
Ecoparques da Veolia em Brusque e Blumenau mostram o que a tecnologia já recupera do lixo e por que o Brasil ainda recicla pouco.
Plásticos e metais que hoje seguem misturados ao lixo comum e acabam enterrados em aterros podem ser separados por máquinas e voltar à indústria. É o que propõe a Unidade de Triagem Mecanizada (UTM) instalada em abril de 2026 no EcoParque Brusque, em Santa Catarina, com capacidade para processar até 220 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano e potencial de recuperar cerca de 15 mil toneladas de recicláveis no mesmo período.
A estimativa divulgada pelos responsáveis pelo projeto é evitar aproximadamente 33 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano. Os números são projeções de potencial, não resultados já medidos ao longo de um ciclo completo de operação.
Sensores ópticos fazem o trabalho que a coleta seletiva não alcança
A UTM é parte da plataforma Ciclare, desenvolvida em parceria com a eureciclo e a Just Climate, com financiamento do BID Invest. A Veolia abriga a instalação e responde por sua operação.
O sistema combina esteiras automatizadas e separadores ópticos capazes de identificar e classificar diferentes materiais. Na prática, ele alcança recicláveis que o morador ou o comércio não separaram na origem e que, sem a máquina, seguiriam direto para o aterro.

A tecnologia não substitui a coleta seletiva. A separação correta em casa, nas empresas e nos estabelecimentos continua sendo decisiva para a qualidade do material recuperado. A triagem mecanizada funciona como uma camada adicional, que aproveita parte do que escapa.
Reciclar e gerar energia não são a mesma coisa
Em Blumenau, o EcoParque trabalha com outra frente: o aproveitamento energético. Resíduos com características adequadas viram combustível derivado de resíduos (CDR), usado no lugar de combustíveis fósseis em processos industriais, como a fabricação de cimento.
A Veolia também opera em Blumenau uma unidade de valorização energética que converte em energia cerca de 3 mil toneladas anuais de resíduos de diferentes indústrias, segundo informações divulgadas pela companhia.
A distinção importa. Na reciclagem, o material volta à cadeia produtiva como matéria-prima. No aproveitamento energético, o que se usa é o conteúdo energético do resíduo, para substituir outro combustível. As duas rotas podem reduzir o envio ao aterro, desde que aplicadas aos materiais certos e com controles ambientais rigorosos.

A prioridade, portanto, segue sendo evitar a geração, reutilizar e reciclar quando houver viabilidade técnica e ambiental. A valorização energética faz mais sentido para resíduos sem rota de reciclagem viável e não deve servir de justificativa para reduzir esforços de reciclagem.
Oktoberfest: 123 toneladas em 19 dias
A operação em larga escala aparece também na Oktoberfest de Blumenau, da qual a Veolia é parceira de sustentabilidade pelo quinto ano consecutivo em 2026. Segundo o balanço divulgado pela organização, a edição de 2025 coletou 123 toneladas de resíduos ao longo de 19 dias, e todo o material foi reaproveitado como CDR ou encaminhado para reciclagem, sem seguir para o aterro.
Nas edições de 2023 e 2025, a festa distribuiu 84 mil litros de água ultrafiltrada gratuita, volume equivalente a cerca de 168 mil garrafas plásticas de 500 mililitros. Desde 2024, sensores e hidrômetros acompanham o consumo de água e energia, e os dados orientam ajustes nas edições seguintes.
O retrato nacional: pouco se recicla
Os resultados catarinenses contrastam com a média do país. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024, e 76,4 milhões foram coletadas.

Aterros sanitários receberam 41,4 milhões de toneladas. Já 40,3% do volume gerado teve destinação final inadequada, incluindo lixões e aterros controlados.
A reciclagem mecânica de secos, como papel, plástico, vidro e metais, alcançou cerca de 7,1 milhões de toneladas, o equivalente a aproximadamente 8,7% do total gerado. O estudo traz ainda um índice de 20,4% que inclui modalidades de valorização orgânica e bioenergética, com metodologia distinta e que não significa reciclagem para fabricação de novos produtos.
O que isso significa para a Amazônia
A região amazônica convive com o mesmo problema em escala própria: cidades distantes entre si, logística fluvial cara e municípios que dependem de lixões ou aterros controlados. Os dados da Abrema são nacionais e não detalham a região, mas o diagnóstico de infraestrutura municipal limitada vale para boa parte dela.
O caso catarinense indica um caminho, mas também seus pré-requisitos: investimento, operação especializada e um mercado comprador para o material recuperado. Uma planta com capacidade de 220 mil toneladas por ano pressupõe volume e logística que nem todo município amazônico tem, o que sugere soluções regionais ou consorciadas.
O que ainda falta
Tecnologia sozinha não fecha a conta. Faltam ampliar a coleta seletiva, melhorar a infraestrutura municipal, fortalecer cooperativas e catadores e criar mercados para os recicláveis. A Política Nacional de Resíduos Sólidos já prevê redução, reutilização, reciclagem e destinação adequada. O desafio é converter essas diretrizes em resultados consistentes.
Os próximos meses de operação da UTM de Brusque dirão se a recuperação projetada de 15 mil toneladas anuais se confirma na prática. Mais informações sobre a atuação da empresa estão no site da Veolia.
Com informações de Veolia.
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