
Nova projeção da agência eleva a queda da demanda para 2,5 milhões de barris diários e expõe o dilema entre energia limpa e expansão dos fósseis.
Em um mundo que depende do petróleo para mover caminhões, barcos e aviões, o consumo vai encolher mais do que se imaginava em 2026, e não por escolha. Segundo o relatório de setembro da Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda global deve cair 2,5 milhões de barris por dia (bpd) neste ano na comparação com 2025. Em agosto, a projeção era de queda de 1,6 milhão de bpd, uma revisão de 900 mil barris diários, ligada à guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada no fim de fevereiro.
Ormuz fechado e um período perdido
O ponto central da revisão é o Estreito de Ormuz, passagem por onde circula cerca de 20% da produção mundial de petróleo. A IEA já não prevê sua reabertura neste ano. Por isso, a agência avalia que 2026 e 2027 serão “um período perdido” para o crescimento da procura global, conforme destacou o Financial Times.
As perdas não se distribuem de modo uniforme. Concentram-se nos destilados médios, como óleo diesel e querosene de aviação (QAV), e nas matérias-primas petroquímicas, sobretudo na Ásia, segundo a IEA.
A oferta cai mais que a demanda
O desequilíbrio aparece quando se olha o outro lado do mercado. Em agosto, a IEA projetava queda de 4,3 milhões de bpd na oferta global de petróleo em 2026. Agora, estima recuo de 5,7 milhões de bpd, o que leva a produção a 100,7 milhões de bpd, ante 110,3 milhões de bpd previstos no mês anterior.
Ou seja, o mundo está produzindo bem menos do que consome, e a diferença entre uma curva e outra ajuda a explicar a pressão sobre os preços. Para 2027, a agência prevê alta de 2,6 milhões de bpd na demanda, o que compensa apenas em parte as perdas deste ano.
Preço sem bússola
A incerteza chegou ao mercado financeiro. Pela primeira vez desde o início do conflito, o JP Morgan deixou de adotar um cenário-base para o petróleo. Em relatório divulgado no fim da semana anterior, os estrategistas de commodities do banco admitem, segundo o Valor: “simplesmente não sabemos como modelar o desfecho”.
Pelas condições atuais de oferta e demanda, o banco estima US$ 90 por barril em setembro. O Brent, porém, era negociado a US$ 106 na semana passada e chegou perto de US$ 110. A distância entre o valor calculado e o valor praticado mostra o peso do risco geopolítico na cotação.

Emissões recuam, mas não por planejamento
Menos petróleo queimado significa menos gases de efeito estufa. Segundo análise do Carbon Brief, as emissões globais de combustíveis fósseis devem cair cerca de 0,5% em 2026. O carvão deve ganhar espaço neste ano, mas o acréscimo será mais do que compensado pela queda nas emissões de petróleo e gás.
É um recuo modesto e de origem frágil. Ele nasce de uma crise de abastecimento, não de uma decisão de transição, e tende a se desfazer se o fluxo pelo Golfo for normalizado e a demanda voltar, como a própria IEA projeta para 2027.
Renováveis ganham fôlego, mas devagar
A crise também empurra a energia renovável. Mais de 30 governos adotaram políticas para abandonar fósseis ou melhorar a eficiência energética. Especialistas ouvidos pela AP, no entanto, ressaltam que o mundo segue fortemente dependente desses combustíveis e que os resultados no combate às mudanças climáticas levarão mais tempo.
Pauline Heinrichs, professora de estudos de guerra do King’s College London, descreveu o impasse: “Os governos estão atualmente em um jogo de gato e rato, tentando conciliar o reconhecimento da importância da energia limpa com o apoio contínuo à expansão dos combustíveis fósseis”. E completou: “Estamos vendo um mundo antigo e um novo interagindo em contradição um com o outro.”
O que isso significa para a Amazônia
A região sente o choque de forma direta no diesel. Barcos que fazem o transporte de passageiros e cargas pelos rios, geradores que abastecem comunidades isoladas e a logística de alimentos e combustíveis dependem desse derivado, justamente um dos mais atingidos pela crise, segundo a IEA. Preços internacionais altos tendem a pesar no custo do frete e da energia onde a rede elétrica não chega.
O debate também alcança o território. Leilões de áreas de petróleo e gás da ANP e a expansão da mineração são apontados por organizações ambientais como ameaça a ecossistemas protegidos, e a crise global tende a reforçar a pressão por mais exploração, em contraste com a necessidade de reduzir emissões.
O próximo teste vem com o Oil Market Report de outubro da IEA, que dirá se a agência mantém a leitura de Ormuz fechado e se a previsão de recuperação de 2,6 milhões de bpd em 2027 se sustenta.
Com informações de Agência Internacional de Energia (IEA).
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