
Oceano já aquecido antes do fenômeno aumenta o risco de novo branqueamento em recifes que ainda se recuperam de eventos recentes.
Um oceano que já estava mais quente que o normal acaba de receber um fenômeno capaz de aquecê-lo ainda mais. O Bureau of Meteorology, serviço meteorológico da Austrália, declarou um evento de El Niño, e os meteorologistas alertam que ele pode figurar entre os mais fortes já registrados. Para a Grande Barreira de Corais, no nordeste australiano, o momento é delicado: o sistema ainda se recupera de episódios recentes de branqueamento, e a previsão é de um verão quente e seco, com risco maior de ondas de calor marinhas.
O que é o El Niño, em termos simples
Pense no Pacífico como uma grande banheira. Normalmente, os ventos alísios, que sopram de leste para oeste ao longo da linha do Equador, empurram a água quente para o lado oeste da banheira. Quando o El Niño se instala, esses ventos enfraquecem ou chegam a se inverter. A água quente, antes confinada ao Pacífico ocidental, desliza para leste.
Esse deslocamento muda a atmosfera e o clima em várias partes do mundo. Na Austrália, o efeito típico é de condições mais quentes e secas e menos nuvens, o que eleva o risco de secas, incêndios florestais e branqueamento de corais.
Por que o calor é um problema para os corais
Os corais vivem em parceria com algas microscópicas que habitam seus tecidos e fornecem a maior parte do alimento que eles consomem. Com a água muito quente, os corais expulsam essas algas. Sem elas, os tecidos ficam transparentes e deixam à mostra o esqueleto branco. Daí o nome branqueamento.
Coral branqueado não está morto, mas fica mais exposto à fome e a doenças. Ele pode se recuperar se a temperatura cair e as condições voltarem ao normal. Se o estresse persistir, os corais começam a morrer.
A perda vai além dos corais. Segundo a Great Barrier Reef Foundation, o branqueamento desorganiza todo o ecossistema e elimina habitats usados como áreas de alimentação e reprodução por milhares de espécies marinhas.
Um histórico de eventos em série
Segundo a Great Barrier Reef Foundation, a Grande Barreira de Corais passou por vários episódios de branqueamento em massa entre 1998 e 2025. O pior foi o de 2016/17. Um detalhe chama atenção: 2017 não foi um verão de El Niño, mas foi o ano mais quente já registrado sem as condições do fenômeno.
Isso mostra que o El Niño não é o único gatilho. Ele funciona como um acelerador sobre um oceano que já esquenta por causa das mudanças climáticas, e é essa combinação que preocupa agora.
O que está sendo feito
A fundação afirma que a mudança climática é a maior ameaça à Grande Barreira e aos recifes do mundo. Segundo a entidade, a ciência indica que restam menos de 10 anos para agir pelos recifes do planeta, e reduzir emissões, sozinho, já não basta. Também é preciso proteger habitats marinhos, restaurar corais e ajudá-los a se adaptar.
O principal esforço é o Reef Restoration and Adaptation Program (RRAP), que a fundação descreve como o maior programa de pesquisa e desenvolvimento do tipo no mundo. Entre as frentes atuais:
- produzir corais tolerantes ao calor, capazes de suportar águas mais quentes;
- preservar uma coleção diversa de espécies por criopreservação, técnica de congelamento em temperaturas muito baixas, para cultivar corais fora das janelas naturais de reprodução;
- testar métodos para estabilizar áreas danificadas em que os corais viraram entulho, permitindo que novos corais cresçam;
- explorar o potencial de carbono azul da Grande Barreira, isto é, o carbono armazenado por ecossistemas costeiros e marinhos, para ajudar a mitigar os efeitos do clima.
E a Amazônia com isso?
O El Niño atravessa o Pacífico, mas seus efeitos chegam à América do Sul. A Amazônia conhece bem o fenômeno pela via da seca: em anos de El Niño, a região tende a ter menos chuva, o que pressiona rios, comunidades ribeirinhas e a floresta. Há ainda uma diferença de ecossistema: aqui o alerta é de estiagem e fogo, lá é de calor oceânico e branqueamento. Mas a raiz do problema, um clima em aquecimento que amplifica extremos, é a mesma.
A região também tem seus recifes, como os da foz do Amazonas, no litoral norte do país, o que reforça o interesse local por estudos sobre como corais reagem ao calor.
Os próximos meses, com a chegada do verão austral, dirão se o oceano aquecido se converterá em um novo episódio de branqueamento na Grande Barreira, e os programas de restauração seguem em curso para tentar ampliar a resistência dos corais.
Com informações de Great Barrier Reef Foundation.
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