
Análise de dez anos em mais de 3 milhões de hectares indica que proteger florestas remanescentes oferece maior retorno por recurso investido, mas a combinação com restauração é a estratégia mais completa.
Uma floresta pode continuar aparecendo nas imagens de satélite e, ainda assim, já ter perdido parte importante de sua biodiversidade e de seu carbono. É o que ocorre quando incêndios e extração de madeira degradam a mata sem derrubá-la completamente. Um estudo publicado na revista Science mostra que impedir esses danos teria produzido mais benefícios por recurso investido do que restaurar, de forma isolada, áreas já convertidas.
A pesquisa comparou três estratégias de conservação em duas regiões da fronteira agrícola amazônica no Pará, Paragominas e Santarém. A primeira buscava conter o desmatamento. A segunda pretendia evitar incêndios e a retirada de madeira. A terceira previa restaurar a vegetação para atender ao Código Florestal. O cenário com melhor desempenho geral, porém, foi aquele que combinou proteção das florestas remanescentes e restauração das áreas degradadas.
O estudo acompanhou dez anos de mudanças na Amazônia
A análise reconstruiu o que aconteceu entre 2010 e 2020 em uma área que soma mais de 3 milhões de hectares. Para isso, os pesquisadores reuniram dados de biodiversidade coletados em 381 áreas de amostragem, distribuídas por 38 microbacias. Também utilizaram entrevistas realizadas em 499 propriedades rurais e imagens de satélite de alta resolução.
Com essa base, o grupo simulou diferentes cenários. A comparação permitiu estimar quanto de biodiversidade e de carbono poderia ter sido preservado se cada estratégia tivesse sido aplicada sozinha ou em conjunto. O estudo foi realizado por 19 pesquisadores de instituições brasileiras e estrangeiras, incluindo a Rede Amazônia Sustentável, a Universidade de Lancaster, a Embrapa Amazônia Oriental, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a Esalq da Universidade de São Paulo e o Museu Paraense Emílio Goeldi.
Evitar incêndios e extração teria protegido a maior parcela da biodiversidade
Os resultados indicam que impedir incêndios e extração de madeira teria mitigado 68% das perdas de biodiversidade observadas no período. A mesma estratégia teria evitado 47% das perdas de carbono. O desempenho é explicado pelo fato de que a floresta degradada ainda pode manter parte de sua cobertura, mas perde árvores, animais, estruturas de habitat e capacidade de armazenar carbono quando sofre fogo ou exploração madeireira.
Conter diretamente o desmatamento teria evitado 28% das perdas de biodiversidade e 61% das perdas de carbono. A diferença entre os indicadores mostra que cada ameaça afeta os ecossistemas de maneira distinta. A derrubada elimina a cobertura florestal de forma mais evidente, enquanto fogo e extração podem alterar a composição e o funcionamento da mata mesmo quando as imagens ainda registram uma área como floresta.
A restauração isolada compensaria apenas uma parte das perdas
Quando considerada sozinha, a restauração compensaria apenas 6% das perdas de biodiversidade e 15% das perdas de carbono registradas nas regiões analisadas. Isso não significa que recuperar áreas abertas seja inútil. A restauração pode reconstruir parte da cobertura vegetal, criar novos ambientes e ampliar a conexão entre fragmentos, mas seus resultados dependem do controle das pressões que continuam atingindo as florestas próximas.
Os dados da própria área de estudo ajudam a dimensionar esse limite. Entre 2010 e 2020, foram registrados 159 mil hectares de desmatamento e 274 mil hectares de florestas primárias atingidas por fogo ou extração de madeira. Outros 130 mil hectares passaram por regeneração, mas 63% dessas florestas secundárias voltaram a ser afetadas pelo fogo. A sequência mostra por que recuperar a vegetação sem reduzir novas agressões pode produzir ganhos parciais e vulneráveis.
O estudo desloca o foco da cobertura para a qualidade da floresta
Para Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster e autor sênior da pesquisa, a permanência de árvores nas imagens não é suficiente para definir uma floresta como protegida. Incêndios, exploração de madeira e efeitos de borda podem remover biodiversidade e carbono sem que toda a cobertura desapareça. Na avaliação apresentada pelo estudo, a degradação precisa ocupar posição central nas políticas de conservação.
Esse ponto também muda a forma de avaliar o custo-benefício das ações. Uma política concentrada apenas em plantar ou favorecer a regeneração depois da conversão pode deixar sem proteção as florestas que ainda existem, inclusive aquelas afetadas por danos menos visíveis. A proteção contra desmatamento, fogo e extração atua sobre perdas que ainda podem ser evitadas, enquanto a restauração tenta recuperar funções ecológicas depois que elas já foram comprometidas.
Proteção e restauração funcionam melhor quando são combinadas
A pesquisa não apresenta a restauração como estratégia a ser abandonada. O resultado mais amplo favorece a combinação entre conservar florestas remanescentes e recuperar áreas degradadas. Proteger reduz a velocidade das perdas atuais, enquanto restaurar amplia a cobertura vegetal onde a conversão já ocorreu. Juntas, as medidas respondem a momentos diferentes do mesmo processo de transformação da paisagem.
A ordem das prioridades, porém, tem impacto sobre os recursos disponíveis. Se o investimento é direcionado somente à restauração, áreas em regeneração podem voltar a queimar, como ocorreu com 63% das florestas secundárias identificadas no estudo. A proteção das matas existentes não elimina a necessidade de recuperar áreas abertas, mas evita que o esforço de recuperação seja acompanhado por novas perdas de biodiversidade e carbono.
Paragominas e Santarém revelam um desafio para a conservação amazônica
As duas regiões paraenses analisadas reúnem atividades agrícolas, fragmentos de floresta, áreas em regeneração e diferentes níveis de degradação. O recorte não representa toda a Amazônia, mas permite observar, com dados de campo, propriedades rurais e satélites, como as estratégias produzem resultados diferentes em uma fronteira de ocupação. A comparação também aproxima o debate nacional de situações concretas enfrentadas por paisagens amazônicas.
Divulgado em 20 de setembro de 2026, o estudo reforça uma escolha prática para a conservação: impedir que uma floresta seja destruída ou degradada tende a preservar mais benefícios por recurso investido do que tentar reconstruí-la depois. A restauração continua necessária onde a mata já foi perdida, mas a proteção das florestas que permanecem de pé pode ser o ponto que decide se o esforço de recuperação terá tempo para amadurecer ou será interrompido pelo próximo incêndio.
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