Microtomografia em fósseis do Ceará revela nova família de besouros que viveu no Brasil há 113 milhões de anos

Microtomografia em fósseis do Ceará revela nova família de besouros que viveu no Brasil há 113 milhões de anos
Ilustração: Revista Amazônia

Estruturas escondidas na rocha permitiram reconstruir partes do corpo de uma linhagem de Archostemata preservada na Formação Crato

Uma escavação digital encontra besouros dentro da rocha

Uma imagem que parecia mostrar apenas a parte superior de um pequeno fóssil passou a revelar pernas, tórax e peças bucais escondidos no interior da rocha. O material pertence a besouros que viveram há cerca de 113 milhões de anos na região que hoje corresponde ao Nordeste brasileiro. A descoberta foi feita a partir de fósseis da Formação Crato, no Ceará, e permitiu identificar uma nova linhagem de besouros, incluída em uma nova família.

O avanço ocorreu quando pesquisadores do Brasil e da Alemanha aplicaram microtomografia computadorizada aos espécimes. A técnica produziu reconstruções tridimensionais sem depender da exposição direta de todas as estruturas preservadas. O resultado registrou, na América do Sul, fósseis do grupo Archostemata, considerado um dos ramos mais antigos entre os besouros. A espécie representada nas imagens é Cratocupes scabrosus, observada em vista dorsal depois de um tratamento com álcool e em reconstrução da região ventral.

O material estava no acervo do Museu de Zoologia da USP

Os fósseis analisados pertencem à coleção do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Eles haviam sido incorporados recentemente ao acervo quando os pesquisadores perceberam que a preservação poderia permitir uma identificação mais detalhada. A qualidade do material indicou desde as primeiras análises que os espécimes eram besouros do grupo Archostemata, embora fósseis desse grupo ainda não tivessem sido registrados na América do Sul.

A superfície dorsal dos exemplares estava visível havia anos, mas a parte inferior permanecia encoberta pela matriz rochosa. Essa diferença é importante porque muitas características usadas para reconhecer e comparar besouros estão na região ventral do corpo. Sem acessar essas estruturas, a comparação evolutiva fica limitada. A microtomografia funcionou como uma escavação digital, separando virtualmente o fóssil da rocha e permitindo observar a anatomia preservada em diferentes planos.

A técnica revelou estruturas que não apareciam na superfície

Na microtomografia computadorizada, os raios X atravessam o material e registram diferenças entre a rocha e as partes fossilizadas. Os dados obtidos são processados para formar cortes sucessivos e, depois, uma representação tridimensional. Nesse caso, a reconstrução alcançou partes das pernas, do tórax e das peças bucais dos besouros. Essas estruturas ajudaram os pesquisadores a compreender a posição da linhagem dentro da história evolutiva do grupo.

O estudo descreve uma nova família de besouros com base no conjunto de características preservadas nos fósseis. A identificação não dependeu somente do contorno externo, porque a região escondida forneceu informações anatômicas essenciais para diferenciar e relacionar os exemplares. A aplicação desse método ainda é pouco explorada em insetos fósseis preservados em rochas como as da Formação Crato. Nesse caso, a tecnologia transformou uma superfície parcialmente acessível em um corpo que podia ser examinado em três dimensões.

A Formação Crato preserva uma parte da biodiversidade de Gondwana

A Formação Crato está localizada na Bacia do Araripe e é reconhecida pela qualidade de preservação dos fósseis. Seus depósitos calcários registram organismos que viveram durante o Cretáceo Inferior, período em que a região fazia parte de Gondwana. O antigo supercontinente reunia massas de terra que hoje correspondem à América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia. Fósseis com detalhes anatômicos preservados ajudam a reconstruir a biodiversidade daquele ambiente.

O registro dos besouros amplia o conhecimento sobre os Archostemata e mostra como uma coleção científica pode ganhar novas informações quando recebe métodos de análise capazes de acessar estruturas ocultas. A descoberta não se limita à identificação de animais que viveram no Ceará há 113 milhões de anos. Ela também documenta, pela primeira vez na América do Sul, a presença fóssil desse grupo e acrescenta uma nova linhagem à história dos besouros. O artigo com a descrição completa foi publicado na revista científica Systematic Entomology e a divulgação ocorreu em 16 de julho de 2026.

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