Darwin achou uma rocha vulcânica seca no meio do Atlântico; o plano que veio depois criou uma floresta de nuvens que existe até hoje

Darwin achou uma rocha vulcânica seca no meio do Atlântico; o plano que veio depois criou uma floresta de nuvens que existe até hoje
Imagem de satélite da Ilha de Ascensão, com o verde concentrado no topo da Green Mountain. Imagem: NASA Earth Observatory, domínio público.

No meio do Atlântico Sul, a mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira e a cerca de 1.600 quilômetros da África, existe uma ilha onde se sai de uma floresta encharcada e se chega a um deserto em dez minutos de caminhada. A Ilha de Ascensão é um dos raros lugares do planeta em que um ecossistema foi criado de propósito, e com registro detalhado de cada etapa.

No século 19, a ilha era uma rocha vulcânica castigada pelo sol, com pouca vegetação. Hoje, o topo da Green Mountain, o ponto mais alto, é coberto por uma floresta úmida, envolta em neblina na maior parte do tempo.

A passagem de Darwin e a ideia de Hooker

Charles Darwin passou por Ascensão em 1836, na volta da viagem do Beagle, e descreveu uma paisagem árida. Alguns anos depois, em 1843, o botânico Joseph Dalton Hooker, amigo de Darwin, também desembarcou na ilha, que funcionava como base naval britânica.

A partir das observações dos dois, surgiu um plano: aproveitar a umidade das nuvens que batiam no pico. Árvores e arbustos capturariam essa água, aumentariam a umidade do solo e, aos poucos, criariam condições para mais vida. Sementes e mudas passaram a ser enviadas dos jardins botânicos que o Império Britânico mantinha em suas colônias pelo mundo.

Cinco décadas de plantio

O trabalho durou cerca de 50 anos. O resultado transformou o pico, antes habitado por meia dúzia de espécies de pequenas samambaias, em uma floresta úmida tropical. A imagem de satélite mostra até hoje o contraste: um coração verde no alto da ilha, cercado de lava escura e terreno seco.

Para entender como isso aconteceu, uma equipe do Laboratório de Sistemas Complexos da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, formada pelo pesquisador Víctor Maull e pela pós-doutoranda Nastassia Knödlseder, passou um mês na ilha, em parceria com o departamento de conservação e o governo local.

Além do trabalho de campo, os pesquisadores consultaram documentos históricos guardados em arquivos nacionais britânicos: cartas náuticas, diários de bordo e cartas escritas à mão que explicam toda a engenharia do plantio, como as espécies foram escolhidas e em que ordem chegaram.

O que o solo pode contar

A equipe também vai analisar o microbioma do solo, o conjunto de bactérias e fungos que vive no chão e que os pesquisadores consideram a base de qualquer ecossistema. Como a transformação da ilha foi muito rápida, comparar o solo de diferentes regiões, da floresta ao deserto, pode revelar como os micróbios acompanham e sustentam a mudança. As análises serão feitas com o Instituto de Recursos Naturais e Agrobiologia de Sevilha.

Por que isso importa agora

Normalmente, os modelos de ecossistemas estudam o caminho da degradação: a floresta que vira campo, o campo que vira deserto. Ascensão oferece o processo inverso, documentado e intencional. Segundo Maull, a meta é construir modelos mínimos que expliquem a transição e verificar se ecossistemas em deterioração podem ter a tendência ao colapso revertida.

A mudança climática empurra cada vez mais regiões para a desertificação. Entender como uma ilha seca ganhou floresta pode ajudar a planejar restaurações em outras partes do mundo, inclusive em regiões semiáridas.

O outro lado da história

Criar uma floresta com plantas trazidas de vários continentes também teve custo. As espécies introduzidas ocuparam o espaço das poucas plantas nativas, algumas delas exclusivas de Ascensão. Hoje, a conservação da ilha precisa equilibrar duas coisas: proteger o que restou da flora original e manter a floresta artificial que virou parte da paisagem e do abastecimento de água.

Perguntas frequentes

Onde fica a Ilha de Ascensão?

No Atlântico Sul, perto da linha do Equador, entre a África e o Brasil. É um território ultramarino britânico.

A floresta da Green Mountain é natural?

Não. Foi plantada ao longo de cerca de 50 anos no século 19, com espécies trazidas de jardins botânicos de várias partes do mundo.

Com informações da Universidade Pompeu Fabra.

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