Renda básica sem condições paga R$ 2,67 por dia a 211 indígenas no Peru e reduz fome e migração por trabalho em dois anos

Renda básica sem condições paga R$ 2,67 por dia a 211 indígenas no Peru e reduz fome e migração por trabalho em dois anos
Foto: Verity

Piloto da ONG Cool Earth em comunidades Asháninka, analisado pela Universidade de Bath, reacende o debate sobre como financiar quem protege a floresta.

Em três comunidades Asháninka da Amazônia peruana, a parcela de famílias que não conseguiam comprar comida nutritiva caiu de 73% para 26% em dois anos. O que mudou foi uma renda básica sem condições, de 1.032 soles por transferência, o equivalente a cerca de 2 libras (US$ 2,67) por dia. Segundo análise divulgada pela Universidade de Bath, o piloto também melhorou o bem-estar das famílias e apoiou a proteção da floresta.

Como o dinheiro chegou às famílias

O projeto foi conduzido pela instituição britânica Cool Earth. Ao todo, 211 pessoas receberam seis transferências em dinheiro, sem exigência de contrapartida sobre como gastar. Junto com o pagamento, participaram de formações em educação financeira, direitos indígenas e conservação.

A comparação foi feita entre uma pesquisa de base, de 2023, e outra de encerramento, de 2025.

O que os números mostram

Na alimentação, o avanço foi o mais nítido. Quem pulava refeições passou de 49% para 22%, e quem ficava um dia inteiro sem comer, de 24% para 15%.

Na economia doméstica, a migração temporária de membros da família para trabalhos avulsos fora da comunidade caiu de 43% para 18%. Domicílios com poupança subiram de 49% para 70%, e o pedido de empréstimos recuou de 19% para 6%.

Na floresta, perto de 90% dos participantes adotaram práticas benéficas ao ambiente. A participação ativa em ações coletivas, como reflorestamento com espécies nativas, redução de queimadas e recuperação de nascentes, chegou a 87%.

Por que a lógica funcionaria

Os defensores do modelo argumentam que famílias em aperto são as que madeireiros e outros interesses conseguem atrair. Com renda previsível, elas podem cultivar a terra, alimentar os filhos e permanecer no território, em vez de buscar salários precários longe de casa. Nessa leitura, povos indígenas devem ser tratados como parceiros a quem se deve reciprocidade, não como beneficiários de caridade.

Os números de migração dão base a esse raciocínio, já que menos gente saindo significa mais gente disponível para cuidar do território. Ainda assim, o piloto é pequeno, restrito a três comunidades, e a análise não permite afirmar quanto da floresta foi efetivamente preservada.

As críticas ao pagamento em dinheiro

Há quem veja o caminho com desconfiança. Essa corrente sustenta que programas de dinheiro voltados a florestas já deixaram divisão e quebra de confiança nas comunidades quando o recurso externo acabou. Também alerta que pagamentos podem aproximar os povos da economia de mercado e enfraquecer tradições de trabalho coletivo que mantiveram a mata em pé.

Para esses críticos, o que dura mais que qualquer projeto-piloto é a segurança fundiária, o consentimento real das comunidades e planos de qualidade de vida escritos por elas mesmas. A pergunta que o estudo deixa em aberto é se o efeito se mantém quando os pagamentos terminam.

O que isso significa para a Amazônia brasileira

O debate toca diretamente a realidade dos estados amazônicos brasileiros, onde comunidades indígenas e tradicionais também enfrentam pressão de garimpo, desmatamento e falta de renda. A experiência peruana não é transferível automaticamente, pois o desenho de programas sociais e a situação fundiária são distintos. Mas oferece dados concretos para uma discussão que a região faz há anos: como remunerar quem mantém a floresta de pé sem substituir direitos territoriais.

O contexto de metas também pesa. O Peru pretende reduzir em 40% o desmatamento líquido na Amazônia até 2030 e zerá-lo até 2050, segundo o Climate Action Tracker. Na terça-feira, a Colômbia anunciou ter recebido US$ 22,4 milhões em apoio internacional para proteger a floresta.

A Cool Earth planeja expandir o modelo para mais comunidades da Amazônia peruana e para a Colômbia. O relatório da Universidade de Bath pode ser lido na íntegra, e novas edições devem mostrar se os resultados se repetem em escala maior.

Com informações de Universidade de Bath e Cool Earth.

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