Tatuís produzem 5.300 ovos por fêmea, mas menos de 1% vira novo animal enquanto pesquisadores investigam seu sumiço nas praias brasileiras

Tatuís produzem 5.300 ovos por fêmea, mas menos de 1% vira novo animal enquanto pesquisadores investigam seu sumiço nas praias brasileiras
Ilustração: Revista Amazônia

Estudo acompanha o ciclo de vida do Emerita brasiliensis e busca entender se os animais deixam de chegar às praias ou não conseguem sobreviver nelas.

O crustáceo que diminui na areia

Enterrado na faixa de areia molhada pelas ondas, o tatuí passa despercebido por muitos frequentadores de praia. Pequeno crustáceo do gênero Emerita, ele vive na região de espraiamento, onde a água avança e recua continuamente. No litoral brasileiro, a espécie mais frequente é o Emerita brasiliensis, justamente a que está no centro de uma investigação sobre a redução desses animais em algumas praias. O estudo acompanha a presença dos tatuís, seu ciclo de vida e as condições que permitem ou impedem a formação de novas gerações. A pergunta prática é entender em que etapa ocorre a perda. Os animais deixam de chegar à praia, chegam e não sobrevivem ou encontram dificuldades para crescer e se reproduzir? A resposta pode variar conforme a espécie e a localidade, por isso a pesquisa observa cada trecho de maneira específica, em vez de tratar todas as praias como se funcionassem da mesma forma.

Um dos pontos historicamente acompanhados é a Praia de Fora, na Zona Sul do Rio de Janeiro. A presença de tatuís ali é observada desde a década de 1990, mas os registros indicam uma diminuição ao longo do tempo. A pesquisadora Rayane Abude, do Laboratório de Ecologia Marinha da Unirio, também revisou publicações científicas sobre o gênero Emerita e encontrou relatos de redução em países como Estados Unidos, México, Irã, Uruguai e Peru. Esse conjunto de observações colocou o declínio dos tatuís dentro de uma discussão mais ampla sobre as transformações provocadas pelo ser humano no planeta. O trabalho, porém, não transforma todos os relatos em uma única explicação. A investigação procura separar as etapas do ciclo de vida e identificar quais praias ainda sustentam a reprodução, quais recebem animais sem permitir seu desenvolvimento e quais fatores podem estar associados a esse desequilíbrio.

Milhares de ovos e uma passagem difícil pelo oceano

O ciclo começa quando as fêmeas colocam os ovos, que permanecem em desenvolvimento durante um período de 10 a 19 dias. Depois da eclosão, as larvas são liberadas na água e passam entre dois e quatro meses no ambiente marinho, atravessando diversos estágios de desenvolvimento. Só depois desse período elas retornam à praia. A pesquisa ainda investiga se esse retorno ocorre na mesma faixa de areia de origem ou em praias diferentes. Para tentar rastrear essa conexão, são usados marcadores genéticos, capazes de comparar populações e ajudar a identificar a origem dos animais que chegam a cada local. Essa etapa é importante porque a população de uma praia pode depender de larvas produzidas em outro ponto do litoral. O deslocamento pelo mar torna o ciclo compartilhado entre diferentes áreas, e qualquer avaliação precisa considerar tanto o que acontece na areia quanto o que ocorre durante a fase oceânica.

Uma amostragem sistematizada de 189 fêmeas ovígeras, coletadas ao longo de um ano na Praia de Fora, estimou fecundidade média de 5.300 ovos por fêmea. O número alto não significa que a mesma quantidade de novos tatuís chegará à areia. Durante o desenvolvimento embrionário, parte dos ovos viáveis se perde na areia. Depois, as larvas também enfrentam perdas enquanto são dispersadas no oceano e passam pelos diferentes estágios de desenvolvimento. Ao final desse percurso, menos de 1% dos ovos dá origem a novos indivíduos. Os animais que superam essa fase retornam como recrutas, nome dado aos jovens que chegam à praia. Nessa etapa, a carapaça ainda é frágil e os tatuís permanecem enterrados na areia, principalmente na zona constantemente molhada pelas ondas. O resultado é uma sucessão de filtros naturais e ambientais antes que uma nova geração consiga se estabelecer.

Praias podem produzir ou apenas receber tatuís

A pesquisa trabalha com a hipótese de que as praias não exercem todas a mesma função dentro da população. Algumas poderiam ser fontes, produzindo novos indivíduos e liberando larvas para o mar. Outras funcionariam como sumidouros, recebendo tatuís, mas sem oferecer condições adequadas para que eles cresçam e se reproduzam. Essa diferença ajuda a explicar por que a presença de animais em uma praia não prova, sozinha, que aquele local sustenta uma população estável. Também é possível que uma faixa de areia receba recrutas originados em outro ponto, enquanto sua própria contribuição para o ciclo geral seja pequena. Os marcadores genéticos podem ajudar a identificar essas conexões entre localidades. A análise procura, portanto, reconstruir o caminho entre fêmeas, ovos, larvas e jovens, relacionando a densidade observada na praia com a capacidade de cada ambiente manter o ciclo ao longo do tempo.

Os recrutas ficam especialmente expostos em praias muito frequentadas. Como vivem enterrados na região atingida pelas ondas, podem ser pisoteados ou esmagados quando as pessoas caminham sobre a areia. Observações indicam maior densidade de animais em praias menos acessadas, uma diferença que coloca o uso da faixa de areia entre os fatores examinados pela pesquisa. O mar também tem papel direto na alimentação dos tatuís. Eles utilizam antenas para reter micropartículas orgânicas dispersas na água e conduzir esses nutrientes até o aparelho bucal. Assim, a qualidade do ambiente marinho interfere na disponibilidade do alimento durante uma etapa central da vida do crustáceo. A combinação entre circulação de larvas, condições da areia, pressão física sobre os jovens e qualidade da água torna o desaparecimento aparente um problema de várias etapas, e não necessariamente um evento único.

O que a investigação ainda precisa separar

O foco do trabalho é distinguir mecanismos que podem produzir o mesmo resultado visível, a redução dos tatuís encontrados na praia. Uma queda na quantidade de animais pode ocorrer porque menos larvas chegam, porque os jovens não sobrevivem depois do retorno ou porque as condições locais não permitem o crescimento e a reprodução. Também pode haver diferença entre praias que produzem larvas e praias que apenas recebem indivíduos transportados pelo mar. Essa separação é essencial para evitar uma explicação geral aplicada a todo o litoral. A revisão de registros em diferentes países mostra que espécies do gênero Emerita enfrentam reduções em mais de uma região, mas cada população está submetida a circunstâncias locais. No litoral brasileiro, o acompanhamento do Emerita brasiliensis em praias do Rio de Janeiro permite observar o ciclo com mais detalhe e comparar a presença histórica com a situação atual.

As informações foram divulgadas em 30 de março de 2025 pela Agência Brasil, a partir da investigação conduzida no Laboratório de Ecologia Marinha da Unirio. O estudo transforma um animal quase invisível sob a areia em indicador de processos que conectam praia e oceano. O tatuí depende de uma sequência que começa nos ovos, passa por meses de desenvolvimento larval no mar e termina com o retorno dos recrutas à faixa de areia. Quando uma dessas etapas perde eficiência, a quantidade observada na praia pode cair mesmo que ainda existam fêmeas produzindo milhares de ovos. A pesquisa mostra que acompanhar a biodiversidade costeira exige observar também os animais pequenos, os períodos em que eles permanecem escondidos e as relações entre praias separadas por grandes distâncias. Sob a areia molhada, cada novo tatuí representa o resultado de um ciclo que atravessa ambientes diferentes antes de reaparecer aos olhos humanos.

Com informações da Agência Brasil.

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