
Análise de grãos de pólen em White Sands indica que os primeiros americanos conhecidos viram o clima mudar de forma abrupta, dentro de poucas gerações.
Quem caminhou às margens de um lago no atual Novo México, nos Estados Unidos, há mais de 20 mil anos, pode ter visto a floresta ao redor mudar de caráter ainda durante a vida. Um estudo internacional publicado na revista Science Advances, com participação da Universidade do Arizona e do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), analisou pólen preservado junto às pegadas de White Sands e concluiu que a vegetação passou de pinheiros a piñon e junípero em cerca de um século.
Pegadas que parecem de ontem
As marcas ficaram registradas na lama de gipsita do que hoje é o White Sands National Park. A coautora Jessica Tierney, professora do Departamento de Geociências da Universidade do Arizona, resumiu a impressão que elas causam:
“Even though these footprints have been buried in the gypsum mud for more than 20,000 years, they look like someone walked out on the playa yesterday”
Ela completou que se trata de uma oportunidade rara de combinar reconstrução paleoclimática e arqueologia exatamente no mesmo lugar.
A descoberta das pegadas foi um marco da paleoantropologia: empurrou a chegada de humanos às Américas de um intervalo de 13,5 mil a 16 mil anos atrás para cerca de 23,5 mil anos atrás. Na época, o local abrigava o Lago Otero, que atraía mamutes, preguiças-gigantes, lobos-terríveis e leões americanos. Hoje, o visitante encontra um campo de dunas.
Segundo o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos (NPS), pegadas fossilizadas aparecem em diferentes camadas de sedimento, o que indica que pessoas voltaram ao lago ao longo de sucessivas gerações.
Como os pesquisadores leram o passado grão a grão
A equipe examinou grãos individuais de pólen para obter uma estimativa mais precisa da idade das pegadas. Os resultados sugerem que elas se formaram durante o Último Máximo Glacial, entre 23,5 mil e 21,7 mil anos atrás.
Com essa cronologia, os cientistas cruzaram o pólen com moléculas orgânicas deixadas no sedimento. A combinação permitiu identificar mudanças ambientais em escalas geracionais, em surtos de 20 a 80 anos.
De floresta de coníferas a playa seca
O retrato inicial é de uma floresta mista de coníferas, dominada por pinheiros, com temperatura média anual cerca de 10 graus mais baixa que a atual. Com o tempo, o clima esquentou e o Lago Otero encolheu até desaparecer, virando uma planície seca, a playa. A floresta recuou, e carvalhos e artemísias ocuparam o espaço.
Segundo o estudo, um breve pulso de aridez por volta de 23.200 anos atrás elevou a presença de pólen de piñon e junípero e coincidiu com um evento de aquecimento rápido na Groenlândia. Tierney explicou que a transição de pinheiros para piñon e junípero teria ocorrido em aproximadamente 100 anos.
Outro indício vem do pólen de Ruppia, planta aquática comum em nascentes de desertos. Sua quantidade oscilou, o que sugere que o nível do lago subiu e desceu ao longo de 1.500 anos. Para os autores, o ambiente em torno do Otero era dinâmico.
O que isso significa para quem viveu ali
O coautor Kathleen Springer, geóloga pesquisadora do USGS, destacou o ponto humano da descoberta:
“It’s remarkable that early humans in the region were real-time witnesses to a rapidly changing environment discernible within a human lifetime, that is really food for thought”
O coautor Ed Jolie, professor de Antropologia da Universidade do Arizona, afirmou que a pesquisa lembra que essas populações antigas são ancestrais de povos indígenas atuais, fornecendo evidência científica que apoia as tradições orais de nações nativas soberanas.
Um paralelo para a Amazônia
O caso fica distante da floresta amazônica, e o estudo não trata da região. Ainda assim, oferece uma referência útil ao leitor daqui: ecossistemas podem trocar de composição em poucas gerações quando temperatura e disponibilidade de água mudam. A Amazônia também guarda registros de pólen em sedimentos de lagos e turfeiras, usados por pesquisadores para reconstruir vegetações do passado. O trabalho em White Sands mostra o que esse tipo de método pode revelar quando é associado a uma cronologia precisa.
O que ainda falta entender
Uma dúvida central permanece aberta. A equipe pretende agora investigar por que um evento de aquecimento na Groenlândia teria efeitos tão profundos no clima do sudoeste americano. Os próximos trabalhos devem buscar essa ligação entre as duas regiões.
Os detalhes do estudo estão em artigo na Science Advances sobre as mudanças ambientais em White Sands, e informações sobre as pegadas estão na página do NPS sobre as pegadas fossilizadas.
Com informações de Universidade do Arizona, USGS e National Park Service.
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