
Estudo participativo em 24 comunidades de 13 municípios mostra que redes, painéis solares e geradores sustentam o acesso onde a infraestrutura pública não chega.
Em muitas comunidades tradicionais do Pará, a eletricidade chega à casa, mas não por meio da rede pública. O levantamento mostra que 77% das moradias utilizam energia elétrica, enquanto apenas 32% estão conectadas à rede e só 20% contam com serviço público formal. A diferença entre esses percentuais revela que ter algum acesso não significa dispor de fornecimento regular, abrangente ou adequado às necessidades locais.
Os dados fazem parte do estudo Identificação de demandas para subsidiar políticas de bem viver voltadas às comunidades amazônicas, lançado em 30 de março e divulgado em 15 de abril de 2026. O documento reúne informações de 24 comunidades em 13 municípios paraenses, incluindo territórios indígenas, quilombolas, reservas extrativistas e outras áreas protegidas. A pesquisa foi construída com participação dos moradores, que ajudaram a elaborar e aplicar os questionários.
Eletricidade existe, mas chega por caminhos diferentes
Nas localidades analisadas, o acesso à energia é formado por uma combinação de infraestrutura pública e soluções instaladas ou mantidas pelas próprias comunidades. A rede elétrica atende 32% das moradias, mas a parcela que recebe um serviço público formal cai para 20%. Essa distinção é importante porque a presença de fios ou de alguma fonte de geração não assegura, por si só, continuidade, qualidade ou capacidade suficiente para as atividades cotidianas.
A energia solar fotovoltaica aparece em 44% das residências que têm eletricidade. Os sistemas permitem atender moradias situadas em áreas onde a expansão da rede convencional não acompanha a distribuição territorial das comunidades. Ainda assim, o levantamento trata essas soluções como parte de um quadro que exige planejamento público contínuo, porque o acesso depende das condições locais e não apenas da existência de equipamentos de geração.
Geradores mantêm serviços, mas elevam o custo da energia
Os chamados motores de luz, geradores movidos a diesel, estão presentes em 16% dos domicílios. Para as comunidades, essa alternativa pode custar até cinco vezes mais do que a energia fornecida pela rede elétrica e até dez vezes mais do que sistemas solares. Além da despesa, o uso envolve emissões de gases de efeito estufa, poluição sonora e poluição do ar, fatores que pesam na rotina de localidades onde o gerador é uma das poucas opções disponíveis.
A dependência também aparece nos espaços de uso coletivo. O abastecimento de água concentra a maior parte dos sistemas comunitários de energia, e mais da metade desses casos depende de geradores. Em 66% das situações, os próprios moradores assumem o custo da operação. O dado mostra que a eletricidade não está ligada apenas à iluminação das residências, mas também à manutenção de serviços essenciais para toda a comunidade.
Escolas atendem alunos, mas a oferta educacional permanece desigual
O levantamento identificou 34 escolas nas comunidades pesquisadas, responsáveis pelo atendimento de cerca de 1.500 alunos. Cinco localidades, porém, não têm unidade escolar. Entre as comunidades analisadas, apenas 20% contam com ensino médio e nenhuma dispõe de ensino técnico ou profissionalizante. A disponibilidade de energia também varia nesse conjunto: 72% das escolas e comunidades com atendimento educacional têm eletricidade.
Esses números aproximam a questão energética de outros serviços públicos. Uma escola pode existir, mas a oferta educacional depende de condições materiais para funcionar e atender os estudantes ao longo do tempo. O estudo não reduz o problema à instalação de equipamentos ou à extensão de cabos. Ele relaciona o fornecimento de energia à capacidade de manter escolas, abastecimento de água, atividades produtivas e demais espaços comunitários em funcionamento.
Mapeamento participativo orienta políticas para os territórios
Mais da metade das comunidades entrevistadas, 52%, declarou insatisfação com o fornecimento de energia elétrica. A resposta indica que o desafio não termina quando uma fonte chega à moradia. A continuidade e a qualidade do serviço também precisam corresponder às características dos territórios, às distâncias entre as casas, à necessidade de manter equipamentos comunitários e aos custos assumidos pelos moradores.
O estudo defende o mapeamento socioterritorial contínuo como instrumento para qualificar o planejamento público. A participação local ajuda a identificar demandas que os números gerais podem esconder, como a diferença entre energia disponível e serviço público formal. A experiência também reforça a relação entre infraestrutura e conservação: a constatação compartilhada por especialistas e comunidades de que onde estão os povos da floresta, as florestas permanecem em pé, coloca o atendimento energético dentro de uma agenda que precisa reconhecer o papel dessas populações na proteção ambiental.
Ampliar o acesso, nesse contexto, significa alcançar as moradias sem transformar a conta da energia em um novo obstáculo. A realidade registrada no Pará mostra que painéis solares, redes existentes e geradores não representam soluções equivalentes para todos os territórios. Cada alternativa produz custos e condições diferentes, e a escolha precisa considerar a vida comunitária, os serviços coletivos e a continuidade do fornecimento. A eletricidade passa a cumprir seu papel público quando deixa de ser apenas presença e se torna base estável para que as comunidades definam seus próprios caminhos.
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