
Ela parece inofensiva, com folhas grandes em forma de coração, de aparência aveludada. A gympie-gympie (Dendrocnide moroides), conhecida também como urtiga australiana ou árvore-que-pica, é um arbusto de floresta tropical cujo contato provoca uma dor intensa que pode durar de horas a semanas e reaparecer depois. O nome vem da língua do povo Gubbi Gubbi, de Queensland. Em 2020, pesquisadores da Universidade de Queensland identificaram as moléculas responsáveis pela dor, e a explicação que se repetia antes disso estava errada.
Onde vive a gympie-gympie
A espécie ocorre em florestas tropicais e áreas próximas do nordeste da Austrália, da ponta da Península do Cabo York, em Queensland, até o norte de Nova Gales do Sul. Há registros fora da Austrália no leste de Timor-Leste e em Yamdena, nas ilhas Tanimbar, na Indonésia, segundo a literatura botânica. As populações mais numerosas começam perto da cidade de Gympie, no sul de Queensland, e seguem para o norte, segundo o Land for Wildlife da região sudeste de Queensland.
É um arbusto pioneiro da floresta: precisa de sol forte para germinar e ocupa clareiras abertas por quedas de árvores, bordas de trilhas e margens de córregos. Esse hábito é parte do perigo para quem caminha na mata. Em geral tem 4 a 5 metros de altura, com folhas de 12 a 22 centímetros de comprimento, e produz frutos rosados a arroxeados, gelatinosos, parecidos com amoras. Os frutos também são cobertos por pelos que picam, e são comestíveis depois que os pelos são removidos.
Como a planta pica
As folhas, os talos e os frutos são cobertos por tricomas, pelos finos, ocos e quebradiços, reforçados com sílica. Ao contato, a ponta do pelo se rompe, e ele funciona como uma agulha que injeta o conteúdo na pele. Segundo a literatura botânica, esses tricomas podem permanecer na pele por até um ano e voltar a doer com o toque, a água ou a variação de temperatura.
A toxina não é a moroidina
Durante décadas, atribuiu-se a dor a uma molécula chamada moroidina. Em 2020, a equipe de Edward Kalani Gilding, Thomas Durek e Irina Vetter, da Universidade de Queensland, publicou na revista Science Advances que a hipótese estava errada: injetar moroidina em voluntários não reproduziu o quadro doloroso de uma picada completa. Os pesquisadores identificaram uma família de miniproteínas, os gympietídeos, maiores que a moroidina.
Os gympietídeos foram isolados dos pelos da árvore-que-pica gigante (Dendrocnide excelsa), uma espécie aparentada, e genes semelhantes foram encontrados no genoma da D. moroides. Versões sintéticas feitas em laboratório reproduziram a resposta de dor quando aplicadas sozinhas. As moléculas têm estrutura tridimensional em nó, muito estável, parecida com a de toxinas de aranhas e de caracóis-cone, e atuam em canais de sódio dependentes de voltagem das células nervosas, que deixam de se fechar normalmente, dificultando o desligamento do sinal de dor.
Quanto tempo dura a dor
A dor começa como uma sensação de queimadura, que se intensifica ao longo de 20 a 30 minutos e vai diminuindo em horas. Depois pode vir a alodinia, quando gestos inofensivos, como tomar banho ou coçar, reacendem a dor por dias. Segundo a equipe da Universidade de Queensland, a dor dura horas ou dias e, em alguns casos, semanas. Há relatos de pessoas que sentiram dor por meses e de um guarda florestal que relatou sintomas por cerca de dois anos. Alguns pacientes são internados, e em casos raros os gânglios linfáticos ficam inchados.
Na prática, o que há de documentado é um espectro amplo: uma ou duas horas depois de um roçar breve, vários dias em picadas fortes e semanas ou meses em casos graves. A toxina é muito estável: folhas secas e exemplares de herbário seguem doloridos por décadas, de acordo com relatos citados em material de divulgação científica.
O que fazer após o contato
A orientação difundida em guias de manejo de Queensland é remover o máximo de pelos possível com tiras de depilação à cera ou fita adesiva, sem esfregar a pele, porque esfregar quebra os pelos e dificulta a retirada. Remédios caseiros não funcionam e podem prolongar a dor. Se a dor for intensa, procure atendimento médico e informe o contato com a planta.
A planta no ecossistema e na pesquisa
Nem todo animal sofre com ela. Segundo o Land for Wildlife, a larva de uma borboleta (a ninfa-jezebel) se alimenta das folhas, e insetos em geral não são impedidos pelos pelos. O pademelon-de-pernas-vermelhas, pequeno marsupial, também come as folhas mais jovens. Aves e morcegos comem os frutos e dispersam as sementes pela floresta.
Entender os gympietídeos também interessa à medicina. Os autores do estudo de 2020 esperam melhorar o tratamento de quem é picado e usar essas moléculas como base para novos analgésicos, uma linha de pesquisa que ainda está em fase inicial. A mensagem de segurança é simples: onde há sinalização de plantas que picam, fique na trilha e não toque em folhas desconhecidas.
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