
O pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, tem um hábito que virou ferramenta de conservação: precisa subir à superfície para respirar ar a cada poucos minutos. É nesse momento que ele pode ser contado. E quem faz essa conta, com olho treinado e caderno na mão, decide na prática quantos peixes podem ser pescados em cada lago. Em outubro, 23 pessoas foram certificadas para essa função no Amazonas, e oito delas são mulheres.
Prova prática numa aldeia do Japurá
A certificação foi organizada pelo Instituto Mamirauá, com financiamento do Fundo Vale. Dos 31 participantes, 23 foram aprovados, um índice superior a 74%. A avaliação prática ocorreu em 12 de outubro no território da Aldeia Boca do Jurupari, na região do rio Japurá, no Médio Solimões, e reuniu representantes da Associação dos Trabalhadores Rurais de Juruá e de comunidades assessoradas pelo instituto, incluindo participantes indígenas.
Para ser aprovado, o candidato precisa demonstrar precisão. A estimativa feita por ele, a partir das subidas dos peixes para respirar, é comparada com o número de pirarucus capturados num arrasto de rede. A diferença não pode passar de 30%, para mais ou para menos.
Como funciona a contagem
O método foi desenvolvido no fim dos anos 1990 na Reserva Mamirauá, a partir do conhecimento de pescadores que já sabiam reconhecer cada peixe pelo jeito de boiar. O contador fica numa canoa ou na margem, divide o lago em trechos e registra cada subida, distinguindo adultos e jovens pelo tamanho e pelo som da respiração. Como o pirarucu respira em intervalos regulares, é possível estimar quantos vivem ali sem tirar nenhum da água.
O procedimento é detalhado na cartilha Contagem e Censo Populacional de Pirarucu, publicada pelo instituto para apoiar a formação e o trabalho dos manejadores. Os números do censo servem para definir as cotas de pesca autorizadas, que são uma fração dos adultos contados. Assim, a comunidade sempre deixa no lago peixes suficientes para a reprodução.
Mulheres no centro do manejo
Para Marioneide Alves, moradora da comunidade Igarapé do Branco, na Reserva Extrativista do Baixo Juruá, a capacitação foi uma chance de ganhar experiência em campo. Ela resume a motivação: as mulheres precisam desse conhecimento, e não adianta fazer um curso sem colocar em prática.
Brenda Meireles, zootecnista e analista do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, destacou o envolvimento dos indígenas da aldeia e dos demais participantes como decisivo para os bons resultados. A coordenadora do programa, Ana Cláudia Torres, explica que a certificação é um reconhecimento do desempenho e da precisão de quem conta.
Projetos por trás da formação
A atividade teve apoio do projeto Sustenta.Bio, parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, e o Fundo Vale, voltada às economias da sociobiodiversidade e à pesca artesanal em unidades de conservação de uso sustentável e terras indígenas da Amazônia. O instituto também conduz um projeto de fortalecimento da gestão de recursos naturais com três associações: a de Trabalhadores Rurais de Juruá, a Associação Agroextrativista de Auati-Paraná e a Associação dos Produtores Agroextrativistas da Flona Tefé e Entorno.
Do quase desaparecimento à recuperação
O pirarucu foi tão pescado ao longo do século 20 que desapareceu de muitos lagos da Amazônia. No Amazonas, a pesca da espécie só é permitida em áreas de manejo autorizadas, onde as comunidades fazem a contagem anual, cuidam dos lagos e vigiam contra invasores. Nesses lugares, as populações de pirarucu se recuperaram, e a venda do peixe manejado virou uma fonte importante de renda para famílias ribeirinhas e indígenas.
Cada novo contador certificado amplia a capacidade das comunidades de fazer o próprio monitoramento. E com mais mulheres nessa função, a decisão sobre quanto pescar, e quanto deixar para o ano seguinte, passa a ter mais vozes dentro das próprias comunidades.
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