Quatro telescópios gigantes em La Palma se movem em 20 segundos e completam a primeira etapa de rede que custou até 120 milhões de euros

Quatro telescópios gigantes em La Palma se movem em 20 segundos e completam a primeira etapa de rede que custou até 120 milhões de euros
Foto: Divulgação

Inauguração no Roque de los Muchachos conclui a fase dos telescópios de grande porte do observatório de raios gama que também terá sede no Chile.

Um telescópio capaz de sair de qualquer ponto do céu e apontar para outro em apenas 20 segundos: é essa a marca dos quatro Large-Sized Telescopes (LST) inaugurados nesta quinta-feira, 15 de outubro de 2026, no Observatório do Roque de los Muchachos, na ilha de La Palma, nas Canárias. Os instrumentos formarão a futura rede norte do Cherenkov Telescope Array Observatory (CTAO), apontado como o maior e mais potente observatório de astronomia de raios gama do mundo.

A infraestrutura foi desenvolvida em colaboração científica internacional que reúne onze países. Segundo o diretor do Instituto de Astrofísica de Canárias (IAC), Valentín Martínez Pillet, cada telescópio exigiu entre 25 e 30 milhões de euros, o que leva o custo total dos quatro a uma faixa entre 100 e 120 milhões de euros.

Feitos para perseguir explosões cósmicas

Os LST foram projetados para captar sinais de alguns dos eventos mais violentos do universo: explosões em que estrelas morrem, buracos negros que devoram matéria e fenômenos ligados a campos magnéticos extremos. Muitos desses episódios duram pouco, e a rapidez de resposta é o que permite observá-los antes que o sinal desapareça.

Martínez Pillet explicou como isso deve funcionar na prática: “Lo que vamos a hacer es responder a una llamada de otro tipo de observatorios que nos digan ‘aquí ha habido una explosión’ y dirigirlos hacia ese punto más rápidamente que ninguno”.

O pesquisador principal do Cherenkov, Ramón García López, destacou a mobilidade do conjunto: “Son capaces de moverse en 20 segundos de cualquier punto del cielo a cualquier punto del cielo”. Para ele, a nova fase terá também descobertas inesperadas: “Y ahí va a haber mucha serendipia, es decir, vamos a encontrar cosas que no estamos buscando, que no sabemos”.

A atmosfera como parte do detector

Os raios gama são uma forma de radiação eletromagnética extremamente energética. Eles não chegam à superfície da Terra, porque a atmosfera funciona como escudo. Ao penetrar nas camadas altas, porém, cada raio desencadeia uma cascata de partículas que produz um brevíssimo clarão de luz Cherenkov, e é esse clarão que os telescópios registram.

“Aquí miramos a nuestra atmósfera para entender qué fue el rayo gamma, qué energía tenía, de dónde venía cuando impacta en la parte alta de la atmósfera”, afirma García López. A pesquisadora do IAC Alicia López Oramas completa: “De manera indirecta podemos reconstruir la dirección de la que venía ese rayo gamma y entender qué energía tenía, incluso de dónde provenía y cómo fue producido”.

O desafio tecnológico é grande. A quantidade de fótons de raios gama das fontes estudadas é tão pequena que observá-los diretamente do espaço exigiria satélites com superfícies de detecção enormes. Os LST, em vez disso, usam a atmosfera como parte do sistema, com grandes superfícies refletoras e câmeras de cerca de três metros de diâmetro, com sensores que registram clarões de bilionésimos de segundo.

Segundo o IAC, a informação dos raios gama complementa a imagem do universo obtida pelos telescópios convencionais, como acrescentar cor a uma fotografia que até agora só podia ser vista em preto e branco.

Quatro telescópios, um só instrumento

Os quatro LST podem operar de forma independente, mas o trabalho conjunto melhora a precisão das medições e permite determinar com mais exatidão a origem dos sinais. Isso ajuda a identificar os objetos responsáveis pelas emissões e a entender os mecanismos capazes de liberar quantidades extraordinárias de energia. Para López Oramas, entre os alvos estão “campos magnéticos extremos, agujeros negros que están devorando estrellas, explosiones en las cuales mueren estrellas”.

Martínez Pillet ressaltou ainda a complementaridade com o Gran Telescopio Canarias (GTC), instalado no mesmo observatório: “Hay que conseguir saber más o menos dónde está ese objeto astrofísico para que luego, por ejemplo, el Gran Telescopio Canarias lo observe en otro rango del espectro y tener otras propiedades”. Segundo ele, “es la combinación de todo”.

Do LST-1 à rede completa

O primeiro telescópio, o LST-1, foi inaugurado em 2018 e desde então passou por calibração, ajustes e testes científicos. Com a chegada dos outros três, fica completo o conjunto de telescópios de grande porte previsto para o local.

O projeto, porém, seguirá crescendo. Estão previstos mais nove telescópios de porte médio, os Medium-Sized Telescopes (MST), que ampliarão a faixa de energias estudadas. A rede terá ainda uma segunda instalação no Chile, de onde será observado o céu do hemisfério sul. Juntas, as duas sedes ampliarão a cobertura do firmamento nos dois hemisferios.

O que isso significa para a Amazônia

O Roque de los Muchachos fica na Espanha, mas a lógica da rede interessa à região amazônica por um motivo concreto: a rede do CTAO terá uma sede no Chile, na América do Sul, e a observação dos dois hemisférios é o que dará ao projeto cobertura ampla do céu. A cooperação entre países para dividir custos e infraestrutura científica é um modelo que também é discutido por pesquisadores brasileiros e amazônicos em áreas como astronomia e monitoramento ambiental.

Celebração e reconhecimento

A cerimônia reuniu em La Palma representantes de instituições científicas e delegações dos onze países participantes da colaboração LST, além do Nobel de Física Takaaki Kajita. Martínez Pillet chamou o dia de celebração para a comunidade astrofísica internacional e agradeceu o apoio das instituições canárias, da sociedade das ilhas e dos pesquisadores envolvidos. “Esto indica el apoyo que existe hacia el Observatorio del Roque de los Muchachos, a la isla de La Palma, a la astrofísica que podemos hacer aquí”, afirmou.

Os próximos passos são a instalação dos nove telescópios MST em La Palma e a consolidação da segunda sede no Chile, que completarão a cobertura dos dois hemisférios.

Com informações de Instituto de Astrofísica de Canarias (IAC).

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA