Reflorestamento e fauna: lavoura inglesa virou mata de 101 mil árvores

Reflorestamento e fauna: lavoura inglesa virou mata de 101 mil árvores
Foto: David Martin, Geograph / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0

Uma lavoura inglesa de 157 acres, cerca de 63,5 hectares, virou floresta e, segundo o site oficial de Brian May, passou a abrigar insetos, aves, flores silvestres e pequenos mamíferos que não estavam ali nos anos em que a terra produzia cultivos. O plantio de 101 mil árvores e arbustos em Bere Regis, no condado de Dorset, no sul da Inglaterra, começou em 28 de setembro de 2013, e o balanço de dez anos saiu em 28 de setembro de 2023.

O guitarrista do Queen é o dono da terra e o ponto de partida da história, mas o que importa é a floresta: um plantio sobre solo agrícola e uma fauna que, pelos registros do projeto, respondeu.

Da lavoura ao bosque: o que foi plantado

Antes das árvores, o terreno ao sul da vila de Bere Regis era agrícola. No comunicado de 24 de setembro de 2013, o projeto Save Me, instituição de proteção animal criada por May, descreveu a obra como a transformação gradual de terra de agricultura intensiva em bosque e reserva de vida silvestre. Seriam oito campos, plantados e manejados pela empresa UPM Tilhill, com mais de 100 mil árvores e arbustos ao longo de 12 meses.

No evento comunitário, cerca de 600 mudas, a maioria de carvalho, com 20 centímetros e raízes protegidas por um tampão de turfa, foram plantadas por moradores e crianças. O grosso do trabalho ficou para depois de 1º de janeiro de 2014, quando o ciclo agrícola terminou por completo. O plano previa carvalho, faia, tília, cerejeira-brava e nogueira, entre outras, e uma borda de arbustos como viburno, aveleira, espinheiro e evônimo, com áreas mantidas para flores silvestres.

Em setembro de 2022, o site listava bétula, bordo-campestre, sabugueiro, salgueiro, amieiro e teixo entre as espécies presentes, além de mato natural e prados de flores. O primeiro carvalho, plantado por May, já tinha bolotas.

A fauna que voltou, segundo o projeto

Os relatos vêm da fotógrafa Linda Lamon, que acompanha a mata desde o primeiro dia. Em 2021, as imagens mostravam abelhas, joaninhas, borboletas, grilos e aves. Em 2022, apareceram a borboleta meadow brown pousada em centáurea e a pequena ave goldcrest. Em 2023, Lamon contou que a flor silene (bladder campion) reapareceu sozinha, ao lado de grandes manchas de centáurea e margaridas, e que borboletas e abelhas aproveitavam.

O texto de dez anos atribui a mudança às árvores, às faixas de flores e aos caminhos ricos em trevo.

O registro, porém, é qualitativo. O site do projeto não divulga contagem de espécies nem compara a fauna atual com a da época da lavoura. O ganho está descrito, não medido nos documentos do projeto.

O que a ciência diz sobre plantar floresta em terra de cultivo

A pesquisa mais ampla aponta na mesma direção, com ressalvas. Uma meta-análise de 89 avaliações de restauração ecológica em ecossistemas de vários continentes, publicada na revista Science por José Rey Benayas e colegas (DOI 10.1126/science.1172460), concluiu que restaurar aumentou a biodiversidade em 44% e os serviços ecossistêmicos em 25%. Mas os valores continuaram abaixo dos de ecossistemas intactos usados como referência.

Nos trópicos americanos, o estudo de Danaë Rozendaal e colegas na Science Advances (DOI 10.1126/sciadv.aau3114) analisou 56 áreas em 10 países, com 1.630 parcelas e mais de 183 mil árvores medidas, incluindo locais na Amazônia. Em 20 anos de regeneração, a floresta recuperou em média 80% da riqueza de espécies de árvores de uma mata antiga, e a recuperação completa levou uma mediana de 54 anos. A composição de espécies, porém, recuperou só 34% em 20 anos, e voltar ao original leva séculos.

A ressalva importa: o estudo trata de mata que regenera sozinha nos trópicos, não de plantio na Inglaterra. Serve de régua para uma ideia comum aos dois casos, a de que a floresta jovem recupera rápido a variedade, mas demora muito a recuperar a identidade.

A ponte com a restauração na Amazônia

No Brasil, o Decreto nº 8.972, de 23 de janeiro de 2017, que instituiu a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, fixa como objetivo impulsionar a regularização ambiental de propriedades rurais em, no mínimo, 12 milhões de hectares até 31 de dezembro de 2030. A meta é nacional, não só amazônica, e o texto reconhece caminhos diferentes para chegar lá.

O decreto define reflorestamento como o plantio de espécies florestais para formar estrutura de floresta em área desmatada ou degradada, e regeneração natural como o processo em que espécies nativas se estabelecem sem intervenção humana deliberada. O May’s Wood está no primeiro grupo. O estudo de Rozendaal, no segundo. A pergunta que os dois deixam para a Amazônia é a mesma: quanto tempo, e com que variedade, a fauna volta.

Entenda

Reflorestamento é plantar árvores onde havia floresta. Regeneração natural é deixar a mata voltar sozinha. Riqueza de espécies é o número de espécies presentes; composição é quais espécies são. Corredor ecológico é uma faixa de habitat que liga áreas isoladas, e é como May descreveu o objetivo de longo prazo da mata, em 2013.

Perguntas frequentes

Quantas árvores tem o May’s Wood?

O site oficial de Brian May fala em 101 mil árvores e arbustos numa área de 157 acres, cerca de 63,5 hectares, plantados a partir de 28 de setembro de 2013 em Bere Regis, Dorset.

A volta da fauna foi comprovada por estudo científico?

Nos documentos do projeto, a fauna é descrita por relatos e fotografias, sem contagem de espécies. Não há ali um levantamento comparando o antes e o depois.

Plantar floresta em terra agrícola aumenta a biodiversidade?

Em média, sim. A meta-análise publicada na Science em 2009 achou aumento de 44% na biodiversidade, mas ainda abaixo da de áreas intactas.

Qual é a meta brasileira de recuperação de vegetação nativa?

O Decreto nº 8.972, de 2017, fala em no mínimo 12 milhões de hectares em regularização ambiental de propriedades rurais até 31 de dezembro de 2030.

O que observar a seguir

O site oficial de Brian May publica um balanço a cada 28 de setembro, aniversário do plantio, e é nele que se pode conferir se a mata ganha medições além das fotografias. O dado que falta é o mais simples: quantas espécies havia na lavoura e quantas há hoje.

Com informações de brianmay.com (site oficial), Save Me Trust, UPM Tilhill, revista Science, revista Science Advances e Presidência da República.

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