
Um fóssil guardado no Museu de Ciências Naturais de Barcelona há mais de um século ainda tinha segredos. Sob luz ultravioleta, um pequeno parente dos crocodilos que viveu há cerca de 125 milhões de anos revelou detalhes da pele, de estruturas de respiração e até um possível padrão de cores na cauda.
O estudo, liderado pelo Instituto Catalão de Paleontologia Miquel Crusafont, foi publicado na revista científica Zoological Journal of the Linnean Society.
Um crocodilo num lago antigo
O animal, da espécie Montsecosuchus depereti, morreu num lago perto da costa do que hoje são os Pré-Pirineus catalães, na Espanha. O corpo afundou em sedimentos finos que, em condições muito favoráveis, o preservaram com detalhes excepcionais. Com o tempo, esses sedimentos viraram calcários litográficos, as rochas da Pedreira de Meià, hoje parte de um geoparque mundial da Unesco.
O fóssil tem cerca de 50 centímetros de comprimento. Foi descoberto há mais de cem anos e estudado nos anos 1990, mas guardava informações escondidas.
O que a luz revelou
Os paleontólogos Oscar Castillo e Jesús Serrano montavam um banco de dados de fósseis dos calcários de Montsec em museus da Catalunha e da Europa quando examinaram o exemplar sob luz ultravioleta e notaram estruturas que pareciam restos de tecido mole. A luz UV faz o tecido fossilizado e a rocha reagirem de forma diferente, destacando o que é invisível a olho nu.
A equipe documentou escamas da pele, que variavam muito de forma e tamanho em diferentes partes do corpo. O animal não tinha a crista alta na cauda vista em crocodilos modernos. Estruturas sensoriais apareciam só em pequenas escamas nas bordas do corpo, o que sugere que esses órgãos surgiram primeiro em áreas localizadas e depois se espalharam pela pele nas linhagens posteriores.
A luz também revelou cartilagens no peito, sinal de que o animal já tinha um sistema respiratório eficiente, parecido em alguns aspectos com o dos crocodilos atuais. Segundo Castillo-Visa, primeiro autor, apesar de primitivo, ele já estava bem adaptado a uma vida semiaquática.
Listras para se esconder
A descoberta mais marcante está na cauda. Algumas escamas mostram faixas alternadas claras e escuras. Os pesquisadores interpretam o padrão como possível vestígio da coloração original, que pode ter servido de camuflagem disruptiva, quebrando o contorno do corpo e dificultando que o animal fosse visto. Se a interpretação se confirmar, o Montsecosuchus será o crocodilomorfo mais antigo com evidência preservada de cor.
Ainda não dá para saber quais eram as cores. Para o coautor Albert G. Sellés, é provável que não fossem muito diferentes das de espécies atuais, que também têm padrões variados.
Jacarés brasileiros também têm listras
Muitos crocodilianos atuais têm faixas escuras na cauda, sobretudo quando jovens. No Brasil, filhotes de jacaré-do-pantanal e de jacaré-açu exibem faixas que ajudam a se esconder na vegetação das margens. O fóssil catalão sugere que esse truque é antigo.
Perguntas frequentes
Dá para saber a cor de um animal extinto?
Às vezes. Pigmentos ou padrões preservados na pele fossilizada, revelados por técnicas como a luz ultravioleta, dão pistas.
Os crocodilos existiam com os dinossauros?
Sim. Parentes dos crocodilos conviveram com os dinossauros e sobreviveram à extinção de 66 milhões de anos atrás.
Com informações do Instituto Catalão de Paleontologia Miquel Crusafont e do estudo publicado no Zoological Journal of the Linnean Society.
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