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Seca baixa rios do Pantanal, concentra onças nas margens e aumenta avistamentos durante a temporada

Seca baixa rios do Pantanal, concentra onças nas margens e aumenta avistamentos durante a temporada
Foto: amp-campograndenews-com-br.cdn.ampproject.org

Agosto e setembro mudam a rotina dos felinos, mas observação exige distância, veículos autorizados e guias capacitados.

Onça-pintada bebe água em corpo d'água no Pantanal
Onça-pintada bebe água em corpo d’água no Pantanal. Foto: Carlos Eduardo Fragoso.

Uma onça-pintada pode surgir na margem de um rio, caminhar por uma praia de areia ou parar para beber água durante a seca no Pantanal. O período, que atinge o auge em agosto e setembro, concentra os felinos perto dos canais principais e aumenta as chances de avistamento por turistas, mas também exige cautela para evitar acidentes e interferências no comportamento do animal.

A mudança ocorre porque o nível dos rios baixa e a água fica restrita a trechos específicos da paisagem. Com menos áreas alagadas disponíveis, as onças reorganizam suas rotas para encontrar presas, água e locais de descanso. A cena pode parecer uma oportunidade rara para quem visita o bioma, mas não significa que o animal esteja domesticado ou seguro para aproximação.

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Rios mais baixos mudam a rotina dos felinos

Entre abril e julho, o Pantanal passa pela fase de vazante. As águas recuam lentamente para os leitos dos rios e revelam campos que estavam alagados. A partir de agosto, a estação seca se intensifica, deixando rios, baías, corixos e lagoas em seus níveis mais baixos.

Segundo estudo da Universidade Federal de São Carlos e da Universidade Estadual Paulista, o monitoramento de oito onças-pintadas no Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda, Mato Grosso do Sul, identificou alterações na rotina dos animais durante a redução hídrica. As margens e praias de areia se tornam pontos mais usados para caça e ingestão de água.

Segundo UFSCar e Unesp, a seca altera o uso da paisagem por onças-pintadas monitoradas em Miranda, no Mato Grosso do Sul, durante o período de redução dos níveis de água. A presença mais frequente nas margens torna os animais mais visíveis, mas não reduz a distância necessária para a segurança.

Presas e água definem os caminhos

O Grupo Técnico Onças Urbanas Corumbá-Ladário acompanha a espécie na região do Pantanal. A equipe reúne Ibama, ICMBio, Polícia Militar Ambiental de Mato Grosso do Sul, Fundação Municipal de Meio Ambiente de Corumbá, Defesa Civil, Instituto Homem Pantaneiro e Jaguarte.

Para o grupo, a relação entre a onça e os ambientes aquáticos é direta. Rios, corixos, baías e outras áreas úmidas influenciam a distribuição das presas, a disponibilidade de recursos e o modo como os felinos ocupam o território.

“Rios, corixos, baías e outras áreas úmidas influenciam a distribuição das presas, a disponibilidade de recursos e o próprio uso da paisagem pelas onças”, explica o Grupo Técnico Onças Urbanas Corumbá-Ladário.

Quando a água diminui, a quantidade e a distribuição dos animais que servem de alimento também podem mudar. A onça, então, precisa percorrer áreas diferentes e ajustar suas rotas de caça. Em longo prazo, a perda ou alteração de ambientes úmidos pode afetar a dinâmica populacional da espécie.

Mudanças climáticas ampliam o alerta

A seca faz parte do ciclo natural do Pantanal, que se estende por Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e se conecta a uma extensa rede de rios e áreas úmidas. O problema está na possibilidade de desequilíbrio desse regime por causa do desmatamento e do aquecimento do planeta.

O estudo “Mudanças Climáticas e Agricultura Familiar no Pantanal da América do Sul”, conduzido por Luciana Vicente Silva, doutora em Ecologia e Conservação e técnica da Ecoa, projeta aumento superior a 2,5 graus Celsius em algumas áreas até 2070. A pesquisa também aponta redução de até 200 milímetros de chuva na porção norte do bioma.

A projeção foi elaborada com base no cenário RCP 4.5, considerado intermediário por pressupor esforços globais de redução das emissões de gases de efeito estufa. Ainda assim, o cenário indica impactos na temperatura e na precipitação em todo o Pantanal.

Entenda o caso

A porção norte do Pantanal concentra nascentes e recebe grande volume de chuva. Essa água alimenta os rios que avançam pela planície e sustentam baías, corixos, vazantes e áreas alagadas.

Se a redução de até 200 milímetros se confirmar nas áreas de recarga, o volume que chega aos rios pode cair de forma relevante. A consequência alcança toda a biodiversidade, inclusive as presas e os ambientes utilizados pelas onças-pintadas.

O Grupo Técnico Onças Urbanas considera a perda de ambientes aquáticos e áreas úmidas uma preocupação importante para a conservação do maior felino das Américas no bioma.

Avistar não significa se aproximar

A temporada seca também movimenta o turismo de observação. Encontrar uma onça em seu habitat natural é uma experiência procurada por visitantes, especialmente em áreas do Pantanal sul-mato-grossense, como Corumbá, Ladário e Miranda.

Os protocolos são claros. Turistas devem permanecer em veículos ou embarcações autorizadas, sempre com acompanhamento de guias capacitados. A aproximação a pé é proibida, e ninguém deve bloquear a rota de fuga do animal.

Também não é permitido usar comida, sons ou qualquer outro recurso para atrair a onça. A prática pode modificar o comportamento do felino, aumentar a dependência de estímulos humanos e criar riscos para moradores, trabalhadores e visitantes.

“A onça é um animal de vida livre. Nós podemos aumentar as chances de encontrá-la com conhecimento e monitoramento, mas nunca provocar esse encontro artificialmente”, conclui o grupo técnico.

O cuidado vale mesmo quando o animal parece tranquilo. A onça-pintada é um predador silvestre, rápido e territorial, e deve ser observada sem tentativa de contato, chamada ou perseguição. Operadores de turismo também precisam respeitar horários, áreas autorizadas e orientações dos órgãos ambientais.

Por que a seca favorece os avistamentos?

Com a retração da água, os felinos passam a utilizar mais as margens, praias de areia e pequenos corpos d’água. Esses espaços concentram tanto pontos de hidratação quanto rotas de deslocamento e áreas onde as presas podem ser encontradas.

A visibilidade, porém, não representa necessariamente aumento da população de onças. O fenômeno descrito pelos especialistas está relacionado principalmente à alteração temporária ou prolongada do uso da paisagem durante a seca.

Perguntas frequentes

Qual é a melhor época para avistar onças no Pantanal?

Agosto e setembro correspondem ao auge da estação seca, quando os rios baixam e os animais aparecem mais nas margens. A observação nunca é garantida.

É seguro sair do veículo para fotografar uma onça?

Não. Os avistamentos devem ocorrer a partir de veículos ou embarcações autorizadas, com guias capacitados. A aproximação a pé é proibida.

A seca ameaça as onças-pintadas?

A seca natural faz parte do ciclo do bioma. A preocupação aumenta quando a alteração hídrica se prolonga ou é intensificada por desmatamento e mudanças climáticas, reduzindo água, áreas úmidas e presas.

O monitoramento dos felinos e dos níveis dos rios deve continuar nos próximos períodos de seca, enquanto estudos climáticos ajudam a orientar medidas de conservação no Pantanal.

Com informações do Grupo Técnico Onças Urbanas Corumbá-Ladário, UFSCar e Unesp.

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