Oito mulheres estão entre os 23 novos contadores de pirarucu do Amazonas, função que define quantos peixes gigantes podem ser pescados

Oito mulheres estão entre os 23 novos contadores de pirarucu do Amazonas, função que define quantos peixes gigantes podem ser pescados
Pirarucu (Arapaima gigas), um dos maiores peixes de água doce do mundo. Foto: Cliff, via Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.

O pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, tem um hábito que virou ferramenta de conservação: precisa subir à superfície para respirar ar a cada poucos minutos. É nesse momento que ele pode ser contado. E quem faz essa conta, com olho treinado e caderno na mão, decide na prática quantos peixes podem ser pescados em cada lago. Em outubro, 23 pessoas foram certificadas para essa função no Amazonas, e oito delas são mulheres.

Prova prática numa aldeia do Japurá

A certificação foi organizada pelo Instituto Mamirauá, com financiamento do Fundo Vale. Dos 31 participantes, 23 foram aprovados, um índice superior a 74%. A avaliação prática ocorreu em 12 de outubro no território da Aldeia Boca do Jurupari, na região do rio Japurá, no Médio Solimões, e reuniu representantes da Associação dos Trabalhadores Rurais de Juruá e de comunidades assessoradas pelo instituto, incluindo participantes indígenas.

Para ser aprovado, o candidato precisa demonstrar precisão. A estimativa feita por ele, a partir das subidas dos peixes para respirar, é comparada com o número de pirarucus capturados num arrasto de rede. A diferença não pode passar de 30%, para mais ou para menos.

Como funciona a contagem

O método foi desenvolvido no fim dos anos 1990 na Reserva Mamirauá, a partir do conhecimento de pescadores que já sabiam reconhecer cada peixe pelo jeito de boiar. O contador fica numa canoa ou na margem, divide o lago em trechos e registra cada subida, distinguindo adultos e jovens pelo tamanho e pelo som da respiração. Como o pirarucu respira em intervalos regulares, é possível estimar quantos vivem ali sem tirar nenhum da água.

O procedimento é detalhado na cartilha Contagem e Censo Populacional de Pirarucu, publicada pelo instituto para apoiar a formação e o trabalho dos manejadores. Os números do censo servem para definir as cotas de pesca autorizadas, que são uma fração dos adultos contados. Assim, a comunidade sempre deixa no lago peixes suficientes para a reprodução.

Mulheres no centro do manejo

Para Marioneide Alves, moradora da comunidade Igarapé do Branco, na Reserva Extrativista do Baixo Juruá, a capacitação foi uma chance de ganhar experiência em campo. Ela resume a motivação: as mulheres precisam desse conhecimento, e não adianta fazer um curso sem colocar em prática.

Brenda Meireles, zootecnista e analista do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, destacou o envolvimento dos indígenas da aldeia e dos demais participantes como decisivo para os bons resultados. A coordenadora do programa, Ana Cláudia Torres, explica que a certificação é um reconhecimento do desempenho e da precisão de quem conta.

Projetos por trás da formação

A atividade teve apoio do projeto Sustenta.Bio, parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, e o Fundo Vale, voltada às economias da sociobiodiversidade e à pesca artesanal em unidades de conservação de uso sustentável e terras indígenas da Amazônia. O instituto também conduz um projeto de fortalecimento da gestão de recursos naturais com três associações: a de Trabalhadores Rurais de Juruá, a Associação Agroextrativista de Auati-Paraná e a Associação dos Produtores Agroextrativistas da Flona Tefé e Entorno.

Do quase desaparecimento à recuperação

O pirarucu foi tão pescado ao longo do século 20 que desapareceu de muitos lagos da Amazônia. No Amazonas, a pesca da espécie só é permitida em áreas de manejo autorizadas, onde as comunidades fazem a contagem anual, cuidam dos lagos e vigiam contra invasores. Nesses lugares, as populações de pirarucu se recuperaram, e a venda do peixe manejado virou uma fonte importante de renda para famílias ribeirinhas e indígenas.

Cada novo contador certificado amplia a capacidade das comunidades de fazer o próprio monitoramento. E com mais mulheres nessa função, a decisão sobre quanto pescar, e quanto deixar para o ano seguinte, passa a ter mais vozes dentro das próprias comunidades.

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