Maritaca gritando o dia todo? Veja por que o bando fala tanto

Maritaca gritando o dia todo
Maritaca gritando o dia todo

Quem mora em cidade do interior paulista ou do Sudeste conhece o som: um bando de aves verdes cruza o céu em voo ruidoso e a vizinhança comenta que a maritaca não para de gritar. A pergunta que muita gente faz é se tanto barulho quer dizer alguma coisa sobre o ambiente. O que a literatura científica permite afirmar é mais modesto, e mais interessante, do que a ideia de que cada grito mede o estresse do lugar.

Que ave é a maritaca das cidades

Em levantamentos urbanos feitos no interior de São Paulo, o nome maritaca aparece para o Psittacara leucophthalmus, também chamado de periquitão-maracanã. Segundo a ficha da espécie no Birds of the World, enciclopédia do Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell, a ave mede de 32 a 35 centímetros e pesa de 100 a 218 gramas. É verde, mais clara na parte de baixo, com manchas vermelhas na cabeça e no pescoço, olho alaranjado cercado por pele nua esbranquiçada, e macho e fêmea são parecidos. A espécie ocorre em todos os países do continente sul-americano, exceto o Chile, e prefere áreas abertas ou semiabertas de baixa altitude.

Na cidade de Sorocaba, no interior paulista, uma pesquisa da Universidade Federal de São Carlos, de Ana Cecília Castro Rodrigues Silva com orientação de Augusto João Piratelli, amostrou 40 pontos aleatórios da malha urbana, num total de 80 horas de observação, entre 2023 e 2024. Foram 343 avistamentos e 969 aves de cinco espécies de psitacídeos, e a maritaca foi a mais numerosa, com 672 indivíduos. A abundância dela esteve associada de forma positiva a superfícies impermeabilizadas, ou seja, a áreas mais construídas.

Por que a maritaca fala tanto: vida em bando

O primeiro motivo do barulho é a própria organização social. De acordo com o Birds of the World, a maritaca forma bandos que podem chegar a várias centenas de aves, às vezes com outras espécies de papagaios, e dorme em grupo, em árvores, canaviais e cavernas. A mesma fonte descreve a espécie como muito vocal, sobretudo em voo, com um chilreio áspero entremeado de gritos mais agudos. Quem dorme junto sai junto, e um grupo grande em movimento produz muito som.

Estudos com outras aves sociais ajudam a entender para que serve essa conversa. Em pesquisa com a caturrita (Myiopsitta monachus) no Uruguai, publicada em 2019 na revista Behavioral Ecology por Grace Smith-Vidaurre, Marcelo Araya-Salas e Timothy Wright, os chamados de contato mostraram assinaturas individuais muito marcadas e semelhança apenas fraca dentro dos grupos, o que levou os autores a concluir que a interação social depende mais do reconhecimento de indivíduos do que da identidade do bando. Já um experimento em viveiro com uma ave social de pequeno porte, o olho-branco Zosterops simplex, publicado em 2023 na Ecology and Evolution, mostrou que a frequência dos chamados de contato variou com o contexto social, como o tamanho do grupo e os laços entre as aves, e não funcionou como sinal imediato de risco de predação.

O grito mede o estresse do ambiente?

Os trabalhos citados acima não dão sustentação à leitura popular de que um bando gritando é um termômetro de ambiente degradado, de falta de comida ou de calor excessivo. Os chamados de contato e de voo cumprem funções de coesão e de comunicação do grupo. Para afirmar que um aumento de gritaria revela estresse ambiental seria preciso medir o som, o ambiente e a fisiologia das aves ao mesmo tempo, e não há estudo desse tipo publicado para a maritaca. Isso não significa que as aves não reajam a perturbações, como obras e barulho forte, apenas que o grito isolado não é um indicador confiável.

Também não há base para a ideia de que uma maritaca gritando sozinha esteja necessariamente perdida do bando. Aves sociais podem emitir chamados de contato quando se afastam do grupo, mas o mesmo som aparece em muitas outras situações. O mais seguro, para quem observa uma ave sozinha e ferida ou sem conseguir voar, é acionar o órgão ambiental ou o centro de reabilitação de fauna da região.

O que a maritaca come e onde faz ninho na cidade

A dieta explica parte da presença urbana. O Birds of the World informa que a espécie come principalmente frutos, além de sementes, flores e poucos artrópodes. Em Uberlândia, em Minas Gerais, o grupo de pesquisa de Carolina Prudente Marques e Oswaldo Marçal Júnior, publicado na revista Biotemas em 2018, acompanhou psitacídeos em dez praças durante 480 horas, de maio a dezembro de 2011. Foram registrados 278 eventos de alimentação de quatro espécies, entre elas a maritaca, que consumiram 33 espécies de plantas, principalmente exóticas. As famílias mais exploradas foram as leguminosas (Fabaceae), as bignoniáceas (Bignoniaceae) e as palmeiras (Arecaceae), e as aves comeram polpa de fruto, sementes, flores, néctar e folhas.

Em Sorocaba, a pesquisa da UFSCar registrou 20 espécies de plantas consumidas pelos psitacídeos urbanos, com destaque para a amoreira-preta (Morus nigra). O estudo também anotou que a procura por locais de nidificação em telhados foi mais frequente no fim da estação seca. Na natureza, segundo o Birds of the World, a espécie nidifica em cavidades de árvores e de palmeiras, com ninhadas de três a quatro ovos. Em cativeiro, a incubação dura cerca de quatro semanas e os filhotes deixam o ninho por volta de nove semanas depois da eclosão.

Situação da espécie

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica a maritaca como pouco preocupante, e a ave é considerada comum em grande parte de sua área de ocorrência. A população total é desconhecida e é considerada em declínio, e a espécie consta do Apêndice II da CITES, a convenção que regula o comércio internacional de fauna silvestre. Grandes números de aves já foram exportados ou mantidos como animais de estimação.

Como conviver com o bando

Não existe fórmula para silenciar uma maritaca, e não é esse o objetivo. O barulho é parte do jeito de viver de uma ave que se desloca e dorme em grupo. Quem convive com um dormitório perto de casa pode relevar o incômodo lembrando que a presença do bando mostra que a ave encontrou na cidade árvores com frutos e abrigo. Árvores frutíferas e áreas verdes continuam sendo o recurso que mantém esses bandos, e respeitar ninhos e filhotes durante a reprodução é a atitude mais útil que o morador pode ter.

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