Rios do Rio levam cocaína à Baía de Guanabara, e teste com peixes revela danos em doses ambientais

Rios do Rio levam cocaína à Baía de Guanabara, e teste com peixes revela danos em doses ambientais
Foto: Mateus Aguiar

Estudo da Fiocruz encontrou a droga e seu metabólito em 59 de 60 amostras coletadas entre 2022 e 2023.

Rios que atravessam áreas densamente urbanizadas do Rio de Janeiro estão carregando mais do que esgoto e resíduos visíveis. Entre julho de 2022 e junho de 2023, pesquisadores encontraram cocaína em cinco cursos d’água ligados à Baía de Guanabara e observaram efeitos tóxicos em embriões de peixe expostos às concentrações registradas no ambiente.

A investigação foi coordenada pelo Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, com participação de outras unidades da instituição, da UERJ, da UFRJ e da Unirio. O trabalho foi publicado na revista científica Aquatic Toxicology e analisou os rios Irajá, Carioca e Meriti, além dos canais do Cunha e do Mangue.

O que as amostras revelaram

Os cientistas fizeram coletas mensais e reuniram 60 amostras de água. Apenas uma não apresentou cocaína. A benzoilecgonina, principal metabólito produzido pelo organismo depois do consumo da droga, apareceu em todas as amostras examinadas.

Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, cocaína e benzoilecgonina foram detectadas em cinco rios do Rio de Janeiro entre julho de 2022 e junho de 2023. A informação é importante porque a presença do metabólito ajuda a indicar que parte da contaminação chega aos rios por meio do esgoto, carregando resíduos eliminados por usuários.

Na maior parte das coletas, a quantidade de benzoilecgonina superou a de cocaína. Houve, porém, uma exceção: em uma amostra, a concentração da droga foi quatro vezes maior que a do metabólito. Para os autores, esse padrão pode estar associado ao descarte direto da substância na água, embora o resultado isolado não permita apontar a origem exata do material.

Chuva, esgoto e períodos de maior consumo

A contaminação não se distribuiu de maneira uniforme ao longo do ano. Os maiores níveis apareceram na estação chuvosa, entre outubro e março, com pico em janeiro. A explicação considerada pelos pesquisadores combina o transporte de resíduos pelo escoamento e a maior circulação de pessoas em períodos de férias e festas.

Essa relação não significa que a chuva produza a contaminação. Em áreas urbanas, a água que escoa pelas ruas pode alcançar redes de drenagem e cursos d’água, enquanto sistemas de esgoto recebem e transportam substâncias eliminadas pelo corpo. Quando a infraestrutura é pressionada, esses compostos podem chegar aos rios antes de serem completamente removidos.

A comparação feita no estudo também chama atenção. Os níveis registrados no Rio de Janeiro foram superiores aos observados em pesquisas semelhantes realizadas na Bélgica, na Espanha e nos Estados Unidos. A diferença reforça a necessidade de considerar as características locais, como densidade urbana, tratamento de esgoto, regime de chuvas e conexão entre canais, rios e baías.

O teste com peixes separou presença de risco

Encontrar uma substância na água não basta para saber como ela afeta a vida aquática. Por isso, a equipe realizou ensaios com embriões de zebrafish, espécie usada em pesquisas de ecotoxicologia por apresentar desenvolvimento rápido e respostas observáveis durante as primeiras fases da vida.

Quando expostos às concentrações identificadas nos rios, os embriões apresentaram aumento da mortalidade, deformações e alterações cardiovasculares e neurológicas. A benzoilecgonina provocou efeitos mais nocivos do que a cocaína nos testes realizados.

Outro resultado amplia a preocupação: em laboratório, danos foram observados mesmo quando os embriões receberam uma concentração de benzoilecgonina equivalente a 13% da quantidade encontrada no ambiente. Isso não permite concluir que todos os peixes dos rios estejam sofrendo os mesmos efeitos, mas indica que o metabólito merece atenção nas avaliações de risco ecológico.

O zebrafish funciona como organismo-modelo. Assim, os resultados ajudam a identificar possíveis mecanismos de toxicidade, mas não substituem a observação direta das populações de peixes, invertebrados e outros organismos que vivem nos rios. Também não significam, por si só, que a água esteja destinada ao consumo humano ou que exista risco imediato para a população.

Por que o resultado importa para a Amazônia

O estudo foi realizado no Rio de Janeiro, e não mediu rios da Amazônia. Ainda assim, o método tem utilidade para cidades da região, onde cursos d’água urbanos recebem a pressão combinada de esgoto, chuvas intensas e ocupação desordenada. A pesquisa mostra que o monitoramento da qualidade da água pode procurar não apenas metais, agrotóxicos e microrganismos, mas também resíduos de medicamentos e drogas ilícitas.

Para leitores do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão, a principal conexão é a necessidade de conhecer os contaminantes presentes nos rios que cortam áreas urbanas. A existência de cocaína nos cursos d’água fluminenses não autoriza afirmar que o mesmo ocorre em rios amazônicos. Essa verificação exigiria coletas específicas e análises laboratoriais próprias em cada bacia.

Também há uma lição de saúde pública. A análise de águas residuais pode indicar padrões coletivos de consumo e ajudar a orientar políticas de prevenção, enquanto a ecotoxicologia revela consequências que não aparecem em testes convencionais de potabilidade. São objetivos diferentes, mas ambos dependem de redes regulares de amostragem.

Uma nova etapa já está em andamento

Depois da primeira fase, os pesquisadores ampliaram o alcance da investigação. A segunda etapa envolve 13 rios do estado do Rio de Janeiro, com coletas realizadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. As análises seguem em andamento e a previsão é que sejam concluídas no primeiro semestre de 2027.

Os autores defendem que a cocaína e a benzoilecgonina sejam incluídas em programas de monitoramento ambiental e em avaliações de risco ecológico. A próxima etapa poderá mostrar se o padrão observado em cinco rios se repete em outras bacias e se a variação sazonal permanece quando o número de pontos analisados aumenta.

Com informações de Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Respostas rápidas sobre a pesquisa

A água dos rios pode ser considerada própria para consumo?

O estudo identificou contaminantes e efeitos em organismos aquáticos, mas não fez uma avaliação de potabilidade para consumo humano. A presença das substâncias não permite, sozinha, classificar a água nem medir um risco direto para pessoas.

A pesquisa já encontrou cocaína em rios da Amazônia?

Não. A investigação descrita foi realizada em cinco rios do Rio de Janeiro. Para saber se há ocorrência semelhante na Amazônia, seriam necessárias coletas e análises específicas nas bacias da região.

Quando devem sair novos resultados?

A segunda fase analisou 13 rios com coletas feitas entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. A previsão de conclusão das análises é o primeiro semestre de 2027.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA