascoal, do Descobrimento e da Serra das Lontras, a Reserva Biológica de Una e a RPPN Serra Bonita. São unidades e propriedades protegidas que integram uma rede de remanescentes, mas não formam necessariamente uma floresta contínua.

Essa distribuição torna o deslocamento um dos pontos centrais para a conservação. Estradas e linhas de transmissão atravessam a paisagem, enquanto a fragmentação reduz a conexão entre os locais onde a espécie pode encontrar abrigo e alimento. O isolamento entre áreas protegidas é agravado pela baixa oferta de árvores de grande porte apropriadas aos ninhos. A disponibilidade de presas também influencia a permanência da harpia, porque um território extenso precisa sustentar uma ave de grande tamanho e hábitos predatórios.

Dados para recuperar áreas perdidas

O estudo e o manejo adequados dessa população podem apoiar a recolonização de regiões da Mata Atlântica onde a harpia foi regionalmente extinta. A expressão depende de continuidade de pesquisa e proteção de habitat, não de uma única marcação. Informações sobre os trajetos, os locais usados e os obstáculos encontrados pelo jovem podem orientar a identificação de áreas prioritárias e ajudar a entender se os remanescentes existentes funcionam como refúgios conectados ou como pontos isolados.

Ela começou com uma equipe posicionada sob um ninho e com a expectativa de capturar um filhote, mas seu alcance está na pergunta prática que a floresta impõe: onde uma jovem harpia consegue seguir quando o território original termina? Cada deslocamento registrado pode aproximar pesquisadores dessa resposta e mostrar que conservar a espécie significa manter árvores, presas e caminhos em uma mesma paisagem.

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