
Estudos da USP usam a fenômica para comparar a anatomia de abelhas atuais e fósseis e ampliar a história evolutiva revelada pelo DNA.
A anatomia entra na história evolutiva
Ao observar uma abelha, o DNA não é a única fonte capaz de contar sua história. As formas do corpo, as estruturas internas e as diferenças preservadas entre espécies também registram mudanças acumuladas ao longo da evolução. Foi a partir dessa perspectiva que pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP compararam centenas de características morfológicas de abelhas atuais e fósseis.
Os trabalhos foram conduzidos no Laboratório de Biologia Comparada e Abelhas, coordenado pelo professor Eduardo Almeida, e publicados em 19 de agosto de 2026. A abordagem recebe o nome de fenômica, termo usado para o estudo sistemático do conjunto de características observáveis de um organismo. Em vez de substituir a análise genética, ela amplia a investigação ao mostrar como as estruturas se modificaram e contribuíram para a diversidade encontrada entre as abelhas.
Do parentesco às mudanças do corpo
O sequenciamento de DNA se tornou uma das principais ferramentas para reconstruir relações de parentesco entre espécies. Ele ajuda a indicar quais linhagens são mais próximas e como se relacionam na árvore evolutiva. A anatomia responde a outra parte da questão, ao registrar as mudanças que ocorreram nessas linhagens ao longo do tempo. Essa distinção orientou os dois estudos realizados pela equipe da USP.
“O DNA nos mostra quem é parente de quem. A anatomia mostra o que aconteceu nessa história”, resume Almeida. A comparação reuniu informações da anatomia externa e interna das abelhas e as analisou em um contexto filogenético, ou seja, levando em conta as relações de parentesco entre os grupos. Assim, uma estrutura não foi observada apenas como característica isolada, mas como parte de uma história evolutiva que pode ser comparada entre espécies vivas e fósseis.
Uma análise detalhada das abelhas sem ferrão
Um dos trabalhos se concentrou nas cerca de 650 espécies de abelhas sem ferrão, reunidas cientificamente na tribo Meliponini. Distribuído principalmente pelas regiões tropicais, esse grupo reúne linhagens próximas o suficiente para permitir uma análise detalhada de suas diferenças anatômicas. A equipe construiu uma matriz com 375 caracteres codificados de todos os gêneros e subgêneros de Meliponini.
A base também incluiu a caracterização das tribos extintas Melikertini, fortemente sustentada como grupo-irmão das abelhas sem ferrão, e de Proplebeia dominicana. Nesse recorte mais restrito, a proximidade evolutiva entre as linhagens permitiu observar detalhes anatômicos refinados. O resultado não se limita a organizar nomes em uma classificação, porque relaciona as características observadas à história de diversificação do grupo e incorpora abelhas que já desapareceram do registro atual.
Uma visão panorâmica de todas as abelhas
O segundo estudo ampliou a escala para as cerca de 21 mil espécies de abelhas conhecidas no planeta. Em vez de acompanhar principalmente diferenças entre linhagens próximas, a análise procurou identificar os grandes padrões evolutivos do grupo como um todo. Para isso, os pesquisadores reuniram 394 caracteres anatômicos, abrangendo estruturas externas e internas.
Do conjunto analisado, 11% dos caracteres eram totalmente novos e 68% haviam sido reinterpretados. A anatomia externa representou 73% da matriz, enquanto a interna correspondeu a 27%. Os números mostram o esforço de revisão e ampliação da base usada para comparar as abelhas, mas não significam que uma única característica explique toda a evolução do grupo. O valor está na combinação de muitos sinais anatômicos dentro de uma análise filogenética.
Do detalhe à escala da diversidade
Os dois trabalhos partiram da mesma pergunta, mas responderam a ela em escalas diferentes. O estudo das abelhas sem ferrão examinou um conjunto evolutivamente mais próximo e, por isso, pôde explorar diferenças anatômicas finas. A análise de todas as abelhas procurou enxergar a diversidade mais ampla e os padrões que atravessam o grupo. Um funciona como uma lente de detalhe; o outro, como uma visão panorâmica.
Essa diferença de escala também explica por que os resultados são complementares. A fenômica não transforma a anatomia em substituta do DNA, nem elimina a necessidade de comparar evidências distintas. Ela acrescenta uma camada de informação sobre a forma e a organização dos organismos, incluindo fósseis que ajudam a registrar linhagens extintas. A interpretação depende da qualidade dos caracteres escolhidos e da maneira como eles são relacionados na filogenia.
Uma base para novas perguntas
A base de dados construída pela equipe poderá ser usada em pesquisas futuras sobre evolução, classificação, comportamento social, adaptação, biogeografia e conservação. Esse alcance decorre do fato de que a matriz reúne caracteres comparáveis entre muitos grupos, permitindo que novas análises retomem os mesmos dados para testar outras relações e interpretações.
Para a biodiversidade brasileira, onde as abelhas sem ferrão têm presença importante nas regiões tropicais, compreender a história das linhagens ajuda a colocar a diversidade atual em perspectiva. A anatomia não oferece apenas uma imagem do corpo, assim como o DNA não oferece sozinho toda a narrativa evolutiva. Quando as duas formas de evidência são colocadas lado a lado, a evolução deixa de ser apenas uma árvore de parentesco e passa a incluir as mudanças que deram forma a cada ramo.
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