Satélite SMILE registra oval auroral completo em ultravioleta e revela turbulência invisível do solo

Satélite SMILE registra oval auroral completo em ultravioleta e revela turbulência invisível do solo
Foto: Divulgação

Vídeo feito do espaço mostra, em cerca de uma hora, como as auroras mudam durante o dia e respondem ao vento solar.

Do espaço, uma aurora que parece uma faixa luminosa no horizonte se transforma em um anel inteiro ao redor de uma das regiões magnéticas da Terra. É essa visão que aparece em um vídeo produzido pela missão SMILE, parceria entre a Agência Espacial Europeia, ESA, e a Academia Chinesa de Ciências, CAS, e divulgado pela NASA em 6 de outubro de 2026.

A sequência mostra um oval auroral completo observado em luz ultravioleta durante o dia. O registro cobre aproximadamente uma hora e expõe uma característica que não pode ser acompanhada do solo: a aurora não fica parada. Ela se contrai, se expande e muda de forma à medida que a interação entre o vento solar e o campo magnético terrestre se altera.

Segundo a NASA, o vídeo da missão SMILE mostra um oval auroral completo em luz ultravioleta durante o dia, em uma observação feita do espaço e divulgada em 6 de outubro de 2026.

Por que o anel inteiro não aparece para quem está no chão

As auroras são produzidas quando partículas carregadas vindas do Sol alcançam a magnetosfera, a região dominada pelo campo magnético da Terra. Esse campo funciona como uma espécie de escudo, desviando grande parte do material que chega do espaço, mas também conduzindo partículas para áreas próximas aos polos magnéticos.

Quando essas partículas entram em contato com gases da alta atmosfera, transferem energia para átomos e moléculas. A energia é liberada na forma de luz, criando as cortinas coloridas conhecidas como auroras. O fenômeno costuma ser observado a partir de áreas próximas aos polos, onde a geometria do campo magnético favorece a entrada das partículas.

O oval auroral, porém, ocupa uma área extensa ao redor do polo magnético. Por isso, quem observa da superfície vê apenas uma parte do arco, quando as condições são favoráveis. A visão completa exige uma posição elevada, capaz de enquadrar o conjunto da estrutura em uma única observação.

O que a câmera do SMILE conseguiu enxergar

A imagem foi feita com observação ultravioleta, uma faixa da radiação eletromagnética que não é percebida pelos olhos humanos. A escolha permite registrar o brilho produzido na alta atmosfera mesmo quando a região está iluminada pelo Sol, situação em que a observação óptica convencional se torna mais difícil.

O vídeo é um lapso de tempo, técnica que reúne imagens registradas em momentos sucessivos para tornar visíveis mudanças que ocorreriam lentamente na observação comum. No caso do SMILE, a montagem apresenta cerca de uma hora de atividade auroral e evidencia o comportamento variável e turbulento do fenômeno.

Os pontos luminosos que aparecem nas laterais não são novas auroras nem objetos próximos da Terra. Eles são estrelas distantes. O deslocamento aparente dessas estrelas ocorre porque a câmera muda de orientação enquanto a nave orbita o planeta.

Uma janela para a relação entre Sol e Terra

O objetivo do SMILE não se resume a produzir imagens. A missão foi concebida para investigar como o vento solar interage com a magnetosfera terrestre. Essa fronteira entre o fluxo de partículas emitido pelo Sol e o campo magnético do planeta é dinâmica e pode mudar conforme a atividade solar.

Observar o oval auroral ajuda a acompanhar uma das manifestações visíveis dessa interação. A forma e o brilho da aurora oferecem pistas sobre a quantidade de energia transferida para o entorno da Terra. O vídeo, portanto, não representa apenas uma paisagem espacial, mas um registro do comportamento de um sistema físico em movimento.

Os pesquisadores ainda precisam combinar esse tipo de observação com outros dados para compreender em detalhes como as perturbações se propagam pela magnetosfera. Uma imagem isolada mostra o estado do fenômeno naquele intervalo, mas não resolve sozinha todas as etapas da cadeia que começa no Sol e pode terminar na alta atmosfera.

Por que o fenômeno interessa à Amazônia

A aurora completa não é um espetáculo visível a partir da maior parte da Amazônia. Ainda assim, o estudo do ambiente espacial tem consequências para a região, que depende de satélites para comunicação, posicionamento, monitoramento ambiental, previsão do tempo e acompanhamento de áreas extensas da floresta.

Tempestades solares intensas podem alterar as condições no espaço próximo à Terra e aumentar os riscos para satélites, sistemas de navegação e redes elétricas. Esses efeitos não significam que cada aurora provoque uma falha em equipamentos no Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Roraima, Rondônia, Tocantins ou Maranhão. A importância do SMILE está em melhorar a capacidade de entender e, no futuro, antecipar alterações capazes de atingir infraestruturas usadas em todos esses estados.

Para comunidades amazônicas atendidas por serviços de comunicação via satélite ou por sistemas de localização em áreas remotas, essa pesquisa pertence a uma cadeia tecnológica distante, mas prática. Quanto melhor for a previsão do chamado clima espacial, maior a possibilidade de operadores protegerem equipamentos e planejarem respostas a períodos de atividade solar elevada.

O que o vídeo revela e o que ainda falta explicar

O registro confirma visualmente que o oval auroral pode ser observado por inteiro a partir do espaço e que sua estrutura sofre mudanças rápidas. Também demonstra o valor da luz ultravioleta para acompanhar auroras durante o dia, quando o brilho do céu dificulta a observação direta.

Isso não significa que a missão tenha encontrado uma nova espécie de aurora ou que cada alteração no vídeo já tenha uma causa totalmente identificada. O resultado é uma janela de observação para um processo conhecido, mas complexo. A comparação com medições do vento solar e com outros instrumentos será necessária para separar os diferentes mecanismos envolvidos.

A expectativa é que os dados do SMILE contribuam para modelos mais precisos da magnetosfera e para sistemas de previsão capazes de informar com antecedência quando uma tempestade solar poderá afetar astronautas, naves, satélites ou redes elétricas. A missão continuará sendo usada para ampliar esse conjunto de observações.

Com informações de NASA.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA