Quatro mamíferos marinhos apertam um botão e revelam como barcos e aviões soam para eles

Quatro mamíferos marinhos apertam um botão e revelam como barcos e aviões soam para eles
Foto: acervo

Testes voluntários no zoológico de Sydney mediram pela primeira vez a audição aérea de duas espécies australianas.

Um toque de botão, seguido de uma recompensa em peixe, ajudou a revelar como dois leões-marinhos-australianos e duas focas-de-pelo-de-focinho-longo percebem o som. Em sessões realizadas no Taronga Zoo Sydney, os animais foram treinados para apertar uma alavanca ao identificar um tom e permanecer imóveis quando nenhum som era emitido. O procedimento produziu os primeiros audiogramas aéreos detalhados dessas duas espécies.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Curtin University, em colaboração com a Taronga Conservation Society Australia. O objetivo era estabelecer uma referência confiável para avaliar os efeitos de ruídos produzidos por embarcações, aeronaves, trens e obras sobre mamíferos que alternam entre a vida no mar e os períodos de descanso em terra.

O teste começou com uma escolha feita pelos próprios animais

Em vez de sedar os animais ou utilizar eletrodos invasivos, a equipe aplicou uma técnica comportamental de medição da audição. Os tratadores ensinaram cada indivíduo a participar voluntariamente das sessões, com reforço positivo. Quando o tom era apresentado, o animal pressionava a pá; quando não havia sinal, não respondia.

Os cientistas variaram a frequência e a intensidade dos sons e registraram em quais condições cada animal conseguia detectá-los. A sequência de respostas permitiu construir uma curva de limiares auditivos, conhecida como audiograma. Em termos simples, o gráfico mostra os sons mais baixos que o animal consegue perceber em diferentes frequências.

Segundo a Curtin University, quatro animais produziram audiogramas aéreos no Taronga Zoo Sydney, estabelecendo uma base de comparação para futuras avaliações de ruído sobre essas espécies.

Faixa de 3,2 quilohertz concentrou maior sensibilidade

Os resultados apontaram um pico de sensibilidade próximo de 3,2 quilohertz tanto nos leões-marinhos quanto nas focas. A frequência está dentro de uma faixa usada por muitos sinais naturais de comunicação e estímulos do ambiente.

À medida que os sons se afastavam desse ponto, a capacidade de detecção diminuía gradualmente. Os animais apresentaram menor sensibilidade a vibrações de frequência muito baixa e a sons muito agudos, incluindo aqueles situados na faixa do ultrassom.

O dado não significa que todo ruído nessa frequência provoque dano. Ele indica, primeiro, que o som está dentro da faixa que os animais conseguem ouvir. Para determinar quando há perturbação, mascaramento de sinais ou prejuízo à audição, ainda são necessários testes que relacionem exposição sonora e comportamento.

Barcos e aeronaves entram no mapa acústico das colônias

A equipe comparou os limiares auditivos das focas-de-pelo-de-focinho-longo com as assinaturas acústicas de atividades humanas. O resultado mostrou que sons de barcos, navios, aviões, trens e obras podem ser claramente audíveis quando os animais estão fora da água.

Essa informação é relevante porque praias, plataformas rochosas e outros locais de descanso frequentemente ficam próximos de portos, aeroportos e áreas urbanizadas. Um ruído dentro da faixa de maior sensibilidade pode encobrir sinais entre mães e filhotes, dificultar a percepção de ameaças ou alterar o período de repouso entre viagens em busca de alimento.

Para o leão-marinho-australiano, a questão ganha peso adicional. A espécie é endêmica das águas australianas, está ameaçada e tem população estimada em cerca de 12 mil indivíduos. A audição participa da comunicação, da localização de presas, da navegação e da detecção de riscos, tanto no ambiente marinho quanto durante a permanência em terra.

O que o audiograma ainda não responde

Os estudos, publicados separadamente nas revistas científicas Conservation e Animals, mediram a audição no ar de dois exemplares de cada espécie. Essa delimitação é importante. Leões-marinhos e focas pertencem ao grupo dos otarídeos, animais adaptados a ouvir em dois meios diferentes, mas a sensibilidade pode mudar entre o ar e a água.

Assim, os resultados ajudam a interpretar o ruído nas áreas de descanso, reprodução e abrigo, mas não estabelecem sozinhos os efeitos de sons subaquáticos produzidos por navegação, levantamentos sísmicos, instalação de estruturas ou obras marítimas.

Os autores apontam a necessidade de investigar a audição dentro da água e identificar em que intensidade o som começa a interferir no comportamento ou no funcionamento auditivo. Essa etapa é essencial para transformar uma faixa de sensibilidade em critérios de proteção ambiental.

Por que esse método interessa à conservação

Sem dados específicos de cada espécie, estudos de impacto ambiental costumam recorrer a informações de animais aparentados. A prática pode aumentar a incerteza, porque espécies diferentes ocupam ambientes distintos e não necessariamente percebem as mesmas frequências da mesma maneira.

Um audiograma medido diretamente fornece uma referência mais sólida para separar um ruído inaudível de um som potencialmente capaz de encobrir a comunicação ou provocar perturbação. A técnica voluntária também permite repetir os testes com os mesmos indivíduos, sem submetê-los a anestesia ou contenção invasiva.

O princípio tem utilidade para a Amazônia. Em áreas costeiras ligadas ao Pará, Amapá e Maranhão, além de zonas portuárias, estuarinas e de expansão urbana, avaliações de ruído também precisam considerar como a fauna aquática percebe embarcações e obras. O estudo australiano não mede espécies amazônicas, mas mostra por que decisões sobre tráfego e infraestrutura devem ser baseadas na audição real dos animais afetados, e não apenas em estimativas feitas a partir de outras espécies.

O próximo passo da pesquisa será ampliar a compreensão da audição subaquática e dos efeitos comportamentais do ruído, para que os dados possam orientar limites de exposição e medidas de manejo em ambientes costeiros.

Com informações de Curtin University.

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