
Pesquisa com 300 elementos de 26 espécies identifica adaptações à falta de água, ao solo raso e à alta exposição solar nos inselbergs.
Plantas sobrevivem onde o solo quase desaparece
Em morros rochosos do Sudeste, árvores, arbustos e palmeiras crescem diretamente sobre superfícies expostas, com pouco solo para guardar água e nutrientes. Mesmo sob alta exposição solar, essas plantas formam comunidades capazes de armazenar entre 14 e 48 toneladas de carbono por hectare apenas na biomassa acima do solo. O valor não inclui as raízes, que também acumulam carbono e podem alterar a estimativa quando forem avaliadas em estudos futuros. As áreas pesquisadas são os inselbergs, afloramentos rochosos que se elevam na paisagem e oferecem condições muito diferentes das florestas que crescem ao redor. A pesquisa analisou 300 elementos de 26 espécies, incluindo árvores, arbustos e palmeiras. O levantamento foi divulgado em 18 de maio de 2025 e colocou em foco uma vegetação que combina resistência a condições severas com capacidade de conservar carbono.
Entre as espécies identificadas estão duas plantas endêmicas de inselbergs do bioma, a paineira-das-pedras, Pseudobombax petropolitanum, e a Wunderlichia azulensis, árvore da família dos girassóis. As duas estão ameaçadas de extinção. A paineira-das-pedras mostra até onde uma planta pode crescer nesse ambiente: em alguns casos, alcança 16 metros de altura e 116 centímetros de diâmetro, embora se desenvolva sobre rochas expostas. O tamanho se relaciona à longevidade e à capacidade de acumular biomassa, formada quando a planta usa dióxido de carbono para produzir energia e crescer. A presença dessas espécies em locais com pouca água não significa que elas dispensem recursos, mas indica que possuem características capazes de reduzir os efeitos da seca, do calor e da escassez de nutrientes.
Raízes guardam água e folhas reduzem perdas
Os inselbergs acumulam pouco solo porque a rocha ocupa grande parte da superfície. Com isso, a água disponível é limitada, os nutrientes são escassos e a radiação solar incide diretamente sobre as plantas durante longos períodos. As espécies lenhosas que vivem nesses afloramentos apresentam adaptações associadas a esse conjunto de pressões ambientais. Entre elas estão as raízes tuberosas, estruturas que armazenam água, e as folhas caducifólias, que caem durante os períodos mais secos. A queda das folhas reduz a perda hídrica quando a planta tem menos água disponível para repor o que evapora. Essas estratégias não eliminam os efeitos das condições extremas, mas ajudam as plantas a atravessar fases de maior escassez. O mecanismo também explica por que a vegetação dos inselbergs pode permanecer ativa em ambientes onde outras espécies teriam dificuldade para se estabelecer.
A resistência dessas plantas tem importância além dos próprios morros rochosos. Muitas das espécies inventariadas podem ser usadas em projetos de restauração de áreas degradadas pela mineração de rochas ornamentais, atividade econômica que ameaça os inselbergs capixabas. A escolha de plantas adaptadas a solos rasos, alta exposição solar e baixa disponibilidade de água pode tornar o estabelecimento da vegetação mais compatível com as condições encontradas nesses locais. O estudo, porém, não apresenta uma receita pronta para todos os projetos de restauração. Cada área pode conservar características próprias, e o desempenho das espécies precisa ser acompanhado no campo. Ainda assim, o levantamento fornece uma base para considerar a flora dos inselbergs em iniciativas que buscam recuperar superfícies rochosas alteradas e recompor funções ambientais.
O carbono acumulado pode ser maior do que a medição inicial
A quantidade estimada de carbono, entre 14 e 48 toneladas por hectare na biomassa aérea, é equivalente à registrada em florestas estacionais que crescem no entorno dos inselbergs do sul do Espírito Santo. A comparação ajuda a dimensionar o papel dessas comunidades vegetais, que ocupam ambientes com menos solo e água do que as formações próximas. As plantas absorvem dióxido de carbono da atmosfera e o incorporam à biomassa, incluindo troncos, galhos e folhas. Como as raízes ficaram fora dessa primeira estimativa, o estoque total pode ser diferente quando essa parte for medida. O número também não representa, sozinho, a quantidade de carbono retirada anualmente da atmosfera. Para calcular o sequestro anual, é necessário saber quanto tempo cada planta vive, em que velocidade cresce e quanto carbono permanece armazenado em seus diferentes tecidos.
Dayvid Couto, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica, afirma que o trabalho foi o primeiro estudo no mundo a estimar a biomassa e o carbono de plantas lenhosas de inselbergs. Ele ressalta que ainda são necessários dados sobre longevidade, crescimento e biomassa subterrânea para transformar as estimativas em uma avaliação mais robusta do sequestro de carbono. A equipe pretende monitorar essas questões em estudos futuros, dependendo de financiamento. Essa limitação é importante porque uma espécie de crescimento lento pode acumular carbono por longos períodos, enquanto outra pode crescer mais rapidamente e ter uma trajetória diferente de armazenamento. Sem acompanhar o desenvolvimento das plantas, o estoque observado representa uma fotografia do ambiente, e não uma medida completa da quantidade fixada a cada ano.
Espécies ameaçadas ganham uma função na recuperação de áreas
O mesmo conjunto de características que permite às plantas ocupar rochas expostas pode orientar a recuperação de áreas submetidas à mineração. Raízes capazes de armazenar água, folhas que caem nos períodos secos e tolerância à alta exposição solar são atributos relacionados às dificuldades enfrentadas durante o estabelecimento de uma planta em terreno degradado. Por isso, as espécies lenhosas dos inselbergs são consideradas promissoras para projetos de restauração de áreas afetadas pela mineração de rochas ornamentais. A possibilidade não reduz a necessidade de proteger os afloramentos onde essas plantas ocorrem naturalmente. Pelo contrário, a ocorrência restrita da paineira-das-pedras e da Wunderlichia azulensis, ambas ameaçadas de extinção, reforça a importância de conservar suas populações e seus ambientes. Usar espécies adaptadas em restauração exige cuidado para preservar a diversidade e evitar que a recuperação seja reduzida à plantação de poucos tipos.
O estudo divulgado em 18 de maio de 2025 pela Agência Brasil transforma uma paisagem de rocha, sol e solo raso em um indicador de resistência ecológica. Nos morros do Sudeste, plantas que parecem limitadas pela falta de recursos mantêm biomassa, armazenam carbono e podem contribuir para recuperar áreas alteradas, embora ainda faltem medições sobre raízes, crescimento e longevidade. A conexão com o Espírito Santo é direta, tanto pela presença dos inselbergs capixabas quanto pela ameaça da mineração de rochas ornamentais. O conhecimento produzido não substitui a conservação dos afloramentos nem encerra a avaliação sobre o carbono. Ele mostra, porém, que proteger essas plantas significa preservar mecanismos que a vegetação desenvolveu para viver no limite entre a rocha e a atmosfera.
Com informações da Agência Brasil.
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