
Monitoramento do Global Forest Watch aponta que as queimadas responderam pela maior parte da perda de floresta primária nos trópicos.
O fogo mudou a escala da perda florestal
Os incêndios queimaram cinco vezes mais floresta tropical primária em 2024 do que no ano anterior, transformando o fogo no principal fator associado à perda registrada nos trópicos. A dimensão do resultado aparece em uma comparação usada pelo monitoramento: a destruição avançou a um ritmo equivalente a 18 campos de futebol por minuto. Os dados foram divulgados em 21 de maio de 2025 e podem ser consultados na plataforma Global Forest Watch, mantida pelo World Resources Institute.
A medição trata de floresta tropical primária, uma vegetação que não passou por substituição recente e conserva características de formações maduras. Os especialistas fazem uma distinção importante entre perda florestal e desmatamento. O segundo termo pressupõe ação humana direta, enquanto a perda monitorada também pode incluir áreas consumidas por incêndios. Em determinados ecossistemas, o fogo ocorre naturalmente, mas nas florestas tropicais ele é quase sempre provocado por atividades humanas, segundo a avaliação apresentada no relatório. Essa diferença ajuda a interpretar o dado sem atribuir automaticamente toda área queimada a uma única causa.
Brasil concentrou a maior parcela entre dez países
Um grupo de dez países respondeu por 87% da perda de floresta tropical primária registrada em 2024. O Brasil ficou no topo da lista, concentrando 42% do total observado nos trópicos. Na sequência aparecem Bolívia, República Democrática do Congo, Indonésia, Peru, Laos, Colômbia, Camarões, Nicarágua e México. A Bolívia subiu para a segunda posição no último ano analisado, enquanto os demais países completaram o conjunto responsável pela maior parte da perda.
O resultado brasileiro precisa ser lido dentro da dimensão territorial do país, que abriga a maior extensão de florestas primárias tropicais do mundo. Ainda assim, o relatório aponta fatores específicos relacionados à perda de áreas intactas no território nacional. Segundo Peter Potapov, acadêmico e codiretor do Glad Lab, agricultura industrial, mineração e exploração madeireira estão entre os principais responsáveis. As taxas de perda não relacionada a incêndios também cresceram 13% em 2024, embora tenham permanecido abaixo dos picos observados no início dos anos 2000 e durante o governo anterior.
O recorde também alcançou outras florestas
O aumento não ficou restrito às florestas tropicais primárias. Em escala global, a perda total de cobertura arbórea cresceu 5% em relação a 2023 e chegou a 30 milhões de hectares. Pela primeira vez, os pesquisadores identificaram grandes incêndios consumindo vegetação em regiões tropicais e também em florestas boreais. A ocorrência simultânea em ambientes tão diferentes ampliou o alcance do alerta registrado no monitoramento.
Peter Potapov afirmou que as perdas foram significativas inclusive em áreas remotas, como o Alasca, pontos do Canadá e a Sibéria. A presença do fogo em locais afastados preocupa porque, em cenários considerados intactos, não existe atividade industrial instalada que explique diretamente toda a alteração observada. O dado não elimina as diferenças entre cada região, mas mostra que a deterioração da cobertura arbórea foi distribuída por biomas e latitudes distintas. A floresta tropical, portanto, aparece como parte de um quadro global mais amplo, embora concentre a maior parcela do impacto associado aos incêndios nos trópicos.
Mais fumaça, mais gases e um alerta climático
Os incêndios também produziram 4,1 gigatoneladas de gases de efeito estufa em 2024, quatro vezes mais do que em 2023. Esse volume acompanha a expansão da área atingida pelo fogo e acrescenta uma consequência climática ao desaparecimento da vegetação. A floresta queimada deixa de armazenar carbono da mesma maneira e, durante o incêndio, libera gases para a atmosfera. O dado foi apresentado como parte do balanço consolidado pelo Global Forest Watch, e não como uma estimativa limitada apenas ao território brasileiro.
Matt Hansen, catedrático e codiretor do Glad Lab, resumiu o balanço como uma notícia negativa ao completar uma década de relatórios com indicadores críticos. Uma das codiretoras do Global Forest Watch afirmou que o resultado deve servir de alerta para países e empresas, porque a continuidade da trajetória pode ampliar os impactos sobre a mudança climática. A interpretação, porém, não transforma todo incêndio em sinônimo de desmatamento. O monitoramento reúne perdas com origens diferentes, e a atribuição depende do contexto de cada área, especialmente quando o fogo ocorre em regiões remotas ou em ecossistemas onde incêndios naturais são possíveis.
O que o número revela sobre a floresta brasileira
Para o Brasil, a sequência dos dados combina uma posição de destaque na lista global com a persistência de pressões conhecidas sobre florestas intactas. O país concentrou 42% da perda tropical primária de 2024, enquanto as atividades ligadas à agricultura industrial, à mineração e à exploração madeireira foram apontadas como responsáveis importantes pela perda não relacionada diretamente aos incêndios. Ao mesmo tempo, essa parcela cresceu 13%, mas continuou abaixo de máximos registrados em períodos anteriores.
A informação divulgada em 21 de maio de 2025 não descreve apenas uma área que desapareceu. Ela mostra como fogo, uso da terra e emissão de gases passaram a aparecer juntos em uma escala difícil de separar no balanço anual. A floresta tropical não é apenas o cenário onde o incêndio acontece, mas parte do sistema que registra e devolve os efeitos dessa transformação. Quando o mapa perde verde e ganha fumaça, a mudança deixa de ser somente uma estatística de cobertura arbórea e passa a revelar a distância entre uma paisagem intacta e o ambiente que ficará depois dela.
Com informações da Agência Brasil.
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