Recifes de ostras podem gerar US$ 12 trilhões por ano, mas 90% das áreas adequadas precisam de restauração

Recifes de ostras podem gerar US$ 12 trilhões por ano, mas 90% das áreas adequadas precisam de restauração
Foto: Jon Dickson

Estudo global calcula o valor ambiental dos recifes e mostra que proteção costeira, água limpa e alimento estão subestimados.

Uma faixa de recifes de ostras pode fazer muito mais do que fornecer alimento. Em escala global, esses ambientes costeiros também filtram a água, retêm nutrientes, abrigam peixes e invertebrados, armazenam carbono e ajudam a reduzir a exposição das margens à erosão. Um estudo publicado na revista Frontiers in Marine Science calculou que, se as áreas adequadas fossem recuperadas e protegidas, o conjunto desses benefícios poderia alcançar US$ 12 trilhões por ano.

O valor não representa dinheiro disponível imediatamente nem uma receita que poderia ser sacada por governos ou comunidades. Trata-se do chamado produto ecossistêmico bruto, ou GEP, uma forma de estimar quanto os serviços prestados pela natureza contribuem para a saúde do planeta e para o bem-estar humano.

O que existe hoje é apenas uma fração do potencial

Os pesquisadores estimaram que cerca de 85% dos recifes de ostras do mundo desapareceram no último século. A perda ocorreu principalmente em estuários, baías, lagoas e deltas de rios, justamente áreas onde a atividade humana costuma se concentrar e onde poluição, exploração excessiva e mudanças climáticas pressionam os ecossistemas.

Segundo a Frontiers, o estudo avaliou a distribuição e o potencial dos recifes de ostras em escala global. A análise concluiu que, entre os dez países com maior ecopotencial, aproximadamente 295 mil quilômetros quadrados de áreas costeiras seriam adequados para esses ambientes, o equivalente a 6% de suas zonas costeiras.

Recifes de ostras podem gerar US$ 12 trilhões por ano, mas 90% das áreas adequadas precisam de restauração
Foto: Jon Dickson

Os recifes conhecidos ocupam atualmente apenas 10% desse espaço estimado. A diferença indica que ainda existe uma grande área onde as ostras poderiam se estabelecer, desde que haja condições ambientais favoráveis, recuperação do habitat e controle das pressões que impedem o crescimento das populações.

Como os cientistas chegaram ao cálculo

Para localizar essas áreas, a equipe reuniu milhares de registros georreferenciados de recifes de ostras disponíveis em dois bancos de dados públicos. Em seguida, aplicou um algoritmo de aprendizado de máquina já utilizado em estudos de distribuição de espécies.

O modelo cruzou informações sobre temperatura da água, salinidade, luminosidade, disponibilidade de nutrientes e concentração de oxigênio. Locais com índice de adequação igual ou superior a 65% foram classificados como apropriados para os recifes. Depois, os autores combinaram a área potencial com estimativas dos serviços que cada ambiente poderia oferecer.

Esse procedimento produziu um mapa de ecopotencial, conceito que indica onde a recuperação dos recifes poderia entregar mais benefícios. Os maiores valores apareceram nos Estados Unidos, Austrália, Chile, China, Japão, Coreia do Sul, Argentina, França, Alemanha e Itália.

Recifes de ostras podem gerar US$ 12 trilhões por ano, mas 90% das áreas adequadas precisam de restauração
Foto: Jon Dickson

Água filtrada, carbono armazenado e margens mais protegidas

Uma das funções mais importantes das ostras é retirar partículas e nutrientes da coluna d’água enquanto se alimentam. Em áreas com muitos indivíduos, esse processo pode melhorar a qualidade da água e alterar a circulação de nutrientes na cadeia alimentar. A estrutura dos recifes também cria abrigo e áreas de crescimento para diversas espécies de peixes e invertebrados.

Se todo o espaço com ecopotencial positivo fosse ocupado por recifes, a estimativa de filtragem chegaria a 77,58 quatrilhões de litros de água nos Estados Unidos, 69,92 quatrilhões na Austrália e 46,58 quatrilhões no Chile. O estudo também calculou uma capacidade de sequestro de até 12,3 milhões de toneladas métricas de carbono por ano.

Nos Estados Unidos, a remoção de nitrogênio, a captura de carbono e a purificação da água foram avaliadas em conjunto em US$ 25,1 bilhões anuais. A cifra ajuda a dimensionar o valor dos processos naturais, mas não deve ser interpretada como uma comparação direta com o Produto Interno Bruto ou como uma previsão de faturamento do setor de aquicultura.

A restauração é o ponto decisivo

O estudo estima que 90% dos locais considerados adequados precisariam de restauração para receber recifes funcionais. Outros 80% necessitariam de algum tipo de proteção por meio de conservação. Isso significa que identificar uma área apropriada é apenas o primeiro passo. Também seria necessário reduzir a poluição, evitar a destruição do fundo costeiro e acompanhar a sobrevivência das ostras ao longo do tempo.

Recifes de ostras podem gerar US$ 12 trilhões por ano, mas 90% das áreas adequadas precisam de restauração
Foto: Jon Dickson

Somente 23% da área considerada adequada está atualmente dentro de alguma forma de proteção marinha. A baixa cobertura ajuda a explicar por que o potencial calculado está distante da realidade observada. Sem manejo contínuo, a expansão dos recifes pode ser interrompida por doenças, alteração da salinidade, aquecimento da água, perda de sedimentos e outras mudanças ambientais.

Os autores também fazem uma ressalva importante sobre o clima. O aquecimento global tende a reduzir a qualidade dos habitats para ostras e, por consequência, pode diminuir o GEP global em relação ao potencial de US$ 12 trilhões. Em alguns países, porém, as condições futuras poderiam favorecer a expansão e a dispersão desses animais, especialmente na Austrália, Indonésia, Coreia do Sul, Japão e França. Essa possibilidade é uma projeção, não uma garantia.

Por que o tema importa para a Amazônia

A discussão tem conexão direta com a realidade amazônica porque a região reúne grandes rios, áreas estuarinas, deltas, manguezais e comunidades que dependem da qualidade das águas costeiras. Para leitores do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, o principal aprendizado está menos em importar um modelo pronto e mais em reconhecer que ambientes aquáticos podem oferecer serviços essenciais antes mesmo de serem convertidos em valor monetário.

A foz do Amazonas e os estuários do litoral amazônico estão inseridos justamente no tipo de paisagem onde recifes e outros ecossistemas costeiros podem influenciar a proteção das margens, a disponibilidade de alimento e a qualidade da água. O estudo, entretanto, não apresenta uma estimativa específica para os estados brasileiros nem confirma a existência de uma área local com o mesmo potencial calculado para os dez países destacados.

Essa limitação é relevante. Resultados globais ajudam a indicar prioridades, mas decisões de restauração precisam considerar espécies nativas, dinâmica dos sedimentos, salinidade, pesca, ocupação urbana e conhecimento das comunidades. O valor ambiental de um recife não pode ser separado das condições ecológicas e sociais de cada lugar.

O que ainda precisa ser confirmado

Os números foram calculados a partir de médias globais e de modelos que relacionam características ambientais aos serviços ecossistêmicos. Eles podem mudar conforme as populações de ostras se alteram, conforme novas informações são incorporadas e conforme a crise climática modifica temperatura, salinidade e disponibilidade de habitat.

O resultado mais seguro da pesquisa é a dimensão da oportunidade: recifes de ostras são estruturas vivas com funções que vão muito além da produção de frutos do mar. O próximo passo é transformar mapas de adequação em projetos locais de restauração, com proteção legal, monitoramento ecológico e participação das comunidades costeiras.

Com informações de Frontiers.

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