Por 25 mil anos, povos aborígenes levaram capim para dentro de uma caverna da Austrália e o queimaram em rituais, camada sobre camada

Por 25 mil anos, povos aborígenes levaram capim para dentro de uma caverna da Austrália e o queimaram em rituais, camada sobre camada
Interior das cavernas de Buchan, na mesma região da caverna de Cloggs, em Victoria, Austrália. Foto: Shinzztv, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Os GunaiKurnai, nação aborígene da Austrália, são os guardiões tradicionais de Gippsland e dos Alpes do sul de Victoria. Cavernas em suas terras sempre foram ligadas a práticas espirituais. Relatos do século 19 e a tradição oral descrevem esses lugares como espaços onde homens e mulheres de grande conhecimento, os mulla-mullung, faziam rituais de magia, cura e maldição. Agora, a arqueologia mostra que uma dessas cavernas, a de Cloggs, foi usada assim por cerca de 25 mil anos.

O estudo foi publicado na revista científica Frontiers in Environmental Archaeology.

Capim queimado em camadas

Segundo a pesquisadora Elle Grono, da Universidade Nacional Australiana, autora correspondente, os antepassados escolhiam capins inteiros na paisagem ao redor, carregavam para dentro da caverna, espalhavam em camadas finas e queimavam. Com o tempo, sedimentos cobriam as camadas queimadas, preservando uma sobre a outra por milhares de anos.

Pistas microscópicas

A equipe, com pesquisadores da Austrália, da França e da Nova Zelândia, analisou fitólitos, estruturas microscópicas de sílica que se formam dentro das plantas e resistem muito depois que elas desaparecem. Diferente do pólen, levado pelo vento, os fitólitos ficam onde a planta se decompõe.

Como nada cresce dentro da caverna, por falta de luz, os fitólitos só podiam ter sido levados por pessoas ou por animais, como gambás australianos, no pelo ou nas fezes. A equipe se concentrou nos fitólitos meio queimados das camadas de cinza, que só podiam ter sido levados por pessoas.

Foram classificados milhares de fitólitos de dois poços de escavação, com 1,5 e 2,3 metros de profundidade. As partes superiores tinham 73 camadas finas de cinza depositadas entre cerca de 4.400 e 1.600 anos atrás. Ao todo, foram identificados 29 tipos de fitólitos de capins, ervas e plantas lenhosas.

Uma pedra em pé

Entre as camadas, apareceu outra descoberta: uma pedra de 28 centímetros fincada em pé. A análise mostrou que os antepassados a colocaram ali de propósito, para fins rituais, há cerca de 2 mil anos.

Pesquisa feita com o povo

As escavações, de 2019 e 2020, foram pedidas pela Corporação de Terras e Águas GunaiKurnai, e representantes do povo participaram do desenho da pesquisa, do trabalho de campo, da interpretação e da divulgação dos resultados. O modelo de pesquisa feita junto com as comunidades tradicionais é cada vez mais adotado na arqueologia.

Uma das tradições mais longas da Terra

Os povos aborígenes da Austrália estão entre as culturas contínuas mais antigas do planeta, com presença no continente há dezenas de milhares de anos. Achados como o de Cloggs mostram que práticas espirituais podem atravessar milênios, ligando gerações por um tempo difícil de imaginar.

Perguntas frequentes

O que são fitólitos?

Estruturas microscópicas de sílica formadas dentro das plantas, que se preservam por milhares de anos e revelam quais plantas estiveram num lugar.

Há quanto tempo vivem os aborígenes na Austrália?

Há dezenas de milhares de anos. São uma das culturas contínuas mais antigas do mundo.

Com informações da Universidade Nacional Australiana e do estudo publicado na Frontiers in Environmental Archaeology.

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