
Relatório da ONU mostra avanços, retrocessos e uma janela curta para governos e empresas acelerarem ações sustentáveis.
Faltam quatro anos para 2030, mas o balanço global da Agenda 2030 mostra que o tempo restante não será suficiente para manter o ritmo atual. Entre as 139 metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) com tendências históricas confiáveis, 36% estão no caminho certo ou apresentam progresso moderado, enquanto 49% avançam lentamente e 15% regrediram em relação a 2015. O resultado coloca governos, empresas e instituições diante de uma escolha prática: adaptar decisões, investimentos e operações ou ampliar problemas que já atingem pessoas, economias e ecossistemas.
Segundo a Organização das Nações Unidas, o Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2026 foi divulgado em 2026 e avalia o cumprimento das metas globais adotadas por 193 países em 2015. No panorama geral, considerando o conjunto das metas monitoradas, 35% estão no rumo esperado ou mostram progresso moderado. A diferença entre os percentuais decorre dos recortes usados no documento, mas ambos apontam para a mesma conclusão: a maior parte da agenda ainda exige aceleração.
O que avançou desde 2015
O quadro não é apenas de fracasso. A proteção social passou a alcançar mais da metade da população mundial, as mortes de crianças e de mulheres relacionadas à gestação diminuíram e a participação feminina nos parlamentos chegou a 27%. A proporção da população conectada à internet subiu de 40% para 74%, abrindo novas possibilidades de educação, trabalho e acesso a serviços.
Também houve expansão no acesso à água potável e ao saneamento. A eletricidade chegou a 92% da população global, com um terço desse atendimento baseado em fontes renováveis. As novas infecções por HIV e as mortes associadas à Aids caíram cerca de um terço, 59 países eliminaram pelo menos uma doença tropical negligenciada e 134 atingiram a meta de redução da mortalidade infantil.
O monitoramento também melhorou. Há uma década, faltavam dados para metade dos indicadores dos ODS. Hoje, um banco de dados global reúne 3 milhões de registros e cobre praticamente todos os indicadores, permitindo comparar tendências e identificar onde a política pública não está funcionando.
A conta que permanece aberta
Os avanços convivem com números que impedem qualquer comemoração definitiva. Mais de 800 milhões de pessoas continuam em extrema pobreza e 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar. Cerca de 2,1 bilhões não têm acesso a serviços de água potável geridos com segurança, mais de 150 milhões de crianças sofrem com retardo no crescimento e a mortalidade materna permanece quase três vezes acima da meta global.
A desigualdade também aparece no cotidiano: uma em cada cinco pessoas ainda relata alguma forma de discriminação. No financiamento, o déficit anual para cumprir os ODS nos países em desenvolvimento gira em torno de US$ 4 trilhões. A assistência oficial ao desenvolvimento caiu 23% em 2025, segundo o relatório, enquanto o custo do serviço da dívida em países de baixa e média renda chegou a US$ 1,4 trilhão.
O clima torna o cenário ainda mais apertado. O documento registra que 2024 foi o ano mais quente já medido, com a temperatura global acima do limite de 1,5 °C em relação ao período pré-industrial. Em 2025, a média ficou 1,43 °C acima desse referencial, e a concentração de dióxido de carbono alcançou o maior nível em 2 milhões de anos, conforme os dados apresentados pela ONU.
Por que a agenda interessa às empresas
Os ODS não são apenas uma lista para governos. Eles funcionam como uma estrutura para avaliar se uma empresa resolve um problema sem criar outro em sua cadeia de produção, no uso de recursos naturais ou na relação com trabalhadores e comunidades. Essa mudança desloca a sustentabilidade da área de comunicação para decisões sobre compras, logística, energia, crédito, contratação e desenvolvimento de produtos.
Na prática, a gestão ESG pode reduzir custos operacionais, diminuir riscos de fornecimento, melhorar a capacidade de atrair profissionais e aproximar negócios de investidores interessados em desempenho ambiental, social e de governança. Esses benefícios, porém, dependem de metas verificáveis. Declarar compromisso com um ODS sem medir resultados não altera o impacto da operação e pode expor a empresa a acusações de maquiagem verde.
O relatório também mostra que a própria medição continua vulnerável. Cerca de 70% dos indicadores têm hoje boa cobertura de dados, mas as metas ligadas à igualdade de gênero, à ação climática, à vida na água e à paz e justiça ainda possuem cobertura inferior a 40%. A interrupção de programas internacionais de pesquisa, como as pesquisas DHS suspensas após cortes de financiamento da USAID em fevereiro de 2025, ameaça a continuidade de estatísticas essenciais em países de baixa renda.
O reflexo para a Amazônia
Na Amazônia, a Agenda 2030 conecta temas que costumam ser tratados separadamente. Água e saneamento, energia, saúde, conectividade, combate ao desmatamento, geração de renda e proteção de comunidades tradicionais fazem parte da mesma equação de desenvolvimento. Isso vale para os estados da região e para empresas que atuam em cadeias como alimentos, mineração, bioeconomia, transporte, turismo e produção de energia.
Os ODS 6, sobre água e saneamento, 8, sobre trabalho decente e crescimento econômico, 13, sobre ação climática, 14, sobre vida na água, e 15, sobre vida terrestre, ajudam a transformar um debate amplo em critérios de acompanhamento. Uma iniciativa amazônica só poderá ser considerada sustentável se demonstrar resultados para as pessoas e para o território, não apenas apresentar uma narrativa ambiental.
O prazo até 2030
Conflitos, mudanças climáticas, tensões geopolíticas e choques econômicos formam o que a ONU classifica como uma emergência global de desenvolvimento. Guerras já provocaram o deslocamento forçado de 118 milhões de pessoas, e a combinação de crises pode apagar em poucos meses ganhos obtidos ao longo de anos.
A organização sustenta que os objetivos continuam tecnicamente possíveis, mas dependem de ações coordenadas e de financiamento estável. Para governos, isso significa integrar metas aos orçamentos e às políticas públicas. Para empresas, significa estabelecer indicadores, publicar resultados e considerar impactos ambientais e sociais antes de decidir onde produzir, comprar ou investir.
Os próximos quatro anos serão o período decisivo para transformar compromissos em resultados mensuráveis antes da data limite de 2030, com novas avaliações globais acompanhando o avanço de cada objetivo.
Com informações de Organização das Nações Unidas.
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