A chuva da Amazônia é tão pesada que puxa o centro de massa da Terra 2,2 milímetros em direção à América do Sul todo mês de abril

A chuva da Amazônia é tão pesada que puxa o centro de massa da Terra 2,2 milímetros em direção à América do Sul todo mês de abril
A Terra vista pela tripulação da Apollo 17, em 1972. Imagem: Nasa, via Wikimedia Commons, domínio público.

O centro de massa da Terra não fica parado. À medida que água, gelo e ar se movem pelo planeta com as estações, redistribuem peso suficiente para empurrar esse ponto alguns milímetros para lá e para cá em relação ao centro geométrico. E uma das forças nessa dança é brasileira: a água das chuvas da Amazônia.

Segundo um estudo liderado pelo Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, publicado na revista científica Geophysical Journal International, em abril a bacia do rio Amazonas atinge o máximo de água das chuvas, cerca de 2.400 gigatoneladas. Essa concentração enorme puxa o centro de massa da Terra 2,2 milímetros em direção à América do Sul.

Por que medir isso

O centro de massa da Terra é o ponto de referência essencial para a navegação por satélite e para as medições de altitude da superfície. Satélites giram em torno dele. Se ele se move e ninguém leva isso em conta, os erros se acumulam em sistemas de posicionamento, mapas e medições do nível do mar.

O problema é que medir esse movimento é difícil. As duas estimativas internacionais mais recentes, de 2017 e 2023, diferem em 7 milímetros, quase o tamanho do próprio deslocamento que se quer medir.

Bolas de discoteca no espaço

O geocientista Donald Argus, da Nasa, desenvolveu um novo método baseado no rastreamento extremamente preciso de satélites. Dois satélites de metal denso, lançados em 1976 e 1992, foram feitos para isso: os Lageos, que parecem bolas de discoteca de 408 quilos cobertas de prismas refletores. Estações em mais de 20 países disparam lasers contra eles e medem com precisão o retorno do sinal.

Segundo Argus, a equipe estima agora que o vaivém anual do centro de massa é cerca de metade do que se acreditava oito anos atrás. Ou seja, a massa de água e ar que muda de hemisfério é menor do que se pensava.

As estações da Terra

Os pesquisadores rastrearam três fontes principais: os oceanos, a atmosfera e a água dos continentes, que inclui gelo, neve, rios, lagos, umidade do solo e água subterrânea.

  • Em março, a neve acumulada na América do Norte e na Eurásia desloca o centro cerca de 3 milímetros em direção ao Polo Norte.
  • Em abril, a cheia da Amazônia puxa 2,2 milímetros para a América do Sul.
  • Em novembro, a água das monções do Sudeste Asiático, com pico de 600 gigatoneladas, dá uma contribuição menor.
  • De agosto a outubro, o degelo e as chuvas que chegam aos oceanos empurram o centro em direção ao Pacífico Sul.

Do frete ao campo

Para Felix Landerer, coautor do estudo, esses movimentos parecem minúsculos, mas o mundo moderno depende de posicionamento muito preciso, da logística de transporte global à agricultura de precisão, com máquinas guiadas por satélite. Entender o que mexe nos sistemas de referência permite construir referências melhores.

A força das águas amazônicas

O resultado dá uma dimensão física ao tamanho do ciclo de águas da Amazônia. A bacia, a maior do planeta, enche e esvazia todos os anos com um volume capaz de mexer, ainda que pouco, no equilíbrio do planeta inteiro. Secas e cheias extremas, como as dos últimos anos, também alteram esse peso.

Perguntas frequentes

O centro da Terra se move?

O centro de massa se desloca alguns milímetros ao longo do ano por causa da movimentação de água, gelo e ar.

Quanta água a Amazônia guarda na cheia?

Cerca de 2.400 gigatoneladas em abril, no pico das chuvas, segundo o estudo.

Com informações da Nasa e do estudo publicado no Geophysical Journal International.

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