Estudo cruza 861 áreas marinhas protegidas com rastreamento de navios e mostra que a pesca aumentou em 58% delas desde 2012

Estudo cruza 861 áreas marinhas protegidas com rastreamento de navios e mostra que a pesca aumentou em 58% delas desde 2012
Foto: Insider Paper Inc. All Rights Reserved

Pesquisa na Science Advances questiona a cobertura de área como medida de sucesso às vésperas da COP17, na Armênia.

Em mais da metade das áreas marinhas protegidas analisadas por pesquisadores, há hoje mais barcos pescando do que antes de elas existirem no papel. Segundo estudo publicado nesta quarta-feira (14) na revista Science Advances, a atividade pesqueira cresceu em 58% das 861 áreas avaliadas entre 2012 e 2024, caiu em 40% e ficou estável em 2%.

O resultado ganha peso porque o número de áreas protegidas tem aumentado justamente para combater a pressão da pesca, apontada no texto como a maior ameaça à biodiversidade marinha.

Como a pesquisa mediu o que acontece dentro das fronteiras

A equipe comparou dados de rastreamento de embarcações da plataforma Global Fishing Watch com os mapas das áreas protegidas, cobrindo o período de 2012 a 2024. A lógica é simples: se a proteção funciona, o esforço de pesca dentro dos limites deveria cair em relação ao período anterior à criação da área.

Não foi o que aconteceu na maioria dos casos. “Não esperávamos ver resultados tão marcantes”, disse Joachim Claudet, pesquisador de socioecologia marinha do CNRS, da França, e coautor do trabalho.

Proteção no papel, pesca industrial na prática

Segundo a base Protected Planet, hoje existem 17.227 áreas marinhas protegidas, que cobrem quase 10% dos oceanos. O crescimento acompanha a meta firmada por 196 países, em 2022, de proteger 30% dos oceanos até 2030.

O problema, afirma Claudet, está no tipo de proteção. “Percebemos que a maioria delas tem níveis de proteção extremamente baixos e que a pesca industrial continua ocorrendo dentro delas”, disse ele à AFP.

Ele acrescentou: “Com exceção das poucas zonas totalmente protegidas, o nível mais alto, em que a pesca é proibida, constatamos que a pressão pesqueira aumentou na maior parte das áreas marinhas protegidas em comparação com antes de sua criação.”

Reservas rigorosas, mas em lugares pouco pescados

Mesmo entre as áreas totalmente protegidas, onde a pesca de fato diminuiu, há uma ressalva. Os pesquisadores observaram que muitas delas ficam em locais que já tinham pouca pesca industrial.

“Em escala global, as áreas marinhas protegidas que regulam a pesca tendem a evitar as regiões onde a pesca realmente acontece”, afirmou Claudet. Na prática, a proteção rigorosa costuma ser mais fácil de aprovar onde há menos interesse econômico em jogo, o que reduz o ganho real para a biodiversidade.

A pergunta que chega à COP17

A conclusão dos autores atinge o indicador mais usado nas negociações: o percentual do oceano coberto por áreas protegidas. Com a COP17 de biodiversidade prevista para este mês na Armênia, Claudet questionou se esse número deve continuar como principal medida de avanço.

“Isso nos diz muito pouco sobre o quanto essas áreas estão realmente ajudando a conservar a biodiversidade”, declarou.

O que isso significa para a Amazônia

O estudo é global e a fonte não detalha resultados por país ou região. Ainda assim, o debate é relevante para a costa amazônica, que abriga manguezais e pesca artesanal e industrial no litoral do Amapá, Pará e Maranhão. Onde existem unidades de conservação marinhas e costeiras, a pergunta levantada pelos pesquisadores vale como critério de avaliação: não basta o limite estar demarcado, é preciso verificar o que acontece dentro dele.

A discussão tende a se intensificar nos próximos dias, quando delegações chegarem à COP17 e a meta de 30% até 2030 voltar ao centro da mesa de negociação.

O estudo completo está na Science Advances. Quem acompanha as notícias da fonte pode adicioná-la como fonte preferida no Google.

Com informações de AFP e Science Advances.

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