O que os astronautas ensinam sobre o sono na Terra

Nascer do sol visto da Estação Espacial Internacional, com a curva da Terra iluminada em laranja sobre o espaço escuro

Com 16 nasceres do sol por dia, a Estação Espacial Internacional virou um laboratório do relógio biológico. Estudos com astronautas mostram por que ter tempo para dormir não garante sono, uma lição que vale para quem trabalha em turnos e vive sob luz artificial.

Na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), o Sol nasce e se põe cerca de 16 vezes a cada 24 horas. A estação dá uma volta na Terra a cada 90 minutos, mais ou menos, e os astronautas não podem ir para a cama toda vez que escurece. O corpo deles, no entanto, continua precisando saber a hora de dormir, acordar, comer, se exercitar e trabalhar.

Para o biólogo Ronan Lordan, pesquisador de pós-doutorado em biologia circadiana do centro FutureNeuro e da Escola de Farmácia e Ciências Biomoleculares da RCSI, universidade de medicina e ciências da saúde em Dublin, na Irlanda, isso transforma o voo espacial em “um experimento extraordinário de biologia humana”. Ali dá para ver o que acontece quando somem os sinais que organizam o sono.

A ciência descreve o sono como resultado de dois sistemas. Um é o relógio circadiano, que define quando o cérebro espera dormir e ficar acordado. O outro é a pressão do sono, que cresce a cada hora acordado e se desfaz durante a noite. Em geral os dois andam juntos. O jet lag, o trabalho em turnos e o voo espacial separam um do outro. “Sentir cansaço e estar biologicamente pronto para dormir nem sempre são a mesma coisa”, escreve Lordan.

O astronauta Kjell Lindgren, da NASA, dentro do saco de dormir da tripulação a bordo da Estação Espacial Internacional, em setembro de 2022.
O astronauta Kjell Lindgren, da NASA, dentro do saco de dormir da tripulação a bordo da Estação Espacial Internacional, em setembro de 2022. Foto: NASA

Um estudo publicado em 2014 na revista The Lancet Neurology, liderado por Laura Barger, da Divisão de Medicina do Sono do Hospital Brigham and Women’s e da Escola de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, acompanhou com actígrafos de pulso 64 astronautas em 80 missões do ônibus espacial e 21 tripulantes da ISS. A NASA reserva 8,5 horas por noite para o sono. Em voo, os astronautas dormiram em média 5,96 horas no ônibus espacial e 6,09 horas na estação. O déficit já aparecia no treinamento, e 78% dos tripulantes do ônibus espacial e 75% dos da estação relataram usar remédios para dormir.

Dormir pouco tem custo. Pesquisadores da Escola de Medicina Perelman, da Universidade da Pensilvânia, liderados por Christopher Jones e David Dinges, aplicaram um teste de reação a 24 astronautas antes, durante e depois de missões de seis meses na ISS, em 2.856 sessões. Os tripulantes relataram dormir cerca de 6,5 horas em órbita. Nos dias depois de noites com menos de seis horas, as respostas no teste de atenção ficaram mais lentas, e o estresse e a sensação de sobrecarga subiram, segundo o artigo publicado em 2022 na revista Sleep.

Tempo para dormir não é sono: horas de sono medidas em astronautas em órbita, comparadas às 8,5 horas reservadas pela NASA para dormir. Abaixo de seis horas, os testes a bordo registraram reação mais lenta, mais estresse e mais sensação de sobrecarga.
Tempo para dormir não é sono: horas de sono medidas em astronautas em órbita, comparadas às 8,5 horas reservadas pela NASA para dormir. Abaixo de seis horas, os testes a bordo registraram reação mais lenta, mais estresse e mais sensação de sobrecarga. Arte: Revista Amazônia

A arma mais estudada é a luz. Nas naves, ela passou a ser tratada como parte do sistema de suporte à vida, lembra Lordan. Luz branca rica em azul ajuda a manter o alerta e a acertar o relógio nas horas de trabalho; luz mais fraca e com menos azul prepara o cérebro para dormir. Em uma missão simulada de 45 dias em terra, com 16 voluntários, um esquema de iluminação que triplicava a intensidade e a parcela de azul durante o dia reduziu o desencontro entre o horário de dormir e o relógio interno, segundo estudo de Shadab Rahman e colegas do Brigham and Women’s publicado em 2022 no Journal of Pineal Research.

Há efeitos colaterais. Testes apoiados pela NASA indicaram que a luz pensada para antes do sono favorece a produção de melatonina, o hormônio da noite, mas piora a distinção de cores, um risco quando é preciso reconhecer botões e alertas coloridos. A cafeína protege o desempenho de quem precisa ficar acordado, mas atrapalha o sono da noite seguinte. “Ela pode resolver um problema temporariamente enquanto ajuda, em silêncio, a criar o próximo”, resume Lordan.

A astronauta Jasmin Moghbeli corre na esteira da Estação Espacial Internacional em fevereiro de 2024. No pulso esquerdo, usa um actígrafo, aparelho que registra o sono e outros sinais do corpo.
A astronauta Jasmin Moghbeli corre na esteira da Estação Espacial Internacional em fevereiro de 2024. No pulso esquerdo, usa um actígrafo, aparelho que registra o sono e outros sinais do corpo. Foto: NASA

Na missão Artemis II, que contornou a Lua em abril de 2026, os quatro tripulantes usaram monitores de movimento e sono no pulso antes, durante e depois do voo, dentro do estudo ARCHeR (Pesquisa Artemis para a Saúde e a Prontidão da Tripulação), da NASA. No Centro de Pesquisa Ames, da NASA, um teste preliminar com 14 adultos que tiraram cochilos de quatro horas ouvindo ruído rosa, um som com todas as frequências audíveis e graves mais fortes, não encontrou diferença no alerta nos 40 minutos depois de acordar.

A astronauta Christina Koch trabalha dentro da cápsula Orion durante a missão Artemis II, em abril de 2026. No pulso, ela usa um monitor de movimento e sono do estudo ARCHeR, da NASA.
A astronauta Christina Koch trabalha dentro da cápsula Orion durante a missão Artemis II, em abril de 2026. No pulso, ela usa um monitor de movimento e sono do estudo ARCHeR, da NASA. Foto: NASA

O próximo desafio é Marte, onde o dia dura cerca de 24 horas e 40 minutos. Em 2008, a equipe em terra da sonda Phoenix trabalhou 78 dias no horário marciano. Segundo estudo de 2012 na revista Sleep, 87% se adaptaram. O sono principal durou em média 5,98 horas quando estava alinhado ao relógio interno e 4,91 horas quando ficava fora de fase. Na simulação Chapea (Análogo de Exploração da Saúde e do Desempenho da Tripulação), no Centro Espacial Johnson, em Houston, quatro voluntários isolados desde outubro de 2025 passaram a seguir o dia marciano no fim de setembro, até o encerramento, no fim de outubro.

Na Terra, o desencontro entre relógio e rotina não é exceção. Em 2019, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), da Organização Mundial da Saúde, classificou o trabalho em turnos noturnos como provavelmente cancerígeno para humanos. Enfermeiros, vigilantes, motoristas e operários vivem, em escala menor, o mesmo dilema dos astronautas. As soluções testadas em órbita, como luz intensa nas horas de trabalho, penumbra antes de deitar e cafeína com hora marcada, são as mesmas que a cronobiologia recomenda para eles. A diferença é que, no espaço, o erro de um tripulante cansado pode custar a missão.

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