
Algumas pecinhas de pedra misturadas a lascas descartadas num abrigo de rocha no Uzbequistão podem mudar uma parte importante da história humana. Pesquisadores identificaram ali pontas triangulares minúsculas, com cerca de 80 mil anos, que têm o tamanho de pontas de flecha e marcas de terem sido disparadas. O estudo foi publicado na revista científica PLOS One.
O abrigo de Obi-Rakhmat
O sítio de Obi-Rakhmat foi descoberto em 1962, a 1.250 metros de altitude, na ponta da cordilheira de Tien Shan, na Ásia Central. As últimas escavações foram lideradas pelo arqueólogo Andrei Krivoshapkin. As camadas de ocupação somam mais de 10 metros e cobrem de cerca de 80 mil a 40 mil anos atrás.
No abrigo também foram encontrados dentes e fragmentos do crânio de uma criança, de cerca de 70 mil anos, com algumas características de neandertal e outras de humano moderno, uma mistura que pode ser resultado de cruzamento entre os dois grupos.
Como saber que eram flechas
A equipe internacional identificou as pontas pelas marcas de impacto, vistas a olho nu e ao microscópio, e as comparou com peças de experimentos feitos para isso. As pontas têm menos de 2 centímetros de largura e pesam poucos gramas. Frágeis e pequenas demais, não serviriam numa lança pesada.
A largura da parte cortante corresponde à espessura de hastes de flecha usadas com arcos leves, documentadas entre povos caçadores. A explicação é física. Uma lança arremessada pela mão depende do peso para perfurar. Já uma flecha leve depende da velocidade e da ponta afiada, e essa velocidade só é alcançada com um instrumento, como o arco.
Não foi falta de matéria-prima. No mesmo conjunto há pontas muito mais robustas, de 15 a 20 vezes mais pesadas, do tamanho de pontas de lança, também com marcas de uso. Ou seja, os caçadores tinham armas diferentes para usos diferentes.
A ligação com a Europa
As pontas de Obi-Rakhmat são diretamente comparáveis às que o Homo sapiens produziu cerca de 25 mil anos depois, no vale do rio Ródano, na França, durante uma incursão em território neandertal. Essa semelhança dá força a uma hipótese levantada em 2023 pelo arqueólogo Ludovic Slimak: a de que os humanos modernos que chegaram à Europa podem ter vindo pela Ásia Central, e não só pelo Oriente Médio.
Uma história que muda
Os modelos sobre a pré-história nasceram na Europa Ocidental, sobretudo na França, no século 19, e por muito tempo tinham uma visão linear e centrada na Europa. Só um século depois a origem africana do Homo sapiens foi reconhecida. Hoje se sabe que os humanos modernos chegaram à Austrália há cerca de 65 mil anos, antes da Europa, e a rota da colonização da Eurásia ocidental, há mais de 45 mil anos, ainda é discutida. A Ásia Central, que funcionou ora como corredor, ora como refúgio, entra cada vez mais nessa história.
Perguntas frequentes
Quando o arco e flecha foi inventado?
Não há data exata. Achados como o de Obi-Rakhmat sugerem que armas de projétil leve podem ter dezenas de milhares de anos.
Onde fica Obi-Rakhmat?
No Uzbequistão, na Ásia Central, na cordilheira de Tien Shan.
Com informações do estudo publicado na PLOS One.
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