597 vestígios de madeira reconstroem a vida neandertal em abrigo espanhol ao longo de 20 mil anos

597 vestígios de madeira reconstroem a vida neandertal em abrigo espanhol ao longo de 20 mil anos
Foto: Gerard Campeny / IPHES-CERCA

Achados em Abric Romaní mostram que ferramentas de madeira eram usadas em armas, recipientes e espaços de convivência.

Durante milhares de anos, a madeira usada por grupos neandertais desapareceu quase por completo, enquanto pedras permaneceram no solo como testemunhas de uma tecnologia que era apenas parcialmente conhecida. Em Abric Romaní, sítio arqueológico próximo a Barcelona, na Espanha, uma combinação rara de preservação e novas técnicas de registro permitiu reunir 597 restos e marcas de madeira datados de aproximadamente 62 mil a 42 mil anos atrás. A análise, publicada em 7 de outubro de 2026, identificou 13 objetos ou conjuntos de vestígios associados a armas, recipientes, estruturas e a um item semelhante a um bastão.

Um abrigo onde a madeira deixou rastros

A cena que emerge do sítio não é a de um grupo dependente apenas de pedras lascadas. Há objetos pontiagudos que podem ter servido como lanças ou instrumentos, fragmentos interpretados como partes de recipientes feitos de casca e elementos relacionados à organização dos espaços ocupados. Um dos achados tem cabo estreito e uma extremidade mais larga e irregular, configuração que levou os pesquisadores a interpretá-lo como um objeto semelhante a um bastão.

O ponto central do estudo não está somente na aparência de uma peça. Os vestígios aparecem em diferentes níveis arqueológicos de Abric Romaní, ao longo de um intervalo de cerca de 20 mil anos, e foram associados a usos variados. Para os pesquisadores, essa repetição enfraquece a ideia de que o trabalho com madeira fosse uma atividade rara ou reservada à fabricação de armas excepcionais.

Segundo o IPHES-CERCA, a coleção de Abric Romaní reúne 597 restos e impressões de madeira produzidos entre aproximadamente 62 mil e 42 mil anos atrás, na região de Capellades, perto de Barcelona, Espanha.

597 vestígios de madeira reconstroem a vida neandertal em abrigo espanhol ao longo de 20 mil anos
Foto: Gerard Campeny / IPHES-CERCA

Por que a pedra dominou a imagem da Pré-História

A arqueologia trabalha com um filtro imposto pelo tempo. Pedra sobrevive com muito mais facilidade do que madeira, fibras, cascas e outros materiais orgânicos. Por isso, quando pesquisadores reconstituem a vida tecnológica dos neandertais a partir dos objetos encontrados, a paisagem que aparece tende a ser dominada por ferramentas minerais.

Essa predominância, porém, não significa necessariamente que a pedra tenha sido o único ou o principal material usado em todas as tarefas. A madeira podia ser moldada com mais facilidade e servir a funções diferentes: produzir armas, transportar ou armazenar materiais, sustentar estruturas e organizar áreas de atividade. A ausência de um artefato de madeira em outros sítios pode refletir decomposição, e não falta de conhecimento técnico.

Essa diferença entre o que existiu e o que sobreviveu também é importante para interpretar a arqueologia amazônica. Em uma região onde a umidade, a atividade biológica e a dinâmica dos solos podem acelerar a decomposição de materiais orgânicos, o registro preservado pode representar apenas uma fração das tecnologias usadas no passado. O caso espanhol não prova a existência de objetos semelhantes na Amazônia, mas oferece uma chave de leitura: silêncio arqueológico não deve ser confundido automaticamente com ausência histórica.

A mudança veio com a tecnologia de registro

Os pesquisadores já conheciam peças isoladas e marcas deixadas pela madeira em Abric Romaní. O desafio era estudar o conjunto. Durante muito tempo, a investigação exigia a produção de moldes, além de tratamentos de conservação e restauração que tornavam o processo demorado e complexo.

597 vestígios de madeira reconstroem a vida neandertal em abrigo espanhol ao longo de 20 mil anos
Foto: Gerard Campeny / IPHES-CERCA

O avanço dos registros em três dimensões mudou essa etapa. Com a reconstrução digital, a equipe conseguiu documentar mais rapidamente amostras e comparar formas, posições e características de vestígios encontrados em diferentes camadas. O resultado foi uma análise abrangente de materiais que antes eram observados de maneira fragmentada.

A mudança metodológica também altera a pergunta feita ao sítio. Em vez de procurar apenas uma peça extraordinária, os arqueólogos passaram a observar a recorrência da madeira e a variedade de suas funções. O conjunto sugere uma cadeia de atividades que incluía selecionar matéria-prima, cortar, adaptar, manter e descartar objetos.

Uma tecnologia presente em várias tarefas

Josep Vallverdú, arqueólogo do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social, afirmou que a madeira provavelmente ocupava um espaço mais importante na vida neandertal do que o registro arqueológico costuma mostrar. Para Palmira Saladié, autora principal do estudo, a diversidade dos vestígios permite enxergar usos ligados tanto a armas e recipientes quanto à organização dos locais de permanência.

“Talvez a mensagem mais simples seja que o Paleolítico não era um mundo feito apenas de pedra”, disse Vallverdú.

597 vestígios de madeira reconstroem a vida neandertal em abrigo espanhol ao longo de 20 mil anos
Foto: Gerard Campeny / IPHES-CERCA

A conclusão não elimina a importância das ferramentas de pedra. Ela amplia o cenário. Um objeto de madeira podia cumprir uma função complementar à pedra, ser substituído com relativa facilidade ou desaparecer sem deixar uma forma reconhecível. O conjunto de Abric Romaní torna visível uma camada material que normalmente fica fora das reconstruções sobre os neandertais.

O que ainda pode aparecer em Abric Romaní

As escavações no abrigo continuam, e novas marcas surgem à medida que superfícies e camadas são expostas. A equipe pretende investigar quanto trabalho era necessário para fabricar e conservar cada tipo de objeto e como essas peças se relacionavam com outras atividades identificadas no sítio.

A descoberta também recoloca os neandertais em uma história tecnológica menos limitada pelos objetos que conseguiram atravessar o tempo. Para leitores da Amazônia, onde a madeira é parte essencial dos ambientes e das culturas atuais, o achado espanhol reforça uma questão ampla da ciência: conhecer o passado depende não apenas do que as pessoas fizeram, mas também do que os solos e os materiais permitiram que chegasse até nós.

Novas escavações e o uso de registros tridimensionais devem ampliar a coleção e ajudar a esclarecer como esses objetos eram produzidos, utilizados e abandonados ao longo da ocupação de Abric Romaní.

Com informações de IPHES-CERCA.

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