
Biólogos da Universidade do Oregon, nos Estados Unidos, trouxeram de volta à vida proteínas pré-históricas. Eles reconstruíram em laboratório moléculas de defesa que existiam há até 160 milhões de anos, no ancestral comum dos mamíferos placentários, e testaram o que elas fazem com bactérias. Algumas versões antigas foram mais eficazes contra bactérias resistentes a medicamentos do que as encontradas em espécies atuais.
O estudo foi publicado em agosto na revista científica PLOS Biology.
A proteína do leite e das lágrimas
A pesquisa gira em torno da lactoferrina, uma proteína do sistema imune presente em quase todos os fluidos do corpo, menos no sangue: leite materno, lágrimas, saliva, muco do nariz e do intestino. Uma de suas funções é prender o ferro, que as bactérias precisam para crescer. Ao segurar o elemento, a lactoferrina dificulta a vida dos micróbios.
Ela também tem uma arma própria: um fragmento, chamado peptídeo antimicrobiano, capaz de abrir buracos na membrana das bactérias e rompê-las. Parentes próximos da lactoferrina não têm essa capacidade, sinal de que ela surgiu depois, ao longo da evolução dos mamíferos.
Viajando para trás na árvore da vida
A lactoferrina apareceu por volta de 160 milhões de anos atrás, no fim do período Jurássico, mais ou menos quando surgiu o ancestral comum dos mamíferos placentários, aqueles cujos filhotes se desenvolvem no útero, grupo que inclui os humanos e quase todos os mamíferos atuais.
Para recriar as versões extintas, a doutoranda Titas Sil, autora principal, comparou as sequências do gene da lactoferrina em espécies vivas, como humanos e bois, montou a árvore de parentesco entre elas e usou métodos estatísticos para estimar as sequências mais prováveis dos ancestrais. Depois, produziu esses peptídeos em laboratório e os colocou contra bactérias.
Evolução como experimento
Para o biólogo evolutivo Matt Barber, autor sênior, a evolução é um experimento científico de bilhões de anos, e olhar para o que funcionou e o que não funcionou pode dar ideias para criar novas ferramentas contra micróbios. As versões ancestrais servem como ponto de partida para desenvolver tratamentos que complementem ou substituam antibióticos que perderam a eficácia.
Por que isso é urgente
A resistência a antibióticos é um dos grandes problemas de saúde do mundo. Bactérias que não respondem aos remédios disponíveis causam infecções difíceis de tratar, sobretudo em hospitais. Segundo Barber, quem estuda bactérias patogênicas sabe que os antibióticos foram uma das maiores conquistas da medicina do século 20, mas que os micróbios vêm evoluindo resistência a eles há muito tempo.
Os peptídeos antimicrobianos interessam porque atacam uma gama ampla de patógenos e agem de forma diferente dos antibióticos tradicionais. Ainda falta muito para virarem remédio: precisam ser testados quanto à segurança, à estabilidade no corpo e à eficácia em animais e pessoas.
O que você pode fazer hoje
Enquanto novas armas não chegam, a forma de frear a resistência é usar antibióticos só com receita médica, seguir o tratamento até o fim e nunca tomar sobras de remédio por conta própria.
Perguntas frequentes
O que é lactoferrina?
Uma proteína do sistema imune presente no leite, nas lágrimas e na saliva, que prende o ferro e ajuda a combater bactérias.
Proteínas antigas podem virar remédio?
Podem servir de base para novos tratamentos, mas ainda precisam passar por muitos testes antes de chegar a pacientes.
Com informações da Universidade do Oregon e do estudo publicado na PLOS Biology.
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