
O likweli foi identificado após 114 detecções, três exemplares analisados e comparações entre corpo, crânio, dentes, genética e vocalizações.
Uma fotografia abriu uma busca de 14 anos
Em meio ao dossel fechado da floresta congolesa, um pequeno macaco de pelos pretos e longos foi fotografado em 2008. A imagem registrou um topete escuro e uma característica que depois se tornaria decisiva para a identificação: a boca sem pelos, marcada por um tom alaranjado que pode alcançar a base das narinas. Naquele momento, porém, o animal ainda não podia ser reconhecido como uma espécie própria. A fotografia foi feita durante uma expedição na região que hoje integra o Parque Nacional de Lomami, na República Democrática do Congo, e serviu como o primeiro sinal de que havia um primata ainda desconhecido pela ciência.
Dez anos depois, em 2018, uma equipe liderada pelo pesquisador Jean-Pierre Kapale, da Lukuru Wildlife Research Foundation, voltou a encontrar o macaco. Novas imagens reforçaram a suspeita de que não se tratava apenas de uma variação visual de uma espécie já conhecida. A partir daquele reencontro, pesquisadores passaram a reunir registros na região entre os rios Lomami e Lilo, na bacia do alto Congo. A investigação avançou durante quatro anos, até 2022, quando o conjunto de observações permitiu comparar a aparência do animal com outras espécies do gênero Colobus.
O likweli foi identificado por várias evidências
Entre 2018 e 2022, os pesquisadores reuniram 114 detecções do primata. Desse total, 89 foram observações visuais, em sua maioria dentro do Parque Nacional de Lomami. O trabalho também incorporou três indivíduos encontrados mortos e confiscados de caçadores, sendo um macho e duas fêmeas. Esses exemplares forneceram o material necessário para uma análise mais ampla, que não dependia apenas das fotografias feitas na copa das árvores.
A confirmação combinou características externas, medidas do crânio, formato dos dentes, dados genéticos e vocalizações. O resultado foi a descrição de uma nova espécie, chamada Colobus congoensis, conhecida localmente como likweli. A denominação reconhece a República Democrática do Congo e a Bacia do Congo, região onde o animal vive. A descrição foi assinada por 11 cientistas e publicada no periódico de acesso aberto PLOS One. A identificação é considerada a quinta descoberta de uma espécie de primata no continente africano nos últimos 75 anos, um intervalo que ajuda a dimensionar o significado do registro.
Um colobo pequeno em uma floresta de árvores altas
O likweli pertence ao gênero Colobus, grupo restrito às florestas tropicais da África e reconhecido por espécies submetidas a forte pressão de conservação. Os exemplares analisados mediam cerca de 1,2 metro da cabeça à ponta da cauda, com mais de 70 centímetros concentrados apenas na cauda. Dentro do gênero, é considerado um animal de pequeno porte. O corpo coberto por pelos pretos contrasta com a área alaranjada ao redor da boca, uma marca visual que ajuda a diferenciá-lo de outros colobos.
A espécie foi encontrada em florestas maduras, com árvores altas e dossel fechado. Sua área de vida estimada é de aproximadamente 1.700 quilômetros quadrados, menor que a média registrada para outros colobos. O espaço conhecido fica entre os rios Lomami e Lilo, no centro-leste da República Democrática do Congo, uma das regiões de maior importância biológica da África Central. A combinação entre habitat específico, distribuição restrita e dependência da floresta madura torna a proteção do parque e de sua zona de amortecimento parte importante do futuro do likweli, embora a descoberta, por si só, não defina uma categoria oficial de ameaça.
A descoberta amplia o mapa dos primatas africanos
Mais de 200 espécies de primatas são conhecidas em todo o continente africano, o equivalente a cerca de 43% da biodiversidade mundial do grupo. O reconhecimento do Colobus congoensis mostra que esse inventário ainda pode crescer mesmo em regiões investigadas por expedições ao longo de anos. A própria história do likweli revela o processo: uma fotografia inicial, um reencontro uma década depois, dezenas de registros e, por fim, a comparação de corpos, crânios, dentes, material genético e sons.
O Parque Nacional de Lomami já havia sido associado à documentação de outra nova espécie de primata, o lesula, Cercopithecus lomamiensis, registrada em 2012. O novo colobo também reforça o valor da área e de seu entorno para pesquisas sobre a diversidade escondida nas copas das árvores. A divulgação ocorreu em 20 de julho de 2026. Em florestas como a do alto Congo, conhecer uma espécie não encerra o trabalho: transforma um animal antes visto apenas de relance em parte identificável do patrimônio natural que precisa ser acompanhado no próprio território.
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