
O chocolate tem raiz amazônica. Vasilhas de cerâmica encontradas no sítio arqueológico de Santa Ana-La Florida, na Amazônia equatoriana, guardavam resíduos de cacau com cerca de 5.300 anos, segundo estudo publicado em 2018 na revista Nature Ecology & Evolution. É a evidência mais antiga conhecida do uso da planta e mostra que o cacau já era consumido na Amazônia muito antes de ser cultivado na América Central, onde maias e astecas o transformaram em bebida sagrada.
Pesquisas genéticas publicadas depois reforçaram a ideia: o Theobroma cacao nasceu no alto Amazonas e se espalhou pelo continente levado por pessoas.
As provas dentro das vasilhas
O sítio fica na província de Zamora-Chinchipe, no Equador, na encosta amazônica dos Andes. Ali viveu a cultura Mayo-Chinchipe. A equipe internacional, liderada pela arqueóloga Sonia Zarrillo, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, procurou três tipos de pista nas cerâmicas: grãos de amido de cacau, resíduos de teobromina, substância típica da planta, e fragmentos de DNA antigo do próprio cacau. As três apareceram.
Até então, a história do chocolate costumava começar na Mesoamérica. Uma revisão publicada em 2020 na revista Phytopathology, de pesquisadores da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, resume a cronologia: o cacau foi domesticado no alto Amazonas por volta de 5.450 a 5.300 anos atrás, e só entre 3.800 e 3.000 anos atrás aparece cultivado na América Central. São cerca de 1.500 anos de diferença.
Uma planta que viajou com as pessoas
Em 2024, pesquisadores do Cirad e do CNRS, na França, analisaram resíduos em cerâmicas de várias culturas pré-colombianas da América do Sul e da América Central. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, mostrou pela primeira vez que o cacau era usado fora da sua área amazônica de origem há 5 mil anos, provavelmente graças a trocas entre povos da Amazônia e da costa do Pacífico.
A análise genética revelou outro dado: populações de cacau de regiões distantes já se misturavam no Holoceno médio, há milhares de anos. Segundo os autores, essa mistura foi provocada por pessoas, que levavam sementes de um lugar para outro, e ajudou a planta a se adaptar a novos ambientes. As variedades plantadas hoje carregam essa história.
Um levantamento de 2022, feito com comunidades da Amazônia equatoriana, reuniu 283 cacaueiros nativos em três províncias. Os pesquisadores concluíram que a origem da variedade Nacional, famosa pelo aroma e muito procurada pela indústria do chocolate fino, fica perto do sítio arqueológico onde a população Mayo-Chinchipe consumia cacau há 5 mil anos.
Alimento dos deuses
O nome científico da planta, dado pelo naturalista sueco Carl Linnaeus no século 18, junta palavras gregas que significam alimento dos deuses. O cacau é parente próximo do cupuaçu, outra fruta amazônica do mesmo gênero, Theobroma.
Fora da Amazônia, a história da planta foi marcada por doenças. A revisão da Phytopathology lembra o colapso do cacau em Trinidad nos anos 1720 e a chegada da vassoura-de-bruxa à Bahia no fim dos anos 1980, que derrubou a produção do estado. Hoje, a maior parte do cacau do mundo é produzida na África Ocidental e na Ásia.
De volta para casa
No Brasil, o cacau voltou a crescer na região onde nasceu. O Pará disputa com a Bahia o posto de maior produtor do país, com plantios em sistemas agroflorestais e o cacau de várzea, que cresce nas ilhas e beiras de rio perto de Belém.
Para os pesquisadores, conhecer a diversidade dos cacaueiros nativos da Amazônia é estratégico. É nessas árvores que pode estar a resistência a doenças e ao calor que as lavouras vão precisar nas próximas décadas, e o desmatamento ameaça parte dessa diversidade.
Perguntas frequentes
Onde o cacau surgiu?
No alto Amazonas, na região de encosta dos Andes que hoje fica no Equador e no Peru.
Qual é a prova mais antiga do uso do cacau?
Resíduos com cerca de 5.300 anos em cerâmicas do sítio Santa Ana-La Florida, no Equador, descritos em 2018.
Os maias inventaram o chocolate?
Os povos da Mesoamérica criaram bebidas de cacau famosas, mas a planta já era usada na Amazônia cerca de 1.500 anos antes de ser cultivada na América Central.
Cacau e cupuaçu são parentes?
Sim. Os dois pertencem ao gênero Theobroma e são nativos da Amazônia.
Com informações dos estudos publicados nas revistas Nature Ecology & Evolution (2018), Plants, People, Planet (2022), Phytopathology (2020) e Scientific Reports (2024).
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