Placas minúsculas achadas ao lado de ossos de baleia revelam ofiuroides reunidos em torno de uma carcaça há 9,5 milhões de anos

Placas minúsculas achadas ao lado de ossos de baleia revelam ofiuroides reunidos em torno de uma carcaça há 9,5 milhões de anos
Foto: Karim Zanaty

Nova espécie descrita na Dinamarca pode ser o primeiro registro fóssil de ofiuroides associados a uma queda de baleia.

Três amostras de sedimento coletadas rente aos ossos de uma baleia fóssil na Dinamarca guardavam algo que nenhuma outra amostra da mesma camada tinha: placas esqueléticas de ofiuroides, parentes das estrelas-do-mar. A descoberta, feita por pesquisadores do Museum Sønderjylland, do Musée national d’histoire naturelle de Luxemburgo e do Dinosaurierpark Teufelsschlucht, na Alemanha, sugere que esses animais se reuniram em volta de uma carcaça há cerca de 9,5 milhões de anos. A espécie nova recebeu o nome de Ophiura huebnerjenseni.

Um poço de argila que já rendeu gigantes

O material vem do Gram Clay Pit, no sul da Dinamarca. Os depósitos marinhos do local são conhecidos por vários esqueletos fósseis de baleias e pelas maiores vértebras de megalodonte já encontradas. Também preservam muitos moluscos e outros invertebrados, mas os ofiuroides nunca tinham sido detectados ali.

Mette Elstrup e Trine Sørensen, do Museum Sønderjylland, se juntaram a Ben Thuy, do museu luxemburguês, e a Lea D. Numberger-Thuy para procurar os primeiros restos desses animais na Formação Gram.

Como as placas foram encontradas

O sedimento foi coletado em 2018, durante a escavação da mandíbula inferior e de vértebras de uma baleia-bicuda. Em laboratório, a equipe lavou e peneirou o material, separou os microfósseis sob microscópio e examinou exemplares selecionados com microscopia eletrônica de varredura. Características das placas mostraram que se tratava de uma espécie ainda não descrita.

A pista decisiva, porém, foi o lugar onde elas apareceram. “Only three samples taken directly beside the whale bones contained brittle-star remains. Samples from the same layer farther from the skeleton, and other comparison samples, yielded none”, explica o autor principal, Ben Thuy.

Descartando explicações alternativas

Os pesquisadores consideraram que correntes poderiam ter concentrado as placas junto aos ossos, ou que condições químicas locais tivessem favorecido a preservação. Segundo Thuy, fragmentos de ouriço-do-mar de tamanho e composição mineral comparáveis apareceram em todas as amostras estudadas.

“This makes a preservation-only explanation less likely and supports the interpretation that the brittle stars lived on or close to the whale carcass”, afirmou ele. O raciocínio é de exclusão: se só a preservação explicasse o padrão, os fragmentos de ouriço também estariam concentrados.

O que é uma queda de baleia

Quando uma baleia morta chega ao fundo do mar, a carcaça se torna uma fonte concentrada de alimento. Cientistas chamam esse ambiente de queda de baleia. Nos oceanos atuais, ofiuroides são comuns nesses locais, mas essa ligação não aparecia no registro fóssil.

Segundo o Museum Sønderjylland, o achado no Gram Clay Pit sugere que a relação ecológica já existia no Mioceno Superior, há cerca de 9,5 milhões de anos, no sul da Dinamarca.

O que os fósseis não mostram

Os restos não revelam o que exatamente os ofiuroides comiam, nem se a espécie dependia só de quedas de baleia. Com base em comunidades atuais, os autores favorecem a hipótese de um animal generalista, que vivia no fundo ao redor e se aglomerou na carcaça em número suficiente para deixar vestígio fóssil.

“We interpret the site as a shallow-water whale fall at a stage when enrichment from the carcass supported opportunistic animals”, disse Mette Elstrup. “We found no evidence for the later sulphide-based community stages that can develop at deep-sea whale falls. The discovery therefore adds a rare fossil perspective on how animals responded to a large food source on an ancient shallow-water seabed”, completou.

Um nome vindo do heavy metal

O epíteto huebnerjenseni homenageia Holger Hübner e Thomas Jensen, fundadores do festival Wacken Open Air, pelo compromisso com o evento. Eles agradeceram, lembrando que um nome de espécie publicado é uma pequena porção de imortalidade.

Há ainda uma coincidência geológica: a lama cinza-escura que marca o festival provavelmente vem dos mesmos depósitos que forneceram os fósseis. “The clay that accumulated on the bottom of the ancient North Sea not only preserved the remains of a 9.5-million-years old brittle star, it also turns Wacken Open Air into the muddy battlefield renowned by metalheads worldwide”, resumiu Lea Numberger-Thuy.

O que isso diz para quem vive na Amazônia

Quedas de baleia ocorrem hoje em oceanos do mundo todo, e o litoral amazônico, que se estende do Amapá ao Maranhão, também faz parte desse mar. O estudo dinamarquês não trata de espécies brasileiras, mas mostra como o sedimento ao redor de um esqueleto pode guardar, em microfósseis, a história de uma comunidade inteira. A técnica de lavar e peneirar sedimento é aplicável a depósitos de outras regiões.

O trabalho foi publicado em 19 de outubro de 2026, e o artigo completo, com a descrição formal da espécie, pode ser consultado pelo DOI do estudo. Novas amostras de outros esqueletos do Gram Clay Pit poderão testar se o padrão se repete em outras carcaças.

Com informações de Museum Sønderjylland.

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