Estudo mapeia 77 milhões de hectares de áreas úmidas na Amazônia equivalentes a 18% do bioma e mostra que quase metade fica fora da proteção legal

Estudo mapeia 77 milhões de hectares de áreas úmidas na Amazônia equivalentes a 18% do bioma e mostra que quase metade fica fora da proteção legal
Ilustração: Revista Amazônia

Nova metodologia reuniu imagens de satélite, mapas existentes e o inventário nacional para classificar ecossistemas costeiros, interiores e antropogênicos.

Um mapa revela a dimensão das áreas úmidas

Uma nova representação da Amazônia mostra que 77 milhões de hectares do bioma são formados por áreas úmidas, extensão equivalente a 18% de toda a região estudada. O número reúne ecossistemas que ficam na interface entre ambientes terrestres e aquáticos, uma condição que faz da presença, da circulação e da permanência da água o elemento central de seu funcionamento. A classificação inclui desde ambientes costeiros, como manguezais, até formações interiores, como florestas de igapó e de várzea. Também entram na categoria áreas criadas ou modificadas pela ação humana, como açudes e lagoas artificiais.

O levantamento foi apresentado em 28 de janeiro de 2026 no trabalho intitulado Desafios e oportunidades para a proteção, conservação e manejo de áreas úmidas do bioma Amazônia. A pesquisa foi realizada com participação de especialistas do Imazon, do ICMBio, do ISA e do EcoSaMa. Mais do que indicar uma área extensa no mapa, o estudo organiza ambientes com diferentes características de vegetação, hidrologia e biodiversidade dentro de uma mesma abordagem. Essa organização permite observar a presença das áreas úmidas em escala regional e relacioná-la a decisões de conservação, manejo e formulação de políticas públicas.

Satélites combinaram imagens e classificações

Para chegar ao resultado, os pesquisadores criaram uma metodologia de mapeamento por imagens de satélite. O procedimento combinou dados de sensores remotos, mapas já publicados e informações do inventário nacional de áreas úmidas. A combinação é importante porque cada fonte contribui para reconhecer uma parte do território e de suas características. As imagens de satélite permitem observar grandes extensões, enquanto mapas e inventários organizam informações produzidas anteriormente. O resultado foi um mapa capaz de reunir os diferentes tipos de áreas úmidas presentes no bioma, em vez de tratar esses ambientes como uma categoria única e uniforme.

Outro avanço do trabalho foi adaptar a classificação regional ao sistema nacional de classificação de áreas úmidas. Essa compatibilização cria uma linguagem comum para descrever os ecossistemas e pode facilitar a transformação do conhecimento científico em políticas públicas. Manguezais, igapós, várzeas, açudes e lagoas artificiais não têm a mesma vegetação, a mesma dinâmica hidrológica ou a mesma relação com as comunidades. Ainda assim, todos dependem da interação entre água e terra. Ao organizar essas diferenças dentro de um sistema nacional, o estudo fornece uma base para identificar prioridades de proteção, conservação e manejo sem apagar a diversidade dos ambientes mapeados.

Água sustenta biodiversidade e comunidades

As áreas úmidas naturais exercem funções associadas à regulação climática, à manutenção da biodiversidade e à purificação dos recursos hídricos. A água que atravessa esses ambientes se relaciona com a vegetação, o solo e os organismos que vivem ali, formando sistemas dos quais dependem espécies e comunidades. O estudo também destaca a relevância das áreas úmidas para aves migratórias e peixes. Essa importância ecológica se soma ao papel local desempenhado na qualidade de vida de povos e comunidades tradicionais, que mantêm relações diretas com os recursos oferecidos por rios, lagos, várzeas, igapós e outros ambientes sujeitos à presença periódica ou permanente da água.

A relevância desses ecossistemas ultrapassa a escala amazônica. A proteção internacional das áreas úmidas estimulou a criação da Convenção de Ramsar, tratado do qual o Brasil é signatário. No território brasileiro, o reconhecimento de um ambiente como área úmida ajuda a evidenciar que sua conservação não depende apenas da cobertura vegetal visível. A dinâmica da água também precisa ser considerada, assim como a conectividade entre ambientes terrestres e aquáticos. Uma floresta de igapó ou de várzea, por exemplo, não pode ser analisada apenas como uma formação florestal isolada, porque sua identidade ecológica está ligada à relação com a água. O mapeamento amplia essa leitura para dezenas de milhões de hectares.

Ecossistemas dependentes da água enfrentam pressões

Por dependerem diretamente da água, as áreas úmidas estão entre os ecossistemas amazônicos mais vulneráveis às mudanças climáticas. O estudo relaciona essa vulnerabilidade a pressões como desmatamento, represamento dos rios, expansão urbana e mineração. Essas intervenções podem modificar a quantidade, o caminho ou o tempo de permanência da água nos ambientes. Quando a dinâmica hídrica muda, também podem mudar as condições que sustentam a vegetação, os peixes, as aves migratórias e outras formas de vida associadas a esses ecossistemas. No caso das áreas úmidas costeiras, o aquecimento global e a elevação do nível do mar podem levar ao desaparecimento de ambientes. Nas áreas interiores, secas extremas frequentes podem empurrar os sistemas para pontos de não retorno.

O pesquisador Carlos Souza Jr., do Imazon, afirma que uma das hipóteses avaliadas é a possibilidade de as áreas úmidas funcionarem como um primeiro sinal de pontos de não retorno na Amazônia. A formulação é apresentada como hipótese, não como resultado definitivo do estudo. A ideia é que alterações nesses ecossistemas possam indicar a aproximação de um limiar de risco elevado para o bioma. Essa possibilidade torna o monitoramento das áreas úmidas uma tarefa que vai além do inventário territorial. Observar a condição desses ambientes pode ajudar a acompanhar mudanças na relação entre água, vegetação e biodiversidade. O alerta também reforça que a proteção precisa considerar tanto os ambientes costeiros quanto os interiores.

Quase metade permanece fora de territórios protegidos

O mapa também expõe uma diferença entre a importância ecológica das áreas úmidas e sua cobertura por territórios legalmente protegidos. Conforme o estudo, 53,7% dos ecossistemas mapeados na Amazônia estão sob algum nível de proteção. Isso significa que quase metade permanece fora dessas áreas. A parcela protegida inclui 21,3% em Unidades de Conservação, 15,4% em terras Indígenas, 3% em Sítios Ramsar e 14% em áreas protegidas sobrepostas. Os percentuais mostram que a proteção existente se distribui por instrumentos diferentes, com funções e regimes próprios, e que a presença em uma categoria não elimina a necessidade de compreender as demais relações territoriais.

A consequência apresentada pelo levantamento é direta: conhecer a localização e o tipo de cada área úmida é uma etapa necessária para ampliar a conservação. Sem essa identificação, manguezais, igapós, várzeas, açudes e lagoas artificiais podem ser tratados como partes indistintas da paisagem, apesar de responderem de maneiras diferentes às mudanças na água e às pressões humanas. O trabalho reúne uma dimensão territorial expressiva, 77 milhões de hectares, com um alerta de proteção: somente pouco mais da metade está sob algum nível legal reconhecido. Divulgar esse quadro em 28 de janeiro de 2026 coloca as áreas úmidas no centro do planejamento amazônico e mostra que proteger a floresta também exige proteger os ambientes que fazem a terra funcionar em conjunto com a água.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA