Pescador percorre 70 quilômetros de caiaque em Roraima e encontra quase 30 gravuras rupestres que podem datar de 3 mil anos antes de Cristo

Pescador percorre 70 quilômetros de caiaque em Roraima e encontra quase 30 gravuras rupestres que podem datar de 3 mil anos antes de Cristo
Ilustração: Revista Amazônia

Registros aparecem em diferentes trechos do rio Jatapu, durante expedição de nove dias, e podem indicar o primeiro sítio arqueológico identificado em Caroebe

Uma viagem de caiaque revela marcas nas pedras do rio

As pedras apareciam nas margens do rio Jatapu, mas não entregavam de imediato o que guardavam. Durante uma expedição de caiaque no Sul de Roraima, o pescador esportivo Marcell Reis, de 33 anos, passou a identificar gravuras rupestres espalhadas por diferentes trechos do caminho. Os desenhos surgiram depois de cerca de 70 quilômetros de descida, a partir de Caroebe, em áreas isoladas e próximas à nascente do rio. Ao todo, ele registrou quase 30 desenhos, alguns reunidos em uma única pedra e outros distribuídos ao longo da rota.

A viagem durou nove dias e foi feita em janeiro por Marcell e sua esposa, que costumam realizar travessias semelhantes. O casal navegava pelo Jatapu quando começou a notar os sinais nas rochas. Em um ponto, o pescador observou cerca de sete desenhos juntos. Em outros trechos, separados por dezenas de quilômetros, encontrou mais de 20 registros. A cena que parecia apenas parte do percurso mudou o sentido da expedição. As imagens transformaram a descida pelo rio em uma observação de marcas deixadas por pessoas que ocuparam aquela região em períodos muito anteriores à presença atual.

Os desenhos só aparecem para quem procura

Marcell fotografou e filmou as pedras assim que percebeu os desenhos. Uma das imagens, na qual a figura parece representar um sol, ultrapassou mil compartilhamentos nas redes sociais. A divulgação levou os registros a especialistas e também chamou a atenção para o trecho do Jatapu onde as gravuras estão distribuídas. Segundo o pescador, os desenhos não ficam destacados na paisagem. As pedras se misturam às margens e, para quem passa diretamente pelo rio, podem parecer apenas formações naturais.

“Se você passa direto pelo rio, não vê. Tem muita pedra. É preciso olhar com atenção, procurar mesmo. Não é algo óbvio”, afirmou Marcell. O comentário ajuda a explicar por que os registros foram percebidos durante uma travessia atenta, e não em uma passagem rápida pelo curso d’água. O pescador também é bombeiro militar e já conhecia deslocamentos por áreas remotas. Mesmo assim, a identificação das gravuras alterou o objetivo da viagem. O que começou como uma expedição esportiva passou a reunir imagens de possíveis vestígios arqueológicos em vários pontos do mesmo sistema fluvial.

Pesquisador estima idade e reconhece estilos diferentes

As fotografias foram analisadas por Francisco de Paula Brito, professor de história da Universidade Federal de Roraima e mestre em arqueologia pela Universidade de Pernambuco. O pesquisador afirmou que a definição da idade exige um estudo aprofundado, mas estimou, pela análise dos traços, da técnica e da comparação com outros registros da Amazônia e das Guianas, que algumas gravuras podem ter sido feitas cerca de 3 mil anos antes de Cristo. A estimativa coloca os desenhos em um período de ocupação humana muito anterior aos registros históricos da colonização.

Francisco identificou mais de um estilo nas imagens. Um deles foi associado à tradição amazônica, comum em regiões como o rio Negro. Outro apresenta características semelhantes às gravuras encontradas na Guiana. O pesquisador também mencionou o estilo Aishalton, conhecido por reunir figuras de animais, plantas e seres humanos em registros ligados a povos milenares. A variedade observada nas fotografias pode sugerir que diferentes povos passaram pelo rio em momentos distintos e deixaram suas marcas nas pedras. Essa interpretação ainda depende de análise técnica dos locais, dos desenhos e dos métodos usados para produzi-los.

Possível sítio arqueológico ainda precisa de investigação

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional informou que os desenhos encontrados por Marcell não fazem parte de nenhum sítio arqueológico registrado pelo órgão. A informação levanta a possibilidade de que o conjunto represente o primeiro sítio arqueológico identificado em Caroebe. O reconhecimento, porém, não transforma automaticamente todas as imagens em evidência de uma única ocupação ou permite confirmar a idade indicada nas primeiras análises. A distribuição dos desenhos por vários trechos e a presença de estilos distintos são elementos que precisam ser examinados em campo.

Também é necessário separar o que as imagens mostram do que elas ainda permitem interpretar. Uma figura que parece um sol, por exemplo, não basta para determinar seu significado original. A comparação com registros amazônicos e guianenses oferece uma hipótese de leitura, mas não substitui o estudo arqueológico das rochas, dos traços e do contexto do rio. O caso aproxima Caroebe de uma rede regional de pesquisas sobre ocupações antigas, sem apagar a condição principal dos achados: eles foram localizados, fotografados e encaminhados para análise, enquanto a investigação deverá definir sua idade e sua relação com os povos que circularam pelo Jatapu.

O rio preservou uma sequência de ocupações na paisagem

A ocorrência das gravuras em diferentes pontos do trajeto dá ao achado uma dimensão que vai além de uma pedra isolada. Marcell encontrou desenhos após descer cerca de 70 quilômetros, observando conjuntos separados por aproximadamente 20 e 30 quilômetros em determinados trechos. Essa distribuição indica que as margens do Jatapu podem guardar uma sequência de locais usados ou visitados ao longo do tempo. Ainda não se sabe se os desenhos foram feitos durante um mesmo período ou por grupos que chegaram à região em épocas diferentes.

Para a arqueologia, a posição dos registros é tão importante quanto a aparência das figuras. Animais, plantas, humanos e formas geométricas podem fazer parte de tradições distintas, mas precisam ser relacionados ao ambiente em que foram gravados. No caso de Caroebe, a floresta, o curso do rio e as pedras das margens compõem o cenário em que essas marcas permaneceram visíveis por milhares de anos, segundo a estimativa apresentada. A descoberta também mostra como uma travessia comum pode revelar sinais históricos quando o olhar deixa de acompanhar apenas o caminho e passa a observar a paisagem como arquivo humano.

Da expedição esportiva ao registro de uma memória amazônica

Marcell contou que encontrar as gravuras foi um dos momentos mais marcantes de suas viagens. A descoberta aconteceu em janeiro, durante a expedição pelo rio Jatapu, e foi divulgada em 16 de fevereiro de 2026. As fotos e os vídeos fizeram circular um conjunto de imagens que permanecia pouco perceptível para quem navegava sem procurar pelos detalhes das pedras. A partir delas, o professor Francisco de Paula Brito comparou os traços com registros estudados na Amazônia e na região das Guianas, enquanto o Iphan verificou a situação cadastral dos sítios conhecidos.

O episódio aproxima esporte, observação ambiental e pesquisa histórica sem reduzir as gravuras a uma imagem viral. O valor do achado está na possibilidade de ampliar o conhecimento sobre a presença humana no Sul de Roraima e de reunir novos pontos para investigação no rio Jatapu. Se as análises futuras confirmarem a antiguidade estimada e a diversidade de estilos, as pedras poderão contar uma história mais longa do que a própria expedição. Por enquanto, elas já fazem algo essencial: obrigam quem passa pelo rio a olhar devagar para uma paisagem que parecia apenas natural.

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