
Quem imagina um cacto pensa num caule gordo e cheio de espinhos, sem folhas. A nova espécie descoberta na Caatinga da Bahia foge desse retrato. Ela tem caules finos, folhas pequenas e flores brancas e alongadas que se abrem ao anoitecer. Batizada de Quiabentia pelodaserra, é o primeiro cacto novo do seu gênero descrito em mais de cem anos e já foi classificada como criticamente em perigo, a categoria mais grave antes da extinção na natureza.
Flores que chamaram a atenção
A planta foi encontrada em 2025 pelo botânico José Alves Siqueira, professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco, a Univasf, e especialista em cactos e bromélias. Foram as flores brancas que chamaram a atenção dele numa área rochosa. Siqueira percebeu que aquele cacto não correspondia a nenhuma das espécies que conhecia das expedições pelo sertão nem da literatura científica.
Os botânicos Daniela Zappi e Nigel Taylor, referências no estudo de cactos brasileiros, colaboraram na confirmação e na descrição. O trabalho foi publicado na revista Bradleya, da Sociedade Britânica de Cactos e Suculentas.
Um nome que veio dos moradores
O nome da espécie foi escolhido a partir do conhecimento da comunidade. Na região, a planta é chamada de pelo da serra, por causa dos espinhos finos que grudam na pele e nas roupas. Os pesquisadores mantiveram a denominação popular no nome científico, reconhecendo o saber local sobre a vegetação.
O que a torna diferente
Com a descoberta, o gênero Quiabentia passou a ter três espécies. As outras duas, Quiabentia zehntneri e Quiabentia verticillata, foram descritas em 1919 e 1923. Essas espécies conhecidas têm flores rosadas que se abrem de dia e são polinizadas por abelhas e beija-flores.
A nova planta é diferente. Além dos caules finos e das folhas pequenas, tem seiva de cheiro forte e flores brancas e compridas que se abrem ao anoitecer, têm uma grande câmara de néctar e ficam penduradas depois de maduras. Segundo Siqueira, a diferença entre as espécies aparece principalmente nas partes reprodutivas: flor, fruto e semente.
Polinizada por morcegos?
As características da flor, branca, noturna e com muito néctar, levantaram uma hipótese: a polinização pode ser feita por morcegos. Os pesquisadores ainda não observaram visitas desses animais às flores. Se a suspeita for confirmada, será o primeiro registro conhecido de polinização por morcegos em cactos do grupo dos opuntioides, o mesmo da palma e da conhecida coroa-de-frade.
Um só lugar no mundo
A espécie foi registrada em apenas uma localidade, um afloramento de calcário na divisa entre os municípios de Jussara, Central e Itaguaçu da Bahia, no centro-norte do estado. A distribuição estimada é de 72 quilômetros quadrados. A expansão de lavouras e cidades, a mineração de calcário, a abertura de estradas e o pastoreio excessivo de ovinos pressionam o habitat.
Como medida de segurança, duas amostras da planta estão em cultivo no Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga, no campus de Ciências Agrárias da Univasf, em Petrolina, Pernambuco. Manter a planta fora do ambiente natural permite conservar o material genético e, no futuro, fazer reintroduções. Para o professor, o grande desafio agora é conservar esse tesouro da Caatinga.
A Caatinga, berço de cactos
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e um dos semiáridos mais ricos em espécies do mundo. É também um dos principais centros de diversidade de cactos das Américas, com mandacarus, xique-xiques, facheiros, coroas-de-frade e muitas espécies que só existem em pequenas áreas de rocha. Apesar disso, é um dos biomas menos protegidos do país, com pequena parte do território em unidades de conservação de proteção integral. Descobertas como a do pelo da serra mostram que ainda há muito a conhecer no sertão, e que parte dessa riqueza pode desaparecer antes de ganhar nome.
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