
Um surto de hantavírus a bordo de um navio de cruzeiro no Atlântico Sul, em abril e maio de 2026, recolocou as doenças transmitidas por animais no centro do debate sobre pandemias. Segundo reportagem publicada em 8 de junho de 2026 na revista Current Biology, passageiros do navio polar Hondius foram infectados pelo vírus Andes, a única variedade de hantavírus com transmissão confirmada entre pessoas.
O episódio, somado a uma epidemia de ebola na República Democrática do Congo, levou especialistas a cobrar mais vigilância e cooperação internacional. Para a Amazônia, o alerta tem endereço conhecido. O sudeste do Pará deu nome a um hantavírus próprio, identificado em 1995 no distrito de Castelo dos Sonhos, em Altamira.
O que aconteceu no Hondius
Segundo a Current Biology, o surto provavelmente começou com um passageiro que havia visitado a Argentina. Ele teve os primeiros sintomas em 6 de abril e morreu a bordo no dia 11, sem diagnóstico.
A viúva desembarcou com o corpo na ilha de Santa Helena, em 24 de abril, e voou para a África do Sul. No dia seguinte, passou mal em outro voo, foi retirada do avião e morreu um dia depois.
Em 2 de maio, um terceiro passageiro morreu a bordo. Dois dias depois, exames apontaram o vírus Andes como causa. Tripulação e passageiros entraram em quarentena, e os contatos passaram a ser rastreados. Até 21 de maio, a revista contabilizava 11 infecções conhecidas. Em 2 de julho, a OMS declarou o surto encerrado, com 13 casos e três mortes. Autoridades de 33 países e territórios acompanharam mais de 650 contatos.
Um vírus raro, lento e perigoso
O vírus Andes vive no rato-do-arroz-de-cauda-longa, roedor da América do Sul. A infecção costuma ocorrer quando a pessoa respira partículas contaminadas por fezes, urina ou saliva do animal.
O que o torna temido é a combinação de fatores. A letalidade gira em torno de 33%, e a incubação vai de uma a oito semanas. Em 2018, um surto na Argentina causou 11 mortes entre 34 infectados, todos ligados a uma única transmissão do roedor para uma pessoa.
Durante o surto, o pesquisador Donald Milton, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e outros cinco especialistas pediram à Organização Mundial da Saúde que mudasse sua posição padrão sobre transmissão pelo ar. “A carga da prova não deve recair sobre quem defende cautela. Deve recair sobre quem defende relaxá-la”, escreveram, em artigo no BMJ.
Entenda o hantavírus no Brasil
Em nota divulgada em 8 de maio de 2026, o Ministério da Saúde afirmou que o hantavírus “não representa um risco para o Brasil” e que não há registro do genótipo Andes circulando no país. Segundo a pasta, os casos brasileiros não apresentam transmissão entre pessoas.
Mesmo assim, a doença é antiga por aqui. De 1993 a dezembro de 2025, o Brasil somou 2.412 casos e 926 mortes. Só em 2025, foram 35 casos e 15 óbitos, segundo o ministério. A pasta identificou nove genótipos de hantavírus em roedores silvestres no país.
O hantavírus que nasceu no Pará
O vírus Castelo dos Sonhos foi detectado pela primeira vez em 1995, no distrito de mesmo nome, em Altamira, no sudeste paraense. Estudo publicado em 2011 na revista Emerging Infectious Diseases registrou 72 casos da síndrome pulmonar por hantavírus no sudeste do Pará entre 1995 e 2010.
O mesmo trabalho apontou letalidade de 43,3% em Mato Grosso e na Amazônia brasileira. Um roedor do mesmo gênero do transmissor argentino, o rato-do-arroz Oligoryzomys utiaritensis, foi apontado como possível reservatório.
A ligação com a floresta é direta. Desmatamento, abertura de lavouras e armazenamento de grãos aproximam roedores silvestres das casas, galpões e paióis. É nesse contato que o vírus encontra as pessoas.
As orientações de saúde pública para áreas rurais seguem as mesmas há anos. Arejar galpões e casas fechadas antes de entrar, não varrer a seco locais com fezes de roedores e umedecer o chão com água sanitária antes da limpeza.
Ebola de um tipo para o qual o mundo não se preparou
Logo depois do susto no navio, outro vírus letal reapareceu na África. O surto na província de Ituri, no Congo, é causado pelo ebola Bundibugyo, variedade para a qual não existem vacinas nem tratamentos específicos.
Em 17 de maio, quando o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou emergência de saúde pública de importância internacional, havia 8 casos confirmados e 80 mortes suspeitas, segundo a revista. A previsão da OMS era de seis a nove meses para uma vacina específica.
O quadro piorou. Segundo boletim da OMS de 8 de outubro de 2026, a República Democrática do Congo somava 8.728 casos confirmados e 4.205 mortes confirmadas até 6 de outubro, com letalidade de 48,2%. O vírus chegou a 64 zonas de saúde em sete províncias, e o Quênia confirmou um caso importado.
A reportagem da Current Biology destaca que a resposta internacional ficou mais lenta com cortes em agências de saúde dos Estados Unidos e com a saída do país da OMS.
A lição para a Amazônia
O hantavírus do navio foi contido. O ebola Bundibugyo, não. Em cinco meses, passou de um surto local a milhares de casos e cruzou fronteiras. Os dois passam de pessoa para pessoa, e cada surto dá ao vírus nova chance de mudar.
A Amazônia, com sua enorme biodiversidade e fronteiras de desmatamento em expansão, é um dos lugares onde esse contato entre animais silvestres e pessoas acontece todos os dias. Vigilância em saúde, laboratórios de referência e preservação da floresta fazem parte da mesma defesa.
Se o próximo vírus de risco surgir na floresta, o Brasil vai detectá-lo antes ou depois de ele embarcar num avião?
Com informações da revista Current Biology (Gross, 2026), da Organização Mundial da Saúde, do Ministério da Saúde e da revista Emerging Infectious Diseases (Travassos da Rosa et al., 2011).
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