Chuva em estradas da Califórnia leva poluente de pneus a rios e riachos em níveis acima do letal para filhotes de salmão

Chuva em estradas da Califórnia leva poluente de pneus a rios e riachos em níveis acima do letal para filhotes de salmão
Foto: acervo

Estudo mediu o 6PPD-quinona em 22 pontos ao redor da Baía de São Francisco e levanta alerta sobre o que o asfalto despeja em águas de espécies ameaçadas.

A água que escorre das estradas durante uma tempestade pode carregar, para riachos onde peixes ameaçados de extinção desovam, um composto químico que nasce do desgaste dos pneus. Em pesquisa feita na região da Baía de São Francisco, na Califórnia, 69% das amostras coletadas continham 6PPD-quinona em concentração superior à considerada letal para metade dos filhotes de salmão-coho expostos por 24 horas. O trabalho foi publicado na revista Environmental Science & Technology Letters, da Sociedade Americana de Química (ACS).

De onde vem uma substância que mata peixes

Os pneus de borracha levam um aditivo protetor chamado 6PPD. Ao reagir com o ozônio presente no ar, ele se transforma em 6PPD-quinona. Vento e chuva arrastam as partículas de pneu e o composto para os corpos d’água, onde ele é altamente tóxico para diversas espécies de peixes.

O salmão-coho e a truta steelhead estão entre as espécies muito suscetíveis. Pouco se sabia, porém, sobre a exposição delas ao poluente no extremo sul da área onde vivem, na costa oeste dos Estados Unidos. Foi essa lacuna que o grupo liderado por Ed Kolodziej quis preencher.

“Essas espécies são protegidas pela Lei de Espécies Ameaçadas, e esses são seus habitats mais vulneráveis e de maior risco”, afirma Kolodziej, autor correspondente do estudo (tradução livre do original em inglês).

Como a coleta foi feita

Os pesquisadores recolheram água em seis saídas de drenagem de rodovias, 14 riachos e rios e dois estuários, na região da baía e no litoral próximo. A coleta ocorreu no auge de uma tempestade, de modo a obter um retrato instantâneo da exposição possível. Vários pontos são áreas designadas como habitat crítico para o salmão-coho e a steelhead, com proteções exigidas por lei.

Por ser um retrato de um único evento de chuva, o estudo mostra o que pode ocorrer nessas condições, e não a média ao longo do ano.

O que as amostras mostraram

Em 78% das amostras, o nível de 6PPD-quinona superou o valor de referência da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) para risco de dano agudo a organismos aquáticos. Em 69%, a concentração ultrapassou a que mata metade dos filhotes de salmão-coho em 24 horas.

Os teores tenderam a ser mais altos em riachos próximos a vias de tráfego intenso e bem menores nos estuários. Para os autores, isso indica que a proximidade de estradas movimentadas é o fator de maior peso no acúmulo do poluente na água.

A armadilha ecológica

Um dos riachos havia recebido extensas obras de restauração de habitat, mas registrou alguns dos maiores níveis de 6PPD-quinona do estudo. “Um ótimo habitat com água tóxica piora o problema. Você está criando uma armadilha ecológica para os peixes”, diz Kolodziej.

Por isso, os autores sugerem que a restauração física dos ambientes e a melhoria da qualidade da água sejam tratadas em conjunto, sobretudo em bacias que abrigam espécies ameaçadas.

Que soluções estão na mesa

Segundo Kolodziej, as estratégias possíveis incluem tratar a água de chuva em áreas de tráfego pesado e desenvolver pneus feitos com materiais menos tóxicos ou não tóxicos no ambiente. “O 6PPD-quinona não é o único componente nocivo do escoamento de estradas, então encontrar soluções escaláveis e de baixo custo é importante”, afirma o pesquisador.

O trabalho teve financiamento da Earthjustice e da cátedra Allan and Inger Osberg Endowed Professorship. Uma verba da Administração Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) ajudou a comprar equipamentos analíticos.

O que isso diz à Amazônia

Salmões e steelheads não vivem na região amazônica, e o estudo não mediu o poluente em rios brasileiros. Mas o mecanismo é o mesmo em qualquer lugar onde haja tráfego: pneus se desgastam, a chuva lava o asfalto e a água segue para igarapés e rios. Em cidades amazônicas, onde chuvas intensas são frequentes e muitos cursos d’água cortam áreas urbanas, a pesquisa levanta uma pergunta que ainda não tem resposta: quais peixes locais seriam sensíveis ao composto e em que concentrações ele chega às águas da região. Só medições feitas aqui poderão dizer.

Os próximos passos apontados pelos autores passam por combinar recuperação de habitat com tratamento da água de chuva nas bacias monitoradas e por avançar em pneus menos tóxicos.

Com informações de American Chemical Society (ACS).

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA