Duas pessoas comendo a mesma quantidade de calorias podem absorver valores diferentes: dieta rica em fibras fez o corpo aproveitar 116 calorias a menos por dia

Duas pessoas comendo a mesma quantidade de calorias podem absorver valores diferentes: dieta rica em fibras fez o corpo aproveitar 116 calorias a menos por dia
Prato feito com arroz, feijão, salada e frango. Foto: Tet, via Wikimedia Commons, domínio público (CC0).

O número de calorias impresso na embalagem parece uma medida exata da energia que vamos tirar daquele alimento. Mas não é bem assim. Uma parte da digestão depende dos trilhões de micróbios que vivem no intestino, e eles mudam quanto o corpo realmente absorve. Pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, criaram um modelo matemático para calcular esse efeito.

Digestão em parceria

O modelo se chama DAMM, sigla em inglês para digestão, absorção e metabolismo microbiano. Ele acompanha o caminho da comida pelo tubo digestivo, quanto de energia o corpo absorve direto e o que as bactérias fazem com o que sobra.

Segundo a professora Rosa Krajmalnik-Brown, diretora do Centro de Saúde por Meio dos Microbiomas da universidade, a digestão não é só um processo humano, mas uma colaboração entre o corpo e os micróbios do intestino. O modelo mostra também a importância de alimentar bem essas bactérias.

A conta de cem anos

Há mais de um século, a energia dos alimentos é estimada pelo sistema de Atwater, que atribui valores médios de calorias a cada grama de gordura, carboidrato e proteína. O método é prático, mas não considera o que as bactérias fazem com a comida.

No intestino grosso, os micróbios quebram as fibras e outros componentes que passaram sem ser digeridos e produzem ácidos graxos de cadeia curta. Parte deles entra no sangue e vira mais uma fonte de calorias.

116 calorias de diferença

O modelo foi construído a partir de um estudo clínico com dieta controlada, feito em parceria com o AdventHealth, em Orlando. Adultos saudáveis seguiram um de dois cardápios. Um tinha muita fibra e amido resistente, com alimentos menos processados e em pedaços maiores. O outro imitava a dieta ocidental típica, com menos fibra e mais alimentos processados.

Quem seguiu a dieta ocidental absorveu cerca de 116 calorias a mais por dia do que quem comeu a dieta rica em fibras. E quem comeu mais fibra não relatou sentir mais fome.

O que os micróbios entregam

Pelos cálculos, os ácidos graxos produzidos pelas bactérias e absorvidos no intestino grosso forneceram em média cerca de 140 calorias por dia, aproximadamente 7,4% da energia total aproveitada. No geral, cerca de 85% da energia veio da parte alta do tubo digestivo e cerca de 15% da parte baixa, onde estão as bactérias.

Para o professor Bruce Rittmann, coautor, o modelo liga de forma quantitativa o metabolismo humano ao dos micróbios do intestino. Os pesquisadores esperam que, no futuro, a ferramenta ajude a entender obesidade e diabetes e a montar dietas personalizadas.

O prato brasileiro

A ideia combina com o que nutricionistas brasileiros já recomendam. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, orienta basear a alimentação em alimentos in natura e minimamente processados e evitar ultraprocessados. O tradicional arroz com feijão, acompanhado de verduras e legumes, é um exemplo de refeição rica em fibras, que alimenta as bactérias do intestino e ajuda a dar saciedade.

Perguntas frequentes

As bactérias do intestino influenciam o peso?

Elas influenciam quanta energia o corpo tira da comida, segundo o estudo. Uma dieta rica em fibras fez absorver menos calorias.

Comer fibra dá mais fome?

No estudo, quem comeu mais fibra não relatou sentir mais fome.

Com informações da Universidade Estadual do Arizona.

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