Após dois anos, estudo mapeia cheias de 2024, identifica 11 causas raiz e 20 pressões dinâmicas e propõe cidades mais resilientes

Após dois anos, estudo mapeia cheias de 2024, identifica 11 causas raiz e 20 pressões dinâmicas e propõe cidades mais resilientes
Ilustração: Revista Amazônia

Diagnóstico do WRI Brasil com pesquisadores de universidades gaúchas relaciona o extremo climático a decisões históricas, desigualdades e falhas de governança

O extremo climático encontrou um risco construído ao longo do tempo

As cheias que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 não são explicadas apenas pelo volume excepcional de chuva. Dois anos depois do desastre, um estudo mapeou a sequência de fatores que transformou o evento climático extremo em uma emergência de grandes proporções. O diagnóstico identificou 11 causas raiz, relacionadas a 20 pressões dinâmicas que produziram condições inseguras em diferentes áreas afetadas.

O trabalho, divulgado em 7 de maio de 2026, foi desenvolvido pelo World Resources Institute Brasil, o WRI Brasil, com a participação de pesquisadores de universidades gaúchas. O documento recebeu o título Entendendo a Construção do Risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul. A proposta foi compreender as fragilidades que culminaram no desastre e discutir decisões e políticas capazes de prevenir ocorrências futuras, além de apoiar um desenvolvimento mais resiliente.

O diagnóstico reorganiza a explicação sobre as cheias

O estudo analisou os eventos gatilho, as condições inseguras, as causas raiz e as pressões dinâmicas que compuseram a cadeia de produção do risco. Nesse modelo, o extremo climático aparece como o gatilho do desastre, mas seus impactos foram ampliados por fatores sociais, econômicos e institucionais acumulados. A leitura desloca o foco de um único episódio de chuva para o processo histórico que deixou pessoas, territórios e serviços mais expostos.

Segundo Lara Caccia, coordenadora de Adaptação Urbana do WRI Brasil, o estudo dimensionou um desastre provocado por um extremo climático, mas resultante também de um processo histórico de construção do risco. Henrique Evers, um dos autores, afirma que o objetivo foi entender as fragilidades envolvidas e propor uma discussão sobre decisões e políticas voltadas à prevenção. As declarações mostram que a análise combina o fenômeno natural com as escolhas que organizam o território e a gestão pública.

Onze causas raiz se relacionam com vinte pressões dinâmicas

As 11 causas raiz foram classificadas em quatro categorias e se relacionam com 20 pressões dinâmicas. Entre os elementos destacados estão as condições geomorfológicas e hidrológicas favoráveis ao desastre, um modelo de desenvolvimento que prioriza a economia sobre pautas ambientais e sociais e a insuficiência da governança para lidar com a questão climática entre diferentes níveis de gestão.

Na prática, uma causa raiz como o modelo de ocupação territorial pouco resiliente pode gerar pressões dinâmicas como expansão urbana descontrolada, especulação imobiliária e desigualdades socioespaciais. Esses fatores não funcionam isoladamente. Eles se combinam, produzem condições inseguras e ampliam a vulnerabilidade quando o território é atingido por chuvas intensas. O relatório afirma que parte dessas dinâmicas também aparece em outros cenários de desastres climáticos.

O risco atravessa municípios e exige decisões articuladas

Um dos pontos destacados pelos pesquisadores é a presença de muitos desses riscos em todos os municípios afetados. Essa característica reforça a necessidade de articulação e integração que ultrapassem as capacidades de cada prefeitura. O planejamento de prevenção, segundo o diagnóstico, precisa considerar relações territoriais mais amplas e instâncias que possam atuar em escala regional, como estruturas associadas às bacias hidrográficas.

A recomendação amplia a responsabilidade sobre a redução do risco. Ações isoladas podem não alcançar fatores que atravessam vários municípios, níveis de governo e áreas de planejamento. Por isso, o documento defende uma governança capaz de integrar decisões, políticas e informações. A questão climática, nesse contexto, deixa de ser apenas uma tarefa de resposta emergencial e passa a exigir coordenação contínua entre instituições e territórios relacionados pela água.

Resiliência depende de infraestrutura e de novas escolhas

A partir do mapeamento, os pesquisadores concluíram que cidades mais resilientes dependem de mais do que investimentos em infraestrutura. O estudo aponta a necessidade de fortalecer a governança em diferentes níveis de governo, integrar o planejamento, consolidar uma cultura de prevenção e priorizar grupos vulnerabilizados. Essas frentes procuram reduzir tanto a exposição quanto a vulnerabilidade das populações diante de eventos extremos.

A análise também apresenta uma possibilidade de mudança baseada na própria origem do problema. Se o risco foi construído historicamente por decisões de desenvolvimento, ocupação e gestão, novas escolhas podem contribuir para construir resiliência. A afirmação de Lara Caccia resume o sentido do diagnóstico: compreender a cadeia que produziu o desastre é uma forma de discutir como interrompê-la. A prevenção, assim, começa antes da próxima cheia, nas decisões que definem onde e como as cidades crescem.

Com informações da Agência Brasil.

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