Pesquisadores de Stanford juntam coral branqueado a um clone saudável e veem a recuperação completa em sete semanas

Pesquisadores de Stanford juntam coral branqueado a um clone saudável e veem a recuperação completa em sete semanas
Foto: ABC News

Estudo em laboratório mostra que corais doentes podem receber de volta suas algas por um elo de tecido, mas a técnica ainda não serve para recifes reais.

Um fragmento de coral esbranquiçado, à beira da morte, voltou a ter cor e a se alimentar em sete semanas depois de ficar encostado em outro fragmento saudável, geneticamente idêntico a ele. O resultado vem de um experimento de laboratório conduzido na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e publicado na revista Science Advances. Os pesquisadores acreditam que o contato permite ao coral sadio transferir ao doente as algas microscópicas de que ele perdeu.

O trabalho foi liderado por Danny Collins, doutorando em Oceanos em Stanford, com a participação do professor de Ciências Marinhas Steve Palumbi. O estudo completo na Science Advances descreve o experimento feito com pequenos pedaços de uma única espécie de coral.

Por que o coral perde a cor

Corais são animais, e a cor que se associa a eles vem de algas microscópicas que vivem dentro de seus tecidos. Por meio da fotossíntese, essas algas fornecem boa parte do alimento do coral.

Quando a água fica quente demais, o coral expulsa as algas. Ele fica branco e, sem a fonte de nutrientes, pode morrer de fome. Mesmo quando sobrevive, a recuperação costuma levar meses ou anos.

Segundo a NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, o último evento global de branqueamento durou cerca de dois anos e meio e expôs aproximadamente 84% da área de recifes do mundo a calor capaz de causar o fenômeno. A mesma fonte lembra que os recifes abrigam ao menos um quarto da vida marinha, embora cubram uma fração mínima dos oceanos.

Da bactéria no plástico a uma pista inesperada

A ideia nasceu de outra pesquisa. Collins estudava como proteger corais de bactérias patogênicas presentes no plástico, que podem passar doenças aos animais por contato. Ele se perguntou se o mecanismo poderia ser invertido para levar aos corais branqueados as algas benéficas que lhes faltam.

Ao conversar com Palumbi, soube que ele já tinha feito uma observação casual em 2025: um coral saudável tocou acidentalmente um fragmento branqueado. Os dois decidiram testar a hipótese com um experimento simples, colocando um coral sadio em contato com um branqueado.

“E nós ficamos impressionados ao ver os resultados incríveis, que eles se recuperaram totalmente em um período curto”, disse Collins.

Como o contato fez diferença

Os pesquisadores notaram que os tecidos dos dois fragmentos se fundiam e formavam uma ponte. Collins descreveu esse elo como uma “rodovia de nutrientes”, pela qual o coral saudável enviava as algas ao coral branqueado.

A transferência das algas começou em apenas 36 horas após o contato. Em testes com diferentes durações, bastou uma semana para o fragmento doente se recuperar por completo. Mesmo contatos mais curtos deram um impulso inicial à recuperação.

Quando os pares foram separados por poucos milímetros, houve, nas palavras do pesquisador, “basicamente nenhuma recuperação”. O contato físico, portanto, foi essencial.

O limite que impede o uso em recifes

A técnica só funcionou entre corais de mesmo clone genético. Quando os fragmentos tinham origens genéticas diferentes, não houve recuperação. “Vimos interações antagônicas quase semelhantes a um transplante de órgão rejeitado”, explicou Collins.

Por isso, segundo ele, o método provavelmente não poderá ser ampliado para recifes naturais na forma testada. Foi um experimento de laboratório, com uma só espécie.

O resultado, porém, aponta um caminho. “Dá para extrair esses simbiontes, as algas, de corais saudáveis e criar novas intervenções para introduzi-los em corais branqueados. Então seria possível explorar uma recuperação rápida sem a necessidade de contato ou de corais saudáveis no recife, possivelmente em escala”, afirmou. Isso ainda é uma possibilidade a ser testada, não um resultado comprovado.

O que isso significa para a Amazônia

A pesquisa não foi feita na região, mas o tema dialoga com a foz do Amazonas. A região abriga o Grande Sistema de Recifes da Foz do Amazonas, na margem equatorial brasileira, um ambiente diferente dos recifes rasos e transparentes do Caribe ou do Pacífico. Os autores do estudo não tratam desse sistema, e o resultado não pode ser transposto automaticamente para ele. Fica, porém, a lição de que a saúde dos recifes depende da relação entre o animal e suas algas.

Prevenir continua sendo o principal

Collins afirma que a técnica pode ser uma entre várias ferramentas para ajudar recifes a se recuperar de ondas de calor marinhas. Para ele, a solução de fundo é evitar o branqueamento: “A solução real será garantir que esses corais não branqueiem. Mas este é apenas um método adicional para garantir que eles possam se recuperar e se manter saudáveis após esses eventos.”

O próximo passo apontado pela equipe é investigar se as algas podem ser extraídas e aplicadas sem a necessidade de contato entre corais, o que poderia tornar a recuperação viável em maior escala.

Com informações de Stanford University.

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