
Entidades de conservação pedem mudança nas regras para impedir que obras e cortes destruam os abrigos da espécie.
Uma espécie nativa que vive nas ilhas britânicas há cerca de 10 mil anos pode desaparecer de grandes áreas da Inglaterra dentro de uma geração. O alerta envolve os esquilos-vermelhos, cuja população inglesa é estimada em menos de 15 mil indivíduos, e ganhou força em outubro de 2026, durante a Semana de Conscientização sobre o Esquilo-vermelho. O risco está ligado a doenças, à expansão dos esquilos-cinzentos e à perda de habitat, mas também a uma brecha na legislação que permite a destruição de abrigos durante operações consideradas legais.
A campanha Save Our Reds afirma que a espécie precisa ser incluída no Anexo 2 dos Regulamentos de Conservação de Habitats e Espécies de 2017. A mudança colocaria os locais de reprodução e descanso dos esquilos-vermelhos sob um regime mais rigoroso, semelhante ao aplicado a outras espécies protegidas. O grupo apresentou a proposta a parlamentares britânicos e defende que o governo use poderes já existentes, por meio de instrumentos legislativos secundários, sem a necessidade de aprovar uma nova lei.
O abrigo pode ser destruído sem uma licença específica
O ponto central da disputa não é apenas quantos animais ainda existem, mas o que pode acontecer com o lugar onde eles vivem. Pela Lei de Vida Selvagem e Campo de 1981, uma pessoa acusada de matar um esquilo-vermelho ou destruir seu ninho, conhecido como drey, pode apresentar uma defesa quando provar que o dano foi consequência indireta de uma operação legal e que não poderia ser evitado.
Segundo a própria orientação da Forestry Commission, não existe atualmente um mecanismo para licenciar operações florestais que possam causar dano ou perturbação aos esquilos-vermelhos. Na prática, a ausência de um procedimento específico dificulta a avaliação preventiva de obras, cortes de árvores e outras intervenções em áreas onde a presença do animal já é conhecida.
A Save Our Reds compara essa situação com o tratamento dado a castores, morcegos, arganazes, lontras e tritões-de-crista. Para morcegos, arganazes, lontras e tritões, uma defesa equivalente foi retirada em 2007 no âmbito das regras de habitats. Os castores passaram a ter proteção ampliada na Inglaterra em 2022 e no País de Gales em março de 2026.
O que os números revelam sobre o risco
Segundo a Natural England, os esquilos-vermelhos enfrentam alta probabilidade de extinção em todo o território continental da Inglaterra dentro de aproximadamente 25 anos se o manejo atual continuar. A estimativa aparece na Estratégia de Recuperação do Esquilo-vermelho, publicada em abril de 2026.
O Reino Unido abriga cerca de 120 mil esquilos-vermelhos, mas menos de 15 mil estariam na Inglaterra. Em contraste, a população de esquilos-cinzentos ultrapassa 2 milhões no território britânico. A diferença de escala ajuda a explicar por que a recuperação da espécie nativa depende de áreas protegidas e de controle contínuo do competidor introduzido.
Os esquilos-cinzentos não são apresentados apenas como concorrentes por alimento e espaço. Eles também estão associados à disseminação de doenças que afetam os vermelhos, além de ocuparem ambientes que antes sustentavam populações nativas. Mesmo assim, a própria campanha reconhece que uma alteração legal não resolveria sozinha o problema. A perda de habitat, a pressão imobiliária, o manejo florestal e as enfermidades continuariam exigindo medidas específicas.
Por que a comparação com os castores ganhou força
O argumento dos conservacionistas é que o sistema britânico já demonstrou ser capaz de ampliar a proteção de uma espécie por meio de regulamentação secundária. O precedente dos castores, incluídos nas regras inglesas em 2022, é usado para sustentar que os esquilos-vermelhos também podem receber proteção mais forte sem esperar uma reforma completa da legislação.
Com a inclusão proposta, intervenções capazes de destruir locais de reprodução ou descanso poderiam exigir autorização da Natural England na Inglaterra. O dano ou a destruição desses espaços passaria a constituir infração sem que fosse necessário comprovar a intenção de prejudicar o animal.
Para os defensores da medida, esse mecanismo mudaria o momento da proteção. Em vez de agir apenas depois da morte de animais ou da destruição de ninhos, as autoridades poderiam avaliar antecipadamente os riscos de uma atividade. A diferença é importante em populações fragmentadas, nas quais a perda de um pequeno núcleo pode comprometer a ligação entre áreas ocupadas.
O governo aposta no controle dos esquilos-cinzentos
O Department for Environment, Food and Rural Affairs, conhecido como Defra, afirma que o governo protege os esquilos-vermelhos ao enfrentar a ameaça dos esquilos-cinzentos. O departamento também informa que trabalha com proprietários de terras e organizações de conservação em pesquisas sobre controle de fertilidade, uma alternativa destinada a reduzir a reprodução dos animais introduzidos.
A resposta oficial, porém, não contempla integralmente a reivindicação apresentada pela Save Our Reds. O grupo quer que decisões sobre desenvolvimento e silvicultura considerem de maneira mais rigorosa os abrigos dos esquilos-vermelhos. Para a entidade, controlar a população cinzenta sem reforçar a proteção dos habitats deixa uma parte decisiva do problema sem resposta.
O que isso tem a ver com a Amazônia
A disputa inglesa tem uma conexão direta com um dilema conhecido nos estados amazônicos: proteger uma espécie não significa apenas proibir sua captura. Também é necessário preservar os locais de reprodução, alimentação e descanso, além de exigir avaliação antes que uma obra ou atividade altere o ambiente.
No Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão, esse princípio aparece em debates sobre fragmentação florestal, estradas, mineração, expansão urbana e proteção de espécies endêmicas. A comparação não significa que os esquilos-vermelhos estejam presentes na Amazônia, mas mostra como a legislação pode falhar quando protege o animal individualmente e deixa seu habitat exposto.
Segundo a Natural England, a estratégia publicada em abril de 2026 considera alta a probabilidade de extinção dos esquilos-vermelhos no território continental inglês em cerca de 25 anos sob o manejo atual. O dado transforma a discussão jurídica em uma corrida contra a perda de áreas ocupadas pela espécie.
A decisão ainda depende de vontade política
Os conservacionistas Craig Shuttleworth e Peter Lurz defendem que o Reino Unido já possui conhecimento científico, experiência de manejo e instrumentos legais para agir. A avaliação é que falta transformar esses recursos em proteção aplicada e fiscalizada antes que mais redutos sejam perdidos.
A proposta pode ser consultada no site da campanha Save Our Reds. Enquanto o governo mantém o foco no controle dos esquilos-cinzentos, a campanha tenta levar ao Parlamento uma mudança que atingiria diretamente obras, cortes e decisões de uso da terra. Os próximos passos dependem da análise política da proposta e de eventual alteração dos regulamentos por instrumento legislativo secundário.
Com informações de Save Our Reds, Natural England e Department for Environment, Food and Rural Affairs.
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