Meteorito caído em 2008 revela campo magnético de 4,5 bilhões de anos que pode ter alimentado o Sol

Meteorito caído em 2008 revela campo magnético de 4,5 bilhões de anos que pode ter alimentado o Sol
Foto: Divulgação

Minerais preservados antes do nascimento do Sol indicam que o magnetismo ajudou a concentrar gás na estrela jovem.

Um meteorito que caiu na Terra em 2008 guardava, em pequenos grãos minerais, uma espécie de registro do ambiente que existia antes mesmo de o Sol nascer. Ao medir esses sinais, pesquisadores encontraram evidências de um campo magnético intenso atuando há mais de 4,5 bilhões de anos, quando uma nuvem de gás e poeira começava a se transformar no sistema solar.

O resultado não mostra que o magnetismo tenha sido o único responsável pelo nascimento do Sol. A conclusão é mais cuidadosa: os dados indicam que a gravidade pode ter contado com a ajuda de campos magnéticos para concentrar material e alimentar a estrela em formação.

Os minerais que funcionam como cápsulas do tempo

A investigação se concentrou em cinco inclusões ricas em cálcio e alumínio, conhecidas pela sigla CAI. Esses fragmentos aparecem como pequenas manchas claras em alguns meteoritos e estão entre os primeiros sólidos formados no sistema solar.

As inclusões se solidificaram antes da formação completa do Sol e dos planetas. Por isso, diferentemente de rochas terrestres alteradas por erosão, calor ou circulação de água, elas preservam pistas sobre as condições físicas da nuvem primordial que originou nossa vizinhança cósmica.

O grupo liderado pelo cientista planetário Cauê Borlina, da Universidade Purdue, analisou o meteorito usando magnetômetros sensíveis. O alvo foi o ferro presente nos minerais. Como os elétrons desse elemento podem reorganizar sua orientação de acordo com o campo magnético ao redor, a rocha registra uma assinatura que pode ser medida bilhões de anos depois.

Um campo mais forte que o da Terra atual

As medições apontaram campos de alguns gauss, unidade usada para expressar a intensidade do magnetismo. O valor é várias vezes maior que o campo magnético atual da Terra. O dado é importante porque indica que o magnetismo já estava presente durante a fase mais precoce da formação solar, e não apenas depois que o Sol se consolidou.

Segundo o estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, em 24 de agosto de 2026, inclusões minerais de um meteorito registraram um campo magnético existente na nebulosa que precedeu o Sol e os planetas.

A descoberta foi descrita no artigo científico “Paleomagnetic evidence for a nebular magnetic field from calcium-aluminum-rich inclusions”, assinado por C.S. Borlina e colaboradores. O trabalho pode ser consultado na publicação original na PNAS.

Como o magnetismo ajudaria a formar uma estrela

Quando uma grande nuvem de gás e poeira começa a colapsar, a gravidade puxa o material para regiões cada vez mais densas. Esse processo é fundamental para criar uma estrela, mas os modelos indicam que um campo magnético também pode alterar o caminho do gás.

O magnetismo organiza partículas carregadas e pode transportar material em direção ao centro da nuvem. Em vez de agir apenas como uma força adicional de atração, ele influencia o movimento do gás, redistribui energia e ajuda a definir quanto material chega à estrela nascente.

Meteorito caído em 2008 revela campo magnético de 4,5 bilhões de anos que pode ter alimentado o Sol
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Simulações de formação planetária usadas pelos pesquisadores sugerem que, durante a chamada fase Classe 0, a mais antiga etapa conhecida do nascimento estelar, o Sol poderia ter acumulado mais de 300 massas terrestres de gás por ano. A intensidade registrada nas inclusões é compatível com um cenário em que o campo magnético tenha contribuído de maneira relevante para esse fornecimento.

“Você não pode ignorar a contribuição do magnetismo”, afirmou Cauê Borlina, da Universidade Purdue.

A frase resume a principal implicação do estudo: a gravidade continua sendo indispensável, mas talvez não explique sozinha a velocidade e a organização com que o material se reuniu no centro do sistema solar.

O que a descoberta ainda não resolve

O registro encontrado em um único meteorito não permite reconstruir todo o ambiente que existia na época. As cinco inclusões analisadas são valiosas, mas representam uma amostra pequena de um sistema que desapareceu há bilhões de anos.

Por isso, o resultado é uma evidência, não uma prova definitiva de que o magnetismo dominou o processo de formação solar. A intensidade medida precisa ser comparada com registros preservados em outros meteoritos e em inclusões de diferentes origens.

Indrani Das, astrofísica teórica da Academia Sinica de Astronomia e Astrofísica, em Taipei, considerou o trabalho importante por oferecer uma das primeiras medições diretas associadas à fase Classe 0. Ao mesmo tempo, destacou a necessidade de ampliar o número de amostras antes de transformar a interpretação em uma conclusão geral.

Por que isso importa para a Amazônia

O fenômeno aconteceu muito antes da existência da Terra e não muda o comportamento atual do campo magnético sobre a Amazônia. A ligação com a região está no alcance da pergunta científica: pesquisadores de qualquer estado amazônico estudam a mesma origem cósmica que formou os minerais, a Terra e os elementos presentes nos solos, rios e seres vivos da floresta.

Para quem observa o céu no Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins ou Maranhão, a descoberta também ajuda a dimensionar o valor dos meteoritos encontrados no planeta. Cada fragmento pode conservar informações sobre etapas que não podem ser observadas diretamente, porque nenhum telescópio consegue voltar no tempo até o instante em que o Sol começou a se formar.

Além disso, compreender o papel do magnetismo na origem do sistema solar contribui para comparar nossa história com a de outros sistemas planetários da Via Láctea. Se campos magnéticos também forem comuns em nuvens que formam estrelas, eles podem ser uma peça importante para explicar por que alguns sistemas produzem planetas e outros seguem caminhos diferentes.

Os próximos passos são ampliar a análise para outros meteoritos e testar se a mesma assinatura aparece em diferentes inclusões antigas, uma etapa necessária para confirmar a contribuição do magnetismo na formação do Sol.

Com informações da Society for Science.

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