
Achado ocorreu na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, durante o primeiro ano de uma pesquisa que reúne comunidades e instituições científicas.
As marcas encontradas na Cabeça do Cachorro
Em uma área distante dos olhos não indígenas, na região conhecida como Cabeça do Cachorro, no extremo noroeste do Amazonas, pesquisadores identificaram pinturas rupestres na Terra Indígena Alto Rio Negro. O registro é considerado inédito pela arqueologia para esse trecho brasileiro da bacia amazônica e amplia o conjunto de evidências sobre a permanência milenar de povos originários na floresta. As pinturas foram localizadas em território habitado por povos Baniwa e Koripako, em um contexto no qual as marcas deixadas nas rochas se relacionam a histórias, lugares sagrados e conhecimentos transmitidos entre gerações.
A identificação ocorreu durante o primeiro ano do projeto intercultural Vozes da Amazônia Indígena, coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O trabalho reúne aproximadamente 100 pessoas indígenas e não indígenas, ligadas a comunidades tradicionais e a mais de 20 instituições científicas. Uma amostra das imagens foi documentada em fotografia e também processada com D-Stretch, recurso usado para realçar diferenças de cor e contraste que podem ajudar na leitura de pinturas rupestres.
Três expedições construíram o caminho até o achado
O Projeto Vozes começou em fevereiro de 2025 e organizou, no primeiro ano de pesquisa na Terra Indígena Alto Rio Negro, três viagens de campo. As expedições ocorreram em fevereiro, agosto e outubro daquele ano. Mais do que deslocamentos para procurar vestígios, as viagens foram planejadas como espaços de diálogo intercultural, nos quais pesquisadores das instituições e indígenas dos territórios trocaram saberes, definiram atividades e organizaram novas ações de campo.
Foi nesse processo de trabalho conjunto que o sítio arqueológico com as pinturas passou a integrar os resultados da pesquisa. A descoberta não aparece isolada de outras frentes do projeto, que também envolvem inventários biológicos, descrição de espécies, documentação de práticas culturais, geoprocessamento e levantamentos com Light Detection and Ranging, conhecido como Lidar. A combinação dessas áreas permite observar o território por diferentes perspectivas, reunindo informações sobre biodiversidade, ocupação humana, memória e características da paisagem amazônica.
Uma descoberta arqueológica ligada ao território vivo
Para os arqueólogos envolvidos, as pinturas ajudam a documentar a biodiversidade amazônica e as relações construídas por povos indígenas do presente e do passado com o ambiente. A arte rupestre, nesse caso, não é tratada apenas como uma imagem preservada em uma superfície rochosa. Ela integra um território ocupado, narrado e interpretado por comunidades que reconhecem nos lugares sagrados ancestrais uma parte de suas próprias histórias.
Os primeiros resultados também são vistos pelos participantes indígenas como uma oportunidade de fortalecer a conexão entre o território, os relatos dos antepassados e as marcas deixadas nesses locais. Essa leitura amplia o sentido do achado. As pinturas são evidências arqueológicas, mas também fazem parte de uma paisagem cultural que permanece relacionada à vida e aos conhecimentos dos povos Baniwa e Koripako. A pesquisa, portanto, aproxima a documentação científica das formas indígenas de compreender o espaço e a continuidade da ocupação amazônica.
Acesso protegido e pesquisa em três territórios
Por decisão dos indígenas da Terra Indígena Alto Rio Negro, o acesso ao sítio arqueológico está restrito aos participantes da pesquisa intercultural. A medida considera o valor científico e cultural do local e impede que a divulgação transforme uma área de importância ancestral em destino de visitação sem controle. Também reforça que o estudo ocorre em diálogo com as comunidades, e não apenas sobre elas ou à margem de suas decisões.
O projeto segue ainda em outros dois territórios. Na Terra Indígena Kaiapó, no Pará, foi realizada a primeira expedição neste ano. Na Terra Indígena do Xingu, em Mato Grosso, a equipe dá continuidade a décadas de pesquisas desenvolvidas com o povo Kuikuro. No Alto Rio Negro, a identificação das pinturas abre uma nova frente para compreender a ocupação indígena e a sociobiodiversidade da região. Como o resultado corresponde ao primeiro ano do projeto, a importância do sítio está tanto nas imagens registradas quanto nas perguntas que o trabalho intercultural poderá aprofundar. A floresta guarda marcas humanas, mas seu significado se torna mais completo quando a pesquisa respeita quem mantém a memória desses lugares.
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